
Nora Roberts 
A ilha do amor



No gostava de assumir riscos. Sempre se assegurava de pisar em cho firme antes de dar o seguinte passo. Era parte de sua personalidade, ao menos, assim tinha sido durante quase dez anos. treinou-se para ser prtica, cautelosa. Megan Ou'Riley era uma mulher que, pelas noites, sempre se assegurava de ter as portas fechadas com chave.

Para o vo do Oklahoma a Maine, tinha preparado meticulosamente uma bolsa de mo para ela e para seu filho, e tinha encarregado que lhe enviassem o resto de seus pertences em um vo de carga. Era uma tolice, dizia-se, perder tempo esperando na cinta de recolhimento de bagagens.

O traslado ao Este no respondia a um impulso. Levava seis meses pensando nisso. Era uma viagem prtica e, ao mesmo tempo, com certa dose de aventura, tanto para ela como para o Kevin. A adaptao no podia ser muito difcil, pensou observando a seu filho, apoiado no guich, dormitado. Tinham famlia em Bar Harbor e Kevin era presa da excitao desde que lhe disse que estava pensando em transladar-se a viver perto de seu tio e de seu meio irmos. E primos, pensou. Havia quatro novos membros na famlia desde que esteve em Maine por primeira vez, fazia j alguns anos, para assistir  bodas de seu irmo com a Amanda Calhoun.

Observou dormir a seu filho, a seu pequeno. Embora j no era to pequeno, tinha quase nove anos. Seria bom para ele formar parte de uma grande famlia. Os Calhoun eram generosos com seus afetos, graas a Deus.

Nunca esqueceria como Suzanna Calhoun Dumont, Bradford de segundas npcias, tinha-a recebido no ano anterior. Tinha sido clida e afetuosa, inclusive sabendo que Megan tinha sido amante de seu marido, Baxter Dumont, antes de seu matrimnio, e que lhe tinha dado um filho.

 obvio, quando se apaixonou pelo Baxter, Megan nem sequer conhecia a existncia da Suzanna. Tinha sozinho dezessete anos e era ingnua e crdula, ansiosa por acreditar em promessas de amor eterno. No, no sabia que Bax estava comprometido com a Suzanna Calhoun.

Quando nasceu seu filho, Baxter estava em sua lua de mel. Logo, nunca reconheceu ou viu o menino que Megan Ou'Riley lhe tinha dado.

Anos depois, quando o destino uniu ao irmo do Megan, Sloan, com a irm da Suzanna, Amanda, a histria saiu  luz.

Finalmente, graas s voltas e caprichos do destino, Megan e seu filho viveriam na casa onde Suzanna e suas irms tinham crescido. Kevin teria uma famlia: um meio irmo, uma meia irm, primos e um monto de tias e tios, todos vivendo na mesma casa, e mida casa.

-As Torres -murmurou Megan. A gloriosa e antiga estrutura de pedra a que Kevin ainda seguia chamando castelo.

perguntou-se como seria viver ali, trabalhar ali.

Tinha sido remoada, e uma asa da mesma se utilizava como hotel, o Hotel St. James., uma idia do Trenton St. James III, que se tinha casado com a menor das Calhoun, Catherine.

Os hotis St. James eram conhecidos no mundo inteiro por sua qualidade e sua classe. A oferta de unir-se  empresa em qualidade de administradora geral, depois de muita reflexo, era muito tentadora para resistir a ela.

E morria por ver seu irmo, Sloan, ao resto da famlia e  prpria casa.

dizia-se que era uma tolice est-lo, mas mesmo assim, estava nervosa. O traslado era um passo muito prtico e muito lgico. Seu novo cargo, administradora geral, satisfazia suas ambies e, embora nunca tinha tido problemas de dinheiro, o salrio, certamente, no era desprezvel.

E o mais importante de tudo, poderia passar mais tempo com o Kevin.

Quando anunciaram a manobra de aproximao ao aeroporto, Megan se inclinou a um lado e acariciou a seu filho. Kevin abriu os olhos com gesto sonolento.

-J chegamos?

-Quase. Ponha reto o respaldo do assento. Olhe, pode-se ver a baa.

-iremos montar em barco, verdade? -disse Kevin. De ter estado completamente acordado talvez teria pensado que era muito major para ficar a dar saltos no assento, mas acabava de despertar, de modo que saltou com excitao-. E quero ir ver baleias, e montar no navio do pai novo do Alex.

Ao Megan, a idia de montar em navio lhe deu nuseas, mas sorriu.

-claro que sim.

-vamos viver no castelo? -disse Kevin olhando a sua me.

Era um menino precioso, de cabelo negro e encaracolado e pele dourada.

-Voc dormir na antiga habitao do Alex.

-H fantasmas -disse o menino, sonriendo. Faltavam-lhe alguns dentes.

-Isso dizem. Mas fantasmas bons.

-Pode que no todos sejam bons -disse Kevin, ao menos, isso esperava ele-. Alex diz que h muitos, e que algumas vezes gritam e se queixam. O ano passado um homem caiu da janela da torre e se rompeu todos os ossos.

Megan se estremeceu. Aquela histria era verdade. As esmeraldas dos Calhoun, descobertas um ano antes, tinham dado lugar a mais de uma lenda e tinham ocasionado um roubo e um assassinato.

-Mas agora j no h perigo, Kevin, As Torres so seguras.

-J.

Era um menino, e esperava que, ao menos, houvesse um pouco de perigo.



No aeroporto, outro menino no parava de imaginar aventuras. Dava-lhe a impresso de que levava horas esperando a seu irmo. Sua me lhe tirava da mo e ele tirava da mo a sua irm Jenny, porque, sua me lhe dizia que era o major e tinha que cuidar dela.

Sua me, alm disso, sustentava ao beb em braos, a seu novo irmo. Alex estava impaciente.

-por que demoram tanto?

-Porque se demora muito em sair do avio e chegar at a porta.

-por que a chamam porta se no ser uma porta? -disse Jenny.

-Acredito que antes sim havia portas, assim que as seguem chamando assim.

Era a melhor explicao que ocorreu a Suzanna, depois de lutar durante meia hora com trs meninos impaciente.

O beb fez uma careta e sorriu.

-Olhe, mame! Olha-os! -exclamou Alex e saiu correndo para o Kevin.

Sua irm Jenny foi detrs dele, e entre os dois atropelaram a uns quantos passageiros. Suzanna ps gesto de desculpa e saudou o Megan com a mo.

-Ol! -disse Alex, que, seguindo as instrues de sua me, tomou a bagagem do Kevin-. Tenho que levar sua mala porque ides vir a nossa casa.

Incomodou-o ver que, embora sua me lhe dizia freqentemente que estava muito alto para sua idade, Kevin fora ainda mais alto.

-Ainda tem o forte?

-Sim, na casa grande. E tenho um novo no endoideci. Ns vivemos no endoideci.

-Com papai -interveio Jenny-. Temos nomes novos e tudo. Pode arrumar tudo o que est quebrado e me tem feito minha habitao.

-Tem cortinas rosas -disse Alex com um gesto de brincadeira.

Sabendo que havia perigo de discusso, Suzanna separou a seus filhos.

-Que tal a viagem? -disse, inclinou-se para beijar ao Kevin e logo beijou ao Megan.

-Muito bem, obrigado.

Megan seguia sem saber como responder ao amvel afeto da Suzanna. Lhe deu vontade de gritar: "Deitei-me com seu marido, entende? Pode que ento no fora seu marido ainda e que eu no soubesse que estava comprometido contigo, mas os fatos so os fatos". Mas, em vez disso, disse:

-Embora com algum atraso. Espero que no tenham tido que esperar muito.

-Horas -disse Alex.

-Meia hora -corrigiu-o Suzanna, rendo-. No trazem mais bagagem?

-Mandei-o em um vo de carga. por agora no h mais que isto -disse Megan dando uns golpecitos em sua bolsa de viagem e, incapaz de resisti-lo, teve que olhar ao beb de brilhantes olhos que se agitava em braos da Suzanna. Era rosado e suave, com os olhos azuis escuros dos bebs e o cabelo, escasso, brilhante e negro, e esfregava um punho fechado contra o nariz.

-OH, que bonito .

-Tem trs semanas -disse Alex, dando-se importncia-. Chama-se Christian.

-Era o nome de meu bisav -disse Jenny-. E tambm temos primos novos. Bianca, Cordelia, embora a chamamos Delia, e Ethan.

-Todo mundo tem meninos -disse Alex com um gesto de auto-suficincia.

- bonito -disse Kevin depois de um comprido exame do beb-. Tambm  meu irmo?

-Claro -disse Suzanna, adiantando-se  resposta do Megan-. Temo-me que agora vais ter uma famlia muito grande.

Kevin a olhou com acanhamento e tocou a manta do beb.

-No me importa.

Suzanna olhou ao Megan sonriendo.

-Quer sustent-lo? -disse-lhe, refirindose ao menino.

-eu adoraria -disse Megan e tomou ao Christian, enquanto Suzanna sustentava sua bolsa de viagem-. Meu deus, que fcil  esquecer quo preciosos so e quo bem cheiram. E voc -disse olhando a Suzanna conforme abandonavam o terminal do aeroporto-, como tem to bom aspecto se solo tiverem acontecido trs semanas do parto?

-OH, obrigado, mas eu acredito que pareo um asco. Alex, no corra!

-Nem voc, Kevin! Como se tomou Sloan o de ser pai? Quanto senti no poder vir quando Mandy deu a luz, mas estava vendendo a casa e preparando o traslado e me era impossvel.

-No se preocupe,  normal. Sloan  um pai estupendo. Tem-lhes feito uma habitao de jogos aos meninos, com balanos e mveis de plstico. Tm-na cheia de brinquedos. Delia e Bianca se passam as horas ali e, quando C. C. e Trent vm  cidade, Ethan tambm est ali.

- maravilhoso que cresam juntos -disse Megan olhando ao Kevin, Alex e Jenny, pensando neles e nos outros meninos.

Suzanna a compreendia muito bem.

-Sim, assim . Me alegro de que esteja aqui, Megan.  como ter outra irm -disse e observou que Megan fechava os olhos, quase com pesadumbre, de modo que trocou de tema-. Que alvio que a partir de agora voc leve a contabilidade.

-Estou desejando comear a trabalhar.

Suzanna se deteve junto a uma pequena caminhonete e a abriu.

-Dentro -disse aos meninos e ps ao Christian, que seguia em braos do Megan, em seu assento-. Espero que siga dizendo o mesmo depois de revisar os livros, temo-me que Holt  um administrador desastroso, e Nathaniel...

-Ah,  verdade, Holt tem um companheiro. O que me disse Sloan, que  um velho amigo?

-Holt e Nathaniel cresceram juntos na ilha. Nathaniel voltou faz uns meses. Estava na marinha mercante. Bom, j est, carinho -disse Suzanna, beijou ao menino e olhou de esguelha ao resto, para assegurar-se de que se puseram o cinto de segurana. Fechou a porta lateral da caminhonete e se sentou ao volante.

- todo um personagem -concluiu dirigindo-se ao Megan-. Te vai encantar.

O personagem estava terminando a comida, composta de frango frito, salada de batatas e bolo de limo. Com um suspiro de satisfao, levantou-se da mesa e dirigiu a sua anfitri um olhar sedutor.

-O que tenho que fazer para que te case comigo?

A mulher riu e fez um gesto com a mo.

- um brincalho, Nate.

-Quem est brincando? -disse Nathaniel levantando-se e beijando  mulher na mo. Sempre cheirava a mulher: um aroma doce, sedutor, esplndido. Sorriu e a beijou na boneca-. Sabe que estou louco por ti, Cody.

Cordelia Calhoun McPike voltou a rir e lhe deu uns golpecitos na bochecha.

-O que voc gosta de  a comida que te preparo.

-Isso tambm -disse Nate, sonriendo.

Cordelia se separou dele e foi servir lhe um caf. Era toda uma mulher, pensou Nate. Alta, com personalidade, encantadora. Nate se assombrava de que nenhum homem tivesse apanhado ainda  viva McPike.

-Com quem tenho que competir esta semana?

-Agora que o hotel tornou a abrir, no tenho tempo para romances.

Cordelia estava satisfeita com a vida que levava. Todas suas queridas sobrinhas estavam felizmente casadas e, alm disso, dirigia a cozinha do hotel St. James Towers. Deu ao Nathaniel caf e, ao ver que se fixava em um bolo caseiro, cortou-lhe uma parte.

-Tem-me lido o pensamento.

Cordelia suspirou. No havia nada que a satisfizera mais que ver um homem desfrutando de sua comida.

A volta do Nathaniel Fury  cidade no lhe aconteceu desapercebida a ningum, e menos a Coco. Como ia passar desapercebido um homem alto, moreno, arrumado e com uns olhos cinzas e de olhar profundo, que, alm disso, possua um considervel encanto?

Levava camiseta e jeans negros, que destacavam seu corpo atltico, de larguras ombros, braos musculosos e quadril estreito.

Logo, estava aquele aura de mistrio e exotismo. Um exotismo que no se devia a seu aspecto, mas sim mas bem a uma questo de presena, adquirida nos anos que tinha passado no estrangeiro.

Se fosse vinte anos mais jovem.., pensou Coco. Embora solo fossem dez, corrigiu-se, mesando seu cabelo castanho.

Mas no o era, de modo que tinha dado ao Nathaniel o lugar em seu corao do filho que nunca tinha tido, e estava decidida a encontrar a mulher mais adequada para ele e a ajud-lo a que fora feliz. Igual a tinha feito com suas preciosas sobrinhas.

Tinha a impresso de que tinha sido ela a que tinha facilitado pessoalmente os romances de suas meninas e confiava em fazer o mesmo pelo Nathaniel.

-Ontem  noite te fiz a carta astral -disse, e comprovou o guisado de pescado que preparava para o jantar.

-Ah, sim? -disse Nathaniel, tomando outro bocado de bolo. Deus, aquela mulher sabia cozinhar.

-Est entrando em uma nova fase de sua vida, Nate.

Tinha visto muito mundo para desprezar totalmente a astrologia, ou qualquer outra coisa. De modo que sorriu.

-Acredito que deste no branco, Coco. Quero montar um negcio e construir uma casa.

-No, no, esta fase  mais pessoal -disse Cordelia, franzindo o cenho-. Tem que ver com Vnus.

Nathaniel sorriu.

-De modo que ao final te vais casar comigo.

Coco o assinalou com o dedo.

-antes de que acabe o vero -disse-, vais pedir lhe a algum que se case contigo, mas a srio. Vejo-te te apaixonando duas vezes, embora no estou segura do que significa isso -disse Coco, e refletiu uns instantes-. Nada dizia que pudesse escolher, embora havia muitas interferncias, e pode que algum perigo.

-Apaixonar-se por duas mulheres s pode trazer problemas -disse Nathaniel, que, por outro lado, estava contente de no ter, nenhuma relao naqueles momentos. As mulheres, simplesmente, sempre queriam que o homem com o que se relacionavam cumprisse com suas expectativas, mas ele, por sua parte, solo aspirava a satisfazer as suas-. Alm disso, eu estou apaixonado por ti... -disse e se aproximou de Coco para beij-la na bochecha.

O furaco se levantou sem aviso. A porta da cozinha se abriu de repente e trs torvelinhos grites se precipitaram por ela.

-Tia Coco! J chegaram!

-OH, Meu deus -disse Coco, apoiando uma mo sobre seu corao-. Que susto, Alex, tiraste-me um ano de vida -disse, mas sorriu e olhou ao menino que entrou com o Alex-.  Kevin? cresceste muitssimo! No vai lhe dar um beijo a sua tia Coco?

-Sim, senhora -disse Kevin, aproximando-se dela com gesto inseguro. E se viu envolto pelo suave aroma de Coco, que o apertou contra seus suaves peitos e o tranqilizou.

-Me alegro de que estejam aqui -disse Coco, com lgrimas nos olhos. Era muito sentimental-. Agora toda a famlia est reunida. Kevin, este  o senhor Fury. Nate, meu sobrinho neto.

Nathaniel conhecia a histria, sabia que o crpula do Baxter Dumont tinha deixado grvida a uma cria pouco antes de casar-se com a Suzanna. O menino ficou olhando, estava nervoso, mas tinha aprumo. Nathaniel se deu conta de que sabia a histria ou, ao menos, parte dela.

-Bem-vindo a Bar Harbour -disse estendendo a mo. Kevin a estreitou educadamente.

-Nate leva a loja de navios e de coisas com meu pai -disse Alex, a quem a expresso "meu pai" ainda lhe resultava muito nova-. Kevin quer ver baleias -disse ao Nathaniel-. Vem do Oklahoma e ali no h. Nem sequer tm gua no Oklahoma.

-Alguma sim que temos -disse Kevin-. E temos jeans. Aqui no h jeans.

-Eu tenho um traje de vaqueiro -interveio Jenny.

-No  de vaqueiro,  de vaqueira -corrigiu-a Alex-. Porque  uma menina.

-No.

-Sim.

Jenny fez uma panela.

-No.

-Bom, j vejo que por aqui tudo segue igual -disse Suzanna, aparecendo na porta naqueles instantes-. Ol, Nate, no esperava verte aqui.

-tive sorte -disse Nate, rodeando a Coco pelos ombros-. pude acontecer uma hora com minha mulher.

-Outra vez ligando com tia Coco? -disse Suzanna, mas se deu conta de que o olhar do Nate tinha trocado, e recordou que era quo mesma tinha a primeira vez que eles se viram. Um olhar incisivo, muito observadora. Tomou ao Megan do brao-. Megan Ou'Riley, Nathaniel Fury, o scio do Holt... e a ltima conquista da tia Coco.

-Encantada -disse Megan.

Estava cansada, tinha que est-lo para que aquele olhar, firme e clara, comovesse-a tanto. Deixou de emprestar ateno ao Nate, talvez muito bruscamente para as regras de boa educao, e sorriu a Coco.

-No trocaste nada.

-E isso que estou com o avental -disse Coco, abraando-a com fora-. vou preparar lhes algo, tm que estar cansados depois da viagem.

-um pouco.

-subimos a bagagem e deixada ao Christian no bero.

Enquanto Suzanna sentava aos meninos  mesa, sem deixar de conversar, Nathaniel se fixou no Megan Ou'Riley.

Agradvel como a brisa do Atlntico, decidiu. Algo nervosa e esgotada, mas sem querer demonstr-lo, pensou. A pele cor de pssego e o cabelo comprido e loiro formavam uma atrativa combinao.

Nathaniel estava acostumado a preferir mulheres morias e sedutoras, mas aquela mulher era algo especial. Tinha os olhos azuis, da cor do mar em calma ao entardecer, e a boca firme, embora se suavizava belamente quando sorria a seu filho.

Talvez excessivamente magra, pensou terminando o caf. A comida de Coco a ajudaria nesse sentido. Ou, talvez, parecesse to magra pela jaqueta e as calas de pinzas que levava.

Consciente de que Nathaniel a estava observando, Megan tratou de no perder o fio da conversao com Coco. Estava acostumada ao olhar dos homens quando era jovem e solteira, mas tinha acabado grvida pelo marido de outra mulher.

Sabia como reagiam muitos homens ao saber que era me e solteira, pensando que era uma mulher fcil, ligeira. Mas tambm sabia como lhes fazer trocar de opinio.

Sustentou o olhar do Nathaniel, com frieza, mas ele no apartou a sua, como faziam a maioria, mas sim continuou olhando-a sem piscar. Ela acabou por apertar os dentes.

"Bem," pensou ele, "tem guelra." Sorriu, levantou a taa de caf em um brinde silencioso e olhou a Coco.

-Tenho que ir, tenho uma visita. Obrigado pela comida, Coco.

-No se esquea, o jantar  s oito. Com toda a famlia.

Nate olhou ao Megan.

-No me perderei isso.

-Mais te vale -disse Coco, consultando o relgio e fechando os olhos-. Onde estar esse homem?

Outra vez chega tarde.

-O holands?

-Quem se no? Mandei-lhe ao aougueiro faz duas horas.

Nathaniel se encolheu de ombros. Seu companheiro de navio e novo assistente de Las Torres se regia segundo seu prprio horrio.

-Se o vir no mole, direi-lhe que venha.

-me d um beijo de adeus -disse Jenny, encantada quando Nathaniel tomou em braos.

- a vaqueira mais bonita da ilha -disse-lhe este ao ouvido.

Ao voltar para cho, Jenny olhou a seu irmo com um gesto de brincadeira.

-E voc -disse Nathaniel ao Kevin-, vete pensando quando quer que te d um passeio em barco -disse-. Encantado de conhec-la, senhora Ou'Riley.

-Nate  marinheiro -disse Jenny, dando-se importncia, uma vez que Nate tinha abandonado a habitao-. esteve em todo mundo e foi muitas coisas.

Megan no tinha a menor duvida.



Muitas coisas tinham trocado em Las Torres, embora as habitaes da famlia, nas dois primeiras novelo, e Esta asa permaneciam igual. Trent St. James, junto com o irmo do Megan, Sloan, que era arquiteto, tinha concentrado seu tempo e seus esforos nas dez sutes da asa Oeste, o novo restaurante e a torre Oeste. Toda essa zona compreendia o hotel.

depois de uma rpida visita, Megan se deu conta de que o esforo de remodelao e construo tinha merecido a pena.

O desenho do Sloan era acorde com a estrutura original, semelhante a uma fortaleza, conservando as estadias de altos tetos, escadas circulares e chamins, que funcionavam perfeitamente. Alm disso, tinha conservado os ventanales que davam acesso s terraos e balces.

O vestbulo era suntuoso, cheio de antiguidades e desenhado com multido de acolhedores rinces que convidavam ao recolhimento dos hspedes quando chovia ou fazia vento. A vista da baa e as colinas ou dos fabulosos jardins da Suzanna era espetacular.

Amanda, que, como diretora, acompanhou ao Megan na visita do hotel, disse-lhe que cada habitao era nica, mobiliada com as antiguidades e obras de arte que ficaram depois de que a maioria se vendessem para financiar a reforma.

Algumas sutes tinham dois nveis conectados por uma escada art dec, outras tinham as paredes enteladas ou forradas de madeira. Tambm havia tapearias ou tapetes persas, e em todas as habitaes flutuava a lenda das esmeraldas dos Calhoun e da mulher que as tinha levado.

As prprias jias, descobertas depois de uma busca difcil e perigosa -alguns diziam que com a ajuda dos espritos da Bianca Calhoun e Christian Bradford, o artista que a amou-, estavam expostas em uma urna de cristal no vestbulo. Sobre a mesma, havia um retrato da Bianca, pintado pelo Bradford oitenta anos atrs.

-So preciosas -sussurrou Megan-. Assombrosas.

As esmeraldas, engastadas com diamantes, despediam um fulgor verde to intenso que quase parecia que tivessem vida.

-Algumas vezes me paro e fico as olhando -admitiu Amanda-, e recordo o que custou as encontrar. Como tratou Bianca das utilizar para fugir com o Christian. Suponho que teria que me pr triste, mas ao as ter aqui, sob seu retrato, parece-me que se cumpriu uma espcie de justia.

-Assim  -disse Megan, apreciando o brilho das jias, inclusive atravs do cristal da urna-. as ter aqui, no  um pouco arriscado?

-Holt se ocupa da segurana. Com um ex-polcia na famlia d a impresso de que se cuidaram todos os detalhes. O cristal  a prova de balas -disse Amanda, dando uns golpecitos sobre a urna. E est conectado com um alarme -disse, e consultou o relgio, comprovando que tinha uns quinze minutos antes de voltar para seus deveres de direo-. Espero que voc goste das habitaes onde lhes pusemos. Ainda no acabamos que reformar a zona familiar.

-Esto muito bem -disse Megan. O certo era que a relaxava ver alguma greta no gesso, o lugar era assim menos intimidatorio-. Para o Kevin  um paraso. Est fora jogando com o cachorrinho, com o Alex e Jenny.

-Sim, a verdade  que  para estar orgulhoso do Sadie, a cadela do Holt. Oito cachorrinhos!

-Como h dito Alex, todo mundo tem filhos nesta casa. A propsito, sua filha Delia  preciosa.

-Sim, verdade? -disse Amanda com orgulho maternal-. No posso acreditar que tenha crescido tanto. Teria que ter estado aqui faz seis meses. Estvamos todas assim -disse fazendo um gesto para indicar a barriga torcida do embarao-. Os homens no deixavam de pavonear-se. Fizeram apostas para ver quem dava a luz antes, se Lilah ou eu. Ganhou por dois dias -disse Amanda, que tinha apostado vinte dlares a que ela mesma dava a luz antes-.  a primeira vez que a vejo dar-se pressa para fazer algo.

-Bianca tambm est preciosa. Quando entrei em sua habitao estava chorando, reclamando ateno. A bab no sabia o que fazer.

-A senhora Billows pode contudo.

-No estava pensando nos meninos, a no ser no Max -disse Megan sonriendo ao recordar ao pai da Bianca, que chegou correndo, abandonando sua nova novela na mquina de escrever para atender a sua filha, que no parava de chorar.

- to tenro.

-Quem  tenro? -disse Sloan, entrando na sala e dando um abrao a sua irm.

-Voc, no, Ou'Riley -murmurou Amanda, observando a clida expresso do Sloan ao apertar a bochecha contra a do Megan.

-Est aqui! -exclamou Sloan, tomando-a em braos e levantando-a no ar-. Me alegro muito, Meg.

-Eu tambm -disse Megan, olhando-o com ternura-. Tudo bem, papato?

Sloan se ps-se a rir e a deixou no cho.

-J a viu? -perguntou.

Megan fingiu ignorncia.

-A quem?

-A minha filha, a Delia.

-Ah, a Delia -disse Megan, encolhendo-se de ombros, sonriendo, logo beijou ao Sloan na boca-. No s a vi, tive-a em braos, cheirei-a e decidi que vou mim-la quanto possa.  preciosa, Sloan. Igual a Amanda.

-Sim, igual -disse Sloan, beijando a sua esposa-. Solo que herdou meu queixo.

- o queixo dos Calhoun -disse Amanda.

-No,  o queixo dos Ou'Riley. E falando dos Ou'Riley -prosseguiu Sloan-, onde est Kevin?

-Fora. Deveria ir busc-lo, ainda no temos desfeito a bagagem.

-Vamos contigo -disse Sloan.

-V voc, eu tenho que voltar para trabalho -disse Amanda, e como se algum tivesse ouvido suas palavras, ouviu que soava o telefone de seu escritrio-. Acabou-se o descanso. Vemo-nos no jantar, Megan disse, e beijou ao Sloan-. Voc e eu nos vemos antes, Ou'Riley.

-Hum... -disse Sloan com um suspiro de satisfao e observou afastar-se a sua mulher-. eu adoro como caminha.

-A miras igual a faz um ano, nas bodas -disse Megan e tomou sua mo  medida que abandonavam o vestbulo e se dirigiam a terrao-.  bonito

-Ela ... -disse Sloan, e procurou a palavra apropriada- ...-o tudo. Eu gostaria que fosse to feliz como eu, Megan.

-Sou feliz -disse Megan e a brisa balanou seus cabelos. At eles chegou o som da risada dos meninos-. Ouvir os meninos me faz feliz. E estar aqui O.

Descenderam a uma terrao de um nvel mais baixo e se dirigiram ao oeste.

-Tenho que admitir que estou um pouco nervosa.  um grande passo -disse, e viu seu filho jogar no alto de um forte, levantando os braos em sinal de vitria-. Mas  bom para o Kevin.

-E para ti?

-E para mim -disse Megan, apoiando-se em seu irmo-. vou sentir falta da mame e papai, mas dizem que com os dois aqui, tm o dobro de razes para nos visitar -disse apartando a franja da cara.

Kevin lutava, do interior do forte, por rechaar o ataque do Alex e Jenny.

-Precisava conhecer resto da famlia, e eu... necessitava uma mudana -disse Megan, e olhou a seu irmo-. falei com a Amanda.

-E te h dito que at dentro de uma semana no pode comear a trabalhar.

-Algo assim.

-Na ltima reunio familiar decidimos que terei que te deixar uma semana para que te acomode antes de que comece.

-No me faz falta uma semana. Sozinho...

-Sei, sei, mas as ordens so que tome uma semana livre.

-E quem d as ordens aqui?

-Todo mundo -disse Sloan, sonriendo-. Assim  mais interessante.

Megan olhou por volta do mar com gesto pensativo. O cu estava claro como um cristal e a brisa era clida. O vero estava perto. De ali, via-se o arquiplago de pequenas ilhas com nitidez.

Um mundo distinto, pensou, aos prados e as plancies de casa. Uma vida distinta, possivelmente, para ela e para seu filho.

Uma semana. Para relaxar-se, explorar, para ir de excurso com o Kevin. Sim, era tentador. Mas pouco responsvel.

-Quero assumir minha responsabilidade quanto antes.

-J o far, me acredite -disse Sloan, e olhou por volta do mar para ouvir a sereia de uma embarcao-. Holt e Nate -disse Sloan, assinalando o navio de passageiros que sulcava a gua frente a eles-. O Mariner. Leva aos turistas a ver baleias.

Naqueles momentos, os trs meninos estavam no interior do forte. Quando a sereia soou pela segunda vez, proferiram uma exclamao de alegria.

-No jantar conhecer o Nate -disse Sloan.

-J o conheo.

-Enquanto comia com Coco?

-Sim.

-Encarna-lhe comer,  um comedor -disse Sloan com um sorriso-. O que te parece? Voc gosta?

-No muito -resmungou Megan-. Parece-me um pouco rude.

-J acostumar a ele.  um mais da famlia.

Megan murmurou algo. Talvez fora certo, mas no formava parte da sua.


2

Por isso a Coco concernia, Niels Vo Home era um homem muito desagradvel. No aceitava crticas construtivas, nem a mais sutil das sugestes para melhorar. Ela tratava de ser corts, posto que aquele homem era membro do pessoal de Las Torres e velho amigo do Nathaniel.

Mas era igual a uma China no sapato.

Em primeiro lugar, era muito corpulento. A cozinha do hotel estava primorosamente desenhada e bem organizada. Sloan e ela tinham trabalhado juntos no desenho, de modo que o produto final cumprisse com seus desejos. Adorava a grande cozinha, os fornos, as prateleiras de ao inoxidvel e a lava-loua completamente silenciosa. adorava o aroma dos pratos cozinhados, o zumbido dos ventiladores, o brilho do cho de ladrilhos.

E ali estava Vo Home, ou O Holands, como estavam acostumados a cham-lo, igual a um elefante em uma cacharrera, com uns ombros to largos como um carro e os braos cheios de tatuagens. negava-se a vestir o avental branco e preferia levar uma camisa arregaada e uns jeans imundos, sujeitos  cintura com uma corda.

Levava o cabelo comprido, pacote em um acrscimo. Seu rosto era redondo e maior, normalmente carrancudo, por isso seus olhos verdes estavam rodeados de rugas. O nariz, que se tinha quebrado em vrias disputas, pelo que parecia muito orgulhoso, tinha-a esmagada e torcida, e a pele escura e to curtida como uma velha cadeira de montar.

Quanto a sua linguagem... Coco no se considerava uma dissimulada, mas, depois de tudo, era uma dama.

Apesar de tudo, aquele homem sabia cozinhar.

Enquanto O Holands preparava os fornos, ela fiscalizava os menus. A especialidade daquela noite era o guisado de pescado ao estilo de Nova a Inglaterra e truta cheia  francesa. Tudo parecia em ordem.

-Senhor Vo Home -comeou a dizer, com firmeza-. Deixo-o a cargo de tudo. No acredito que tenhamos nenhum problema, mas se surgir algum, estou no comilo familiar.

O Holands notou um mais dos duros olhares daquela mulher sobre suas costas. Estava muito elegante, disse-se, igual a se fosse  pera. ps-se um vestido de seda vermelho e um colar de prolas.

-cozinhei para trezentos homens -disse-. Me posso arrumar isso com uns quantos turistas.

-Nossas hspedes -disse Coco, apertando os dentes- talvez sejam mais exigentes que uma panda de marinheiros apanhados em um bote oxidado.

Um dos garons entrou na cozinha naqueles instantes, levando uns pratos. O holands se fixou em um deles, ao meio terminar. Torceu o gesto. Em seu navio, ningum deixava os pratos pela metade.

-No tm muita fome, n?

-Senhor Vo Home -disse Coco, soprando-. Tem que ficar na cozinha permanentemente. No vou permitir que saia ao restaurante e volte a repreender a algum hspede sobre seus hbitos de comida -disse, e se dirigiu a outro cozinheiro-. Ponha mais alinho nessa salada, por favor -concluiu, e partiu.

-s vezes me d vontade de me largar -resmungou O Holands, e pensou que, de no ser pelo Nathaniel, no aceitaria ordens de uma mulher.



Nathaniel no compartilhava o desprezo de seu amigo pelas mulheres, ao contrrio, as mulheres adorava, todas as mulheres. Gostava de seus olhares, seu aroma, sua voz, e estava muito satisfeito de sentar-se no comilo com seis das mulheres mais belas que tinha conhecido ao longo de sua vida.

As Calhoun eram fonte de constante deleite para ele. Suzanna, com seus tenros olhos; Lilah, com sua preguiosa sexualidade; Amanda, prtica e firme; C. C., com seu sorriso malicioso, por no mencionar a feminina elegncia de Coco.

Elas constituam o pequeno pedao de cu ao que Nathaniel tinha acesso em Las Torres.

Quanto  sexta... Bebeu outro gole de usque com gua e observou ao Megan Ou'Riley. Dava-lhe a impresso de que devia ser uma mulher cheia de surpresas. Seus olhos no eram inferiores aos de nenhuma das Calhoun. Sua voz, com o lento deixe do Oklahoma, era atrativa. O nico que lhe faltava era a singela calidez que emanava das outras.

Ainda no sabia se era o resultado de uma frieza inata ou simples acanhamento. Fora o que fosse, tinha causas profundas. Era difcil permanecer frio ou tmido em uma habitao cheia de gente risonha, bebem alegres e meninos revoltosos.

O, por sua parte, naqueles momentos tinha entre seus braos a uma de suas mulheres favoritas. Jenny saltava sobre seu regao e lhe bombardeava com perguntas.

-vais casar te com tia Coco?

-Ela no quer.

-Pois eu sim -disse Jenny. Era uma aprendiz de rompe coraes com um dente quebrado-. Podemos nos casar no jardim, como fizeram papai e mame. Logo pode dever viver conosco.

- a melhor oferta que me tm feito em muito tempo -disse Nate, acariciando a bochecha da menina.

-Mas tem que esperar a que seja maior.

-Sabia deciso. Aos homens sempre ter que faz-los esperar -interveio Lilah, que estava sentada no sof, apoiada no brao de seu marido e sustentando a seu beb-. No te precipite, Jenny. O melhor  ir pouco a pouco.

-lhe faa caso -disse Amanda-. Lilah sempre foi pouco a pouco e lhe foi bem.

-Ainda no estou preparado para ceder a minha garota -disse Holt tomando ao Jenny-. E menos a um marinheiro de gua doce.

-Perdoa, Bradford, mas posso pilotar melhor que voc com os olhos fechados.

-No -interveio Alex, para defender a honra da famlia-. Papai  melhor marinheiro que ningum. Embora lhe disparassem -disse e abraou a perna de seu pai-. Uma vez lhe deram um tiro. Uma bala lhe fez um buraco.

Holt sorriu olhando a seu amigo.

-J v, a ver quando tem seu clube de fs -disse.

-lhe dispararam alguma vez? -perguntou- Alex ao Nate.

-No posso dizer que sim -disse Nathaniel movendo o copo de usque entre as mos-. Mas havia um grego no Corf que queria me fatiar a garganta.

Alex ps os olhos como pratos. Kevin se incorporou no tapete.

-De verdade?

Alex procurou sinais de alguma ferida no pescoo do Nate. Sabia que Nathaniel tinha um drago tatuado em um ombro, mas uma cicatriz era algo de muita mais categoria.

-Matou-o com uma adaga?

-No -disse Nathaniel, e se fixou no olhar da Suspicacia e desaprovao do Megan-. Falhou e me deu no ombro, e O Holands o tombou lhe dando um golpe com uma garrafa.

cada vez mais impressionado, Kevin se aproximou do Nate.

-Tem alguma cicatriz?

-Sim -disse Nate.

Amanda lhe impediu de tir-la camisa de um tapa.

-Quieto! Ou todos os homens desta habitao vo comear a tir-la camisa para mostrar suas feridas de guerra. Sloan est muito orgulhoso da que se fez com arame de espinheiro.

- preciosa -assentiu Sloan-. Mas a do Meg  ainda melhor.

-te cale, Sloan.

-N, um homem tem que presumir de sua irm -disse Sloan rendo e lhe ps um brao sobre os ombros-. Tinha doze anos, e era muito revoltosa. Tnhamos um semental com to mau carter como ela. Um dia Meg quis mont-lo, mas no andou mais de quinhentos metros antes de que o cavalo a desmontasse.

-No me desmontou -disse Megan-. Soltaram-se as bridas.

-Isso diz ela -disse Sloan, sonriendo-. O fato  que o cavalo a atirou em uma alambrada de espinheiro. Caiu de culo, acredito que esteve dois meses sem sentar-se.

-Duas semanas -disse Megan.

-E mida cicatriz se fez -disse Sloan, lhe dando uns tapinhas na perna.

-No me importaria v-la -murmurou Nathaniel. Suzanna o olhou com assombro.

-Acredito que vou levar ao Christian a dormir antes de jantar.

-Boa idia -disse C. C., e tomou ao Ethan, que comeava a remover-se, de braos do Trent-. Algum tem fome?

-Por exemplo, eu -disse Lilah.

Megan observou como as mes se levavam a seus filhos ao piso de acima e sentiu certa inveja, o que a surpreendeu. Tinha graa, nem sequer tinha pensado em ter filhos at chegar ali e ver-se rodeada deles.

-Sinto chegar tarde -disse Coco, entrando naqueles momentos-. tivemos alguns problemas na cozinha.

Nathaniel se deu conta de seu olhar de frustrao e conteve um sorriso.

-Tem problemas com O Holands, carinho?

-Bom... -disse Coco. No gostava de queixar-se-. Simplesmente, temos um ponto de vista distinto sobre algumas costure. OH, obrigado, Trent -disse aceitando o copo que lhe oferecia-. Mas, onde tenho a cabea? esqueci os canaps.

-Vou por eles -disse Max, levantando do sof e dirigindo-se  cozinha.

-Obrigado, querida. Agora... -disse tomando a mo do Megan e apertando-a afetuosamente-. No tivemos tempo de falar. O que te parece o hotel?

- maravilhoso, tal como dizia Sloan. Amanda me h dito que as dez sutes esto ocupadas.

-A temporada comeou bem -disse Coco-. Faz apenas um ano estava se desesperada, com medo a que minhas meninas perdessem sua casa, embora as cartas me diziam que no havia nada que temer. Hei-te dito alguma vez que vi o Trent no tarot?

Tenho que lhe jogar isso a ti, e ver o que te proporciona o futuro.

-Bom...

-Ou quer que te leia a mo?

Megan suspirou com alvio quando Max chegou com uma bandeja para distrair a Coco.

-No te interessa o futuro? -murmurou Nathaniel.

Megan levantou a vista, surpreendida ao v-lo seu lado, sem que ela se deu conta de que se aproximou dela.

-Estou mais interessada no presente. Ter que ir pouco a pouco.

Nathaniel tomou sua mo, e lhe deu a volta, embora se dava conta de que estava tensa.

-Uma vez conheci uma anci, nas costas da Irlanda. chamava-se Molly Duggin. Disse-me que tinha um dom para estas coisas -disse olhando-a aos olhos antes de lhe abrir a mo para observar a palma. Ao Megan deu um calafrio-.  teimosa, auto-suficiente, elegante.

Acariciou-lhe a palma com um dedo.

-No acredito nessas coisas.

-No tem por que. Tambm  tmida -disse Nate-. As paixes esto a, mas reprimidas -disse e passou o polegar pelo monte de Vnus da palma da mo do Megan-, ou canalizadas. Voc preferiria dizer que esto canalizadas, orientadas, que  uma mulher prtica. Preferiria tomar as decises com a cabea, sem importar o que te diga seu corao -disse, e a olhou aos olhos-. Acerto?

Sim, acertava, disse-se Megan, e apartou a mo.

-Um jogo interessante, senhor Fury.

Nate a olhou com um sorriso, colocando as mos nos bolsos.

-Verdade?



s doze do dia seguinte, Megan tinha terminado com tudo o que tinha que fazer. No pde rechaar o rogo do Kevin de passar o dia com os Bradford, embora sua partida a tinha deixado livre para fazer o que quisesse.

Mas no estava acostumada a ter tempo livre.

Uma expedio ao vestbulo tinha abortado sua idia de convencer a Amanda de que lhe deixasse estudar os livros de contabilidade. Amanda, como lhe disse a amvel recepcionista, estava em algum lugar do hotel, solucionando um pequeno problema.

Coco tampouco era uma opo. Megan estava a ponto de entrar na cozinha quando ouviu rudo de cacharros e vozes iradas no interior da mesma.

Como Lilah tinha voltado para seu trabalho de naturalista no parque, e C. C. estava em sua loja de motores, na cidade, Megan estava completamente sozinha.

Em uma casa to enorme como As Torres, sentia-se igual a se estivesse em uma ilha deserta.

Podia ler, disse-se, ou sentar-se a tomar o sol em uma das terraos a contemplar a vista. Podia baixar  primeiro andar das habitaes da famlia e comprovar o progresso da remodelao. E incomodar ao Sloan e ao Trent, disse-se com um suspiro, enquanto fiscalizavam as obras.

No podia incomodar ao Max, que estava escrevendo em seu estudo, trabalhando em seu livro. Tinha passado uma hora jogando com os meninos e tinha o bastante.

passeou-se por sua habitao, alisando a colcha da cama, de uma maravilhosa cama com dossel. O resto de sua bagagem tinha chegado aquela manh e, tal como era, talvez muito eficiente, j o tinha desfeito. Tinha a roupa ordenada no armrio de nogueira e na cmoda Chippendale.

Tinha posto as fotos de sua famlia sobre a mesa maca que havia junto  janela, ordenado os sapatos, os livros e guardado as jias.

E se no encontrava algo que fazer, voltaria-se louca.

Com isso em mente, tomou a pastas e comprovou o contedo uma ltima vez antes de sair, ao carro que Sloan tinha posto ao seu dispor.

O automvel ia muito bem, graas s habilidades mecnicas do C. C., e Megan se dirigiu ao povoado.

Desfrutava das guas azuis da baa e dos simpticos grupos de turistas que passeavam pelas ruas, mas os brilhantes rtulos que via nas lojas no a convidavam a baixar para ir s compras.

Ela ia s compras solo por necessidade, no por prazer.

Uma vez, fazia muito tempo, tinha desfrutado de do prazer de olhar cristaleiras, da alegre satisfao de comprar por diverso. Desfrutava dos largos dias do vero, sem outra coisa que fazer que olhar acontecer as nuvens ou escutar ao vento.

Mas aquilo foi perder a inocncia, para encontrar responsabilidades.

Viu um letreiro que indicava o mole de onde partiam as excurses em navio.

Havia um par de pequenas embarcaes amarradas, mas no havia rastro do Mariner nem de seu navio gmeo, o Island Queen.

Fez um gesto de contrariedade. Esperava encontrar ao Holt antes de que sasse ao mar. depois de tudo, tambm teria que levar a contabilidade daquele negcio.

Estacionou detrs de um esportivo conversvel, com formosa linha e uma brilhante cor negra, que contrastava com a tapearia branca.

deteve-se um momento e se protegeu os olhos do reflexo da gua com uma mo. Um veleiro saa  baa, cheia de embarcaes com as velas desdobradas. Os moles estavam cheios de gente.

A beleza do lugar era inegvel, alm de que era muito distinto ao lugar no que tinha vivido at ento. A brisa era fresca, transportando o aroma do mar e aromas de comida dos restaurantes prximos.

Ali poderia ser feliz, disse-se. No s poderia, mas sim estava disposta a s-lo.

Girou sobre seus tales e se encaminhou ao estabelecimento.

-Passe, est aberto -disseram-lhe depois de que batesse na porta.

Era Nathaniel. Tinha os ps apoiados em uma mesa de metal antiquada e falava por telefone. Levava uns jeans com um quebrado no joelho e manchados de algo que parecia azeite e tinha o cabelo revolto.

Levantou a mo e, com um gesto, indicou ao Megan que se aproximasse.

-O melhor  madeira de teca -dizia-. Tenho muita, posso terminar a coberta em dois dias. No, o motor solo necessitava uma limpeza, ainda fica muita vida -disse, enquanto fumava um charuto puro-. Chamarei-te assim que esteja terminado.

Pendurou, apertando o charuto entre os dentes. Tinha graa, disse-se. Aquela manh tinha pensado no Megan Ou'Riley e, em seus pensamentos, tinha o mesmo aspecto. Imaculada, fria e tranqila.

-De visita pelo povoado?

-Estava procurando o Holt.

-saiu no Queen -disse Nathaniel, consultando o relgio-. Demorar hora e meia em voltar -disse, e sorriu-. Parece-me que estamos apanhados.

Megan combateu o impulso de dar meia volta e sair dali.

-Eu gostaria de ver os livros.

Nathaniel deu uma imerso ao charuto.

-Acreditava que estava de frias.

Megan recorreu a sua melhor defesa, o desdm.

-H algum problema?

-No me olhe -disse Nate, e abriu uma gaveta da mesa para tirar um livro negro-. Voc  a perita. Sente-se, Meg.

-Obrigado -disse Megan, e se sentou em uma cadeira dobradia em frente do Nate.

Tirou uns pequenos culos da carteira e, depois de ficar as abriu o livro de contabilidade. Seu corao de contvel deu um tombo de horror ao ver aquela massa relatrio de cifras, com notas  margem e papis adesivos.

-Aqui levam a contabilidade?

-Sim.

O aspecto do Megan, com os culos e o coque, era encantador. Ao Nate se o fazia a boca gua.

-Holt e eu nos alternamos para lev-la... Embora quando Suzanna o viu nos disse que fomos idiotas disse com um sorriso-. Em realidade, fizemo-lo para descarregar a de trabalho quando estava grvida.

-Mmm -resmungou Megan, folheando as pginas. Para ela, aquele estado de coisas no supunha ansiedade, a no ser um desafio-. E os arquivos?

-Ali -disse Nate, assinalando com o dedo um armrio de metal que estava em um rinco. Em cima dele tinha uma maquete de um navio, cheia de graxa.

-Tm algo?

-A ltima vez que os olhei, sim.

Nate no podia evit-lo, quanto mais eficiente era o comportamento do Megan lhe davam mais ganha de equilibrar-se sobre ela.

-Faturas?

-Claro.

-Recibos de gastos?

- obvio -disse Nate, e de uma das gavetas da mesa tirou uma caixa de charutos-. Temos muitos recibos.

Megan abriu a caixa de charutos e suspirou.

-Assim levam seu negcio?

-No, o negcio consiste em levar s pessoas de excurso ou em reparar seus navios, inclusive em construi-los -disse Nate, e se inclinou sobre a mesa, principalmente para apreciar melhor o suave e evanescente aroma do Megan-. Nunca gostei da papelada e Holt j teve que fazer bastante quando estava no exrcito - disse Nate, e sorriu. Nunca teria pensado que levasse culos para ler, coque e blusas completamente fechadas, de modo que um homem podia entreter-se nas desabotoar-. Talvez por isso o contvel que contratamos este ano acabou com um tic -disse destacando o olho direito-. ouvi que se foi a Jamaica a vender chapus de palha.

Megan no pde conter a risada.

-Eu sou feita de uma massa mais slida, prometo-lhe isso.

-Nunca o duvidei -disse Nate, e se tornou para trs. A cadeira chiou-. Tem um sorriso muito bonito, Megan. Quando a usa.

Megan conhecia bem aquele tom, de ligeiro flerte, inconfundivelmente masculino. Suas defesas se elevaram como uma mola.

-No me pagam para que sorria.

-Preferiria que fora grtis. Como chegaste a te fazer contvel?

-Me do bem os nmeros -disse Megan, deixando o livro sobre a mesa e tirando uma calculadora da carteira.

-No me parece razo suficiente.

-Tambm  uma profisso slida, segura - disse concentrando-se nas cifras que marcava na calculadora.

-Porque os nmeros s se somam de uma forma?

Ao Megan foi impossvel ignorar o ligeiro tom zombador. Olhou-o, ajustando-as culos.

-A contabilidade pode ser um trabalho no que intervm a lgica, senhor Fury, mas a lgica no elimina as surpresas.

-J. Olhe, pode que os dois tenhamos entrado pela porta de servio na famlia Calhoun, mas o fato  que a estamos. No te parece uma tolice que esteja to distante comigo? Ou  que te comporta assim com todos os homens?

Ao Megan, a pacincia, que estava convencida de ter em grandes quantidades, comeava a acabar-se o 

-Estou aqui para levar a contabilidade.

-Alguma vez te faz amigo da gente que te emprega? -disse Nate, apagando o charuto no cinzeiro-. Sabe? Me passa algo muito gracioso.

-Estou segura de que me vais dizer o que .

-Exato. Posso conversar com uma mulher sem que me d vontade de jog-la ao cho e despi-la.  preciosa, Megan, e d gosto te olhar, mas posso controlar meus instintos mais primitivos, sobre tudo, quando tudo os sinais dizem que me pare.

Megan se sentiu ridcula. Tinha sido grosseira, ou quase, do momento de conhec-lo. Porque, tinha que admiti-lo, o modo de reagir a sua presena a fazia sentir-se incmoda. Mas, maldita seja, ele seguia olhando-a como se quisesse mord-la.

-Sinto muito - disse. A desculpa era sincera-. Estou fazendo muitas mudanas em minha vida, assim no estive muito relaxada. E me olha de uma forma que me pe nervosa.

-Bom, me alegro de que seja sincera. Mas tenho que te dizer que tenho direito a olhar. Algo mais que isso, requer um convite, de um tipo ou de outro.

-Pois, se quiser, podemos comear desde o comeo, embora no posso te dizer se estiver dispostas abrir minha porta -disse Megan com um sorriso-. E agora, Nathaniel, pode me dar os informe da declarao da renda?

-Sim, espera um momento -disse Nate, deslizando-se para trs sobre a cadeira. Megan ouviu um chiado e se sobressaltou, atirando os papis ao cho-. Maldita seja, tinha-me esquecido de que estava aqui -disse Nate, agarrando um cachorrinho de co negro-. Dorme muito, assim sempre termino por pis-lo ou atropel-lo com a cadeira -disse ao Megan, enquanto o animal lhe lambia a cara freneticamente-. Sempre que intento deix-lo em casa, ladra at que acabo por ceder e o trago comigo.

- muito bonito -disse Megan, acariciando ao cachorrinho-. Parece-se muito ao de Coco.

- da mesma isca de peixe -disse Nate, e tendeu o animal ao Megan.

-OH, que bonito .  precioso.

 medida que acariciava ao co, suas defesas foram cedendo. Perdeu sua atitude fria e profissional e se converteu em uma mulher cheia de calidez feminina. Aquelas formosas mos acariciando ao cachorrinho, seu tenro sorriso, o brilho dos olhos.

-Como se chama?

-Co -disse Nate.

Megan o olhou aos olhos.

-Co? Sem mais?

-lhe gosta. N, Co -para ouvir a voz de seu amo, Co voltou a cabea e ladrou-. V-o?

-Sim -disse Megan, e riu-. No demonstra muita imaginao.

-Ao contrrio. Quantos ces conhece que se chamem Co?

-De acordo, de acordo.

Nate lhe atirou uma bola.

-Com isso se entretm -disse Nate e se levantou para ajudar ao Megan a recolher os papis.

-No tem pinta de que voc goste dos ces -disse Megan.

-Pois eu adoro -disse voltando a colocar as faturas na caixa de charutos-. O fato  que estava acostumado a jogar com um dos avs de Co em casa dos Bradford. Mas  difcil ter a um co em um navio. Embora levava um pssaro.

-Um pssaro?

-Um louro que encontrei no Caribe faz cinco anos. Essa  outra razo pela que me trago para Co aqui. Pssaro poderia comer-lhe.
 
-Pssaro? -disse Megan, mas a gargalhada se afogou em sua garganta ao levantar a vista. por que Nate estava sempre mais perto do que pensava? por que seus olhares eram para ela como carcias?

Nate se fixou na boca do Megan. O sorriso vacilante seguia ali. Havia algo muito atraente naquele ligeiro acanhamento, oculta em um pacote de autoconfiana. Seu olhar no era frio, mas sim cautelosa. No era um convite, mas lhe parecia muito e, em qualquer caso, era muito tentadora.

Nate decidiu provar sorte e apartou uma mecha de cabelo da frente do Megan, que se levantou como impulsionada por uma mola.

-Sobressalta-te com facilidade, Megan -disse Nate, fechando a caixa de charutos e levantando-se-. Mas no posso dizer que eu no goste de ver que fico nervosa.

- que no me pe nervosa -disse Megan, mas sem olh-lo aos olhos. Nunca tinha sabido mentir-. vou levar me tudo isto, se no te importar. Quando me organizar, chamarei-te, ou ao Holt.

-Muito bem -disse Nate. Soou o telefone, mas no lhe emprestou ateno-. J sabe onde nos encontrar.

-Quando puser tudo isto em ordem temos que falar de como ter que fazer as notas.

Sonriendo, Nate se sentou sobre a mesa.

-Voc manda, nenm.

Megan fechou a carteira.

-No, manda voc. E no me chame "nenm" -disse, e partiu.

Atravessou o povo para dirigir-se s Torres. Ao chegar ao p da rampa cheia de curvas que conduzia s Torres, separou-se da estrada-e se deteve.

Necessitava um momento de tranqilidade antes de ver ningum. Fechou os olhos e recostou a cabea no reposacabezas. O interior de seu estmago se agitava, cheio de mariposas, com uma sensao que no podia sossegar to solo com fora de vontade.

Aquela debilidade a punha furiosa. Nathaniel Fury a punha furiosa. depois de tanto tempo, de tanto esforo, to solo tinham bastado umas olhe-, d para lhe recordar, com muita fora, que no era mais que uma mulher.

Pior, muito pior. Estava segura de que Nate sabia o que estava fazendo e o muito que a afetava.

J tinha sido vulnervel a um rosto atrativo e a palavras de flerte antes. A diferena dos que a queriam, negava-se a culpar a sua juventude e inexperincia de suas aes irrefletidas. Uma vez, tinha escutado a seu corao e tinha acreditado no amor eterno. Mas j no podia acreditar em nada. Deu-se conta de que no havia prncipes nem cabaas, nem castelos no ar. Solo ficava a realidade, uma realidade que uma mulher tinha que construir por si mesmo, e em que tinha que incluir a seu filho.

No queria que lhe palpitasse o corao, nem queria ficar tensa. No queria aquela clida sensao no estmago, aquele oco que clamava por ser cheio. No naqueles momentos. Nunca mais.

Tudo o que queria era ser uma boa me para o Kevin, lhe dar um lar, lhe dar felicidade. Queria lavrar um caminho na vida, ser forte, inteligente, auto-suficiente.

Deixou escapar um suspiro e sorriu. Tambm queria ser invulnervel.

Provavelmente no o conseguisse, mas ao menos seria sensata. No voltaria a permitir que um homem tivesse o poder de alterar sua vida, e muito menos quando o nico poder que parecia ter sobre ela era lhe pr a pele de galinha.

Mais tranqila e com maior confiana, arrancou. Tinha trabalho que fazer.
3

Tenha corao, Mandy - disse Megan, que se tinha topado com sua cunhada assim que voltou para As Torres-. Solo quero ver meu escritrio para ir acostumando.

Amanda levantou a cabea com desdm. Estava sentada em sua mesa, examinando uns papis.

- horrvel quando todo mundo est ocupado e voc no, verdade?

Megan deixou escapar um suspiro de esperana.

-Horrvel.

-Sloan quer que tome um descanso - disse Amanda, e riu ao ver que Megan fechava os olhos com impacincia-. Mas, ele o que sabe?

Levantou-se e rodeou a mesa.

-Vem, seu escritrio est aqui ao lado -disse, e a acompanhou at outra porta de madeira lavrada-. Acredito que tem tudo o que necessita. Mas se nos esquecemos que algo, diga-me isso 

Algumas mulheres sentem certa excitao ao entrar em umas lojas de departamentos. Outras para ouvir desarrolhar uma garrafa de champanha  luz de uma vela. Ao Megan, era a viso de um despacho bem ordenado e equipado o que lhe causava aquele tremor de excitao.

E ali tinha tudo o que podia desejar.

A mesa era esplndida, de nogueira, encerada, com uma poltrona de couro claro. Sobre uma mesa auxiliar, tinha um telefone multilnea e um ordenador.

Lhe deu vontade de dar saltos de alegria.

Os mveis arquivos eram de madeira e ainda cheiravam a azeite de limo. Os atiradores, de cobre, brilhavam com a luz do sol que entrava atravs das grandes janelas. O tapete persa tinha uma cor rosada que fazia jogo com a tapearia das cadeiras. Havia estanteras cheias de arquivos e uma mesa auxiliar de madeira com uma cafeteira, fax e fotocopiadora.

O encanto do velho mundo e a moderna tecnologia reunidas para proporcionar a maior eficcia.

-Mandy,  perfeito.

-Sabia que te ia gostar - disse Amanda-. No posso dizer que sinta me liberar da contabilidade. H trabalho para ocupar toda a jornada. Tudo est agrupado por sees: ganhos, faturas de gastos, pagamentos a crdito, emprstimos, etctera -disse, e abriu uma gaveta arquivo para demonstrar-lhe.
Megan, que era muito ordenada, sentiu uma grande satisfao ao ver as pastas organizadas por cores e ordem alfabtica.

-Maravilhoso. E nada de caixas de charutos.

Amanda a olhou com vacilao, logo caiu na conta e riu.

-J vejo que viu o sistema de arquivos do Holt.

Megan, que se sentia muito cmoda com a Amanda, deu uns golpecitos em sua carteira.

-Aqui est seu sistema de arquivos - disse, e, incapaz de resisti-lo por mais tempo, sentou-se em sua cadeira. Mas isto est muito melhor. No sei como te dar as obrigado por deixar que me uma  equipe.

-No seja tola,  da famlia. Alm disso, pode que dentro de duas semanas, quando souber o caos que h aqui, no goste tanto me dar as obrigado. No posso te dizer quantas interrupes... Disse Amanda, e se interrompeu para ouvir que a chamavam-. V-o?

Foi abrir a porta.

-Estou aqui, Ou'Riley.

Trent e Sloan irromperam na habitao talheres de p.

-Acreditava que estavam atirando um tabique - disse-lhes Amanda.

-E isso fazamos, alm de nos levar uns mveis velhos para atirar. Olhe o que encontramos.

Amanda examinou o que lhe ensinavam.

-Um livro antigo.  maravilhoso, carinho. Agora, por que no seguem jogando s casitas?

-No  um livro - disse Trent-.  o livro de contabilidade do Fergus do ano 1913.

-OH -exclamou Amanda, agarrando o livro.

Megan, presa da curiosidade, aproximou-se junto a eles.

- importante?

- do ano em que morreu Bianca -disse Sloan-.Conhece a histria, verdade, Meg? A histria de como se viu Bianca apanhada em um matrimnio interessado e sem amor. Logo conheceu o Christian Bradford e se apaixonou. Decidiu fugir com ele e levar-se aos meninos, mas Fergus se inteirou. Discutiram na Torre e caiu pela janela.

-E ele destruiu tudo o que lhe pertencia -disse Amanda com a voz tensa pela emoo-. Tudo... sua roupa, suas jias, seus quadros. Tudo menos as esmeraldas, e s porque ela as tinha escondido.  o nico que fica, e o retrato que lhe fez Bradford -disse-. Suponho que  uma ironia do destino que agora tambm tenhamos isto. Um livro onde ele anotou seus perdidas e lucros.

-Os mrgenes esto cheios de notas -disse Trent-. Quase parece um jornal breve.

Amanda franziu o cenho e leu em voz alta:

A cozinha estava muito suja. Despedido-se do cozinheiro, muito brando com o pessoal. Compra de gmeos de diamante. Mais vistosos que os do J. P. Getty. Levarei-os a pera.

Depois de ler, deixou escapar um comprido suspiro.

-Demonstra a classe de homem que era, verdade?

-Nenm, no lhe teria o trazido se chegar ou seja que ia incomodar te tanto.

Amanda negou com a cabea.

-No, a famlia querer l-lo -disse e deixou cair o brao-. Estava-lhe ensinando ao Megan seus novos domnios.

-J o vejo - disse Sloan, franzindo o cenho-. E o que passa com os dias de descanso?

-Assim  como eu descanso - respondeu Megan-. Assim por que no vo e me deixam descansar? Disse com um sorriso.

-Excelente idia - disse Amanda, lhe dando um beijo a seu marido e empurrando-o-. Comprido daqui.

Quando se afastavam, soou o telefone da Amanda.

-Se quiser algo, me chame - disse e se meteu em seu escritrio.

Megan fechou a porta. esfregou-se as mos de emoo ao aproximar-se de sua mesa para abrir a carteira. Ensinaria ao Nathaniel Fury o verdadeiro significado da palavra ordem.



Trs horas mais tarde, viu-se interrompida pelo rudo de umas pegadas apressadas. antes de que abrissem a porta, soube que era Kevin.

-Ol, mame! -disse o menino precipitando-se para ela, e Megan lhe emprestou toda sua ateno-. Passamo-lo muito bem. Jogamos  guerra com o Fred e Sadie. E logo fomos ao jardim da Suzanna a regar.

Megan se fixou nas calas molhadas do Kevin.

-E de passagem lhes estivestes jogando gua, no?

Kevin sorriu.

-Jogamos uma batalha de gua e eu ganhei.

-Meu heri.

-comemos pizza, e amanh Suzanna tem que arrumar o jardim, assim no podemos ir com ela, mas podemos ir ver baleias se quiser. Voc sim quer, verdade? Disse ao Alex e ao Jenny que iramos.

Megan observou os olhos de seu filho, escuros e brilhantes de emoo. Nunca o tinha visto to feliz. Se naquele momento lhe tivesse pedido que fossem caar lees a Kenya, teria acessado.

-claro que sim -disse lhe dando um forte abrao-. A que hora quer ir?



s dez em ponto da manh seguinte, Megan, e seu carregamento de meninos, estava no porto. Embora fazia um dia caloroso, tinha seguido o conselho da Suzanna levando jaquetas e boinas para a travessia. Tambm levava prismticos, uma cmara e carretis de sobra.

Embora tomou pastilhas para o enjo, lhe revolveu o estmago com solo olhar o navio.

Parecia muito slido, e era um consolo. A pintura branca brilhava sob o sol e tambm os corrimes. Ao subir a bordo, viu que havia um grande camarote fechado na primeira coberta. Para os mais cautelosos, disse-se. Tinha uma barra, mquinas de bebidas, cadeiras e bancos.

Era um lugar muito desejvel, mas sabia que os meninos no quereriam nem pr os ps perto dele.

-Temos que ir  cabine -disse Alex-. Este navio  nosso e do Nate.

-Papai diz que  do banco -disse Jenny, subindo pela escalerilla de metal. Levava o cabelo recolhido com uma cinta vermelha-. Mas o diz em brincadeira. O holands diz que um marinheiro de verdade no vai passeio com turistas, mas Nate ri dele.

Megan sorriu. Ainda no conhecia famoso holands.

-Estamos aqui -exclamou Alex, ao entrar na cabine-. E Kevin, tambm.

-Bem-vindos a bordo -disse Nathaniel, levantando a vista de uma carta marinha. fixou-se no Megan imediatamente.

-Acreditava que era Holt o que levava o navio.

-Est no Queen -disse Nate, sonriendo. Sustentava um charuto entre os dentes-. No se preocupe, Meg, no vou afundar o navio.

Megan no o duvidava. De fato, com aquelas calas e suter negras, a boina de marinho e o brilho em seu olhar, Nate tinha um aspecto muito, competente. Parecia um pirata a bordo de um mercante.

-comecei a revisar seus livros -disse.

-Me imaginava.

-Parecem uma confuso.

-J. Kevin, vem jogar uma olhada. vou ensinar te aonde vamos.

Kevin vacilou, apertando a mo de sua me durante alguns instantes mais. Mas o colorido das cartas foi muito para ele. Ao pouco tempo no parava de fazer perguntas.

-Quantas baleias vamos ver? E o que passa se chocarem contra o navio? vo jogar gua pelo buraco? Como se conduz o navio?

Megan disse a seu filho que no incomodasse ao senhor Fury, mas Nathaniel respondia s perguntas com o Jenny sentada em seus joelhos e levando o dedo do Alex sobre a carta. Pirata ou no, pensou Megan, sabia como tratar aos meninos.

-Preparados para zarpar, capito.

Nathaniel olhou ao marinheiro e assentiu.

-Um quarto a popa -disse e, sem soltar ao Jenny, aproximou-se do leme-. Desatraque o navio, blusa de marinheiro lhe disse, e guiou seus movimentos.

Ao Megan picou a curiosidade e se inclinou para diante para estudar os instrumentos: o medidor de profundidade, o sonar, a equipe de rdio. Aqueles instrumentos, e o resto da equipe, eram to estranhos para ela como o painel de uma espaonave. Ela era uma mulher das plancies.

 medida que o navio ia afastando do porto, lhe fez um n no estmago.

Tratou de resistir o enjo, repreendendo-se por senti-lo. Solo estava em sua mente, dizia-se com insistncia. Era uma debilidade imaginria e estpida a que podia vencer com fora de vontade.

Alm disso, tinha tomado plulas antimareo, assim, no podia enjoar-se.

Os meninos exclamaram de alegria ao ver que o navio saa ao mar, sulcando a baa lentamente.

Alex, generoso, deixou ao Kevin tocar a buzina. Megan olhou pela janela da cabine, notando-se nas guas tranqilas da Baa do Francs.

Era muito formoso, disse-se, e apenas se movia.

-Olhe a estribor e ver As Torres - disse-lhe Nathaniel.

- verdade -anunciou Jenny-. Estribor  a direita e bombordo a esquerda.

-Proa  diante e popa detrs -disse Alex, por no ser menos.

Megan olhou para os escarpados, esforando-se por no emprestar ateno a seu estmago.

-Kevin, olhe -disse agarrando-se ao corrimo-. Parece que sai das rochas.

Tambm parecia um castelo, disse-se enquanto o olhava, com seu filho a seu lado. As Torres se encarapitavam no cu, contra o cu claro e azul do vero, a mica das rochas, cinzas, despedia brilhos de luz. Nem sequer os andaimes, e os homens subidos neles, que do navio no eram mais que pequenas figuras, estorvavam a imagem de conto de fadas. Um conto de fadas, disse-se, com um lado escuro.

-Parece um castelo da costa irlandesa -disse Nathaniel a suas costas-, ou de uma colina de Esccia.

-Sim. Desde mar  ainda mais impressionante -disse Megan, e se estremeceu.

-Quer te pr a jaqueta? -perguntou-lhe Nathaniel-. Quando sairmos ao mar, far mais frio ainda.

-No, no tenho frio. S estava pensando.  difcil no pensar na histria da Bianca quando olha As Torres.

-Sim, aparecia  janela e olhava ao mar, esperando ao Christian. E sonhava, sentindo-se culpado, porque era uma autntica dama e conhecia seu dever, mas o dever no serve de nada quando tropea com o amor.

Megan voltou a estremecer-se. Aquelas palavras a chegaram  alma. Tinha estado apaixonada uma vez e tinha descuidado seu dever, e perdido sua inocncia.

-Pagou por isso -disse Megan e apartou o olhar, para distrair-se, fixou-se nas cartas de navegao, embora no sabia as interpretar.

-Levamos direo Norte nordeste -disse Nate, e, como tinha feito com o Alex, tomou a mo do Megan e a guiou sobre a carta-. Temos um dia claro, com boa visibilidade, mas h vento. vamos mover nos um pouco.

Estupendo, disse-se Megan, e tragou saliva.

-Se no vermos baleias, os meninos vo se levar um decepo.

-No se preocupe, veremo-las.

Megan caiu por volta dele quando as tranqilas guas da baa deixaram passo ao mar, mais encrespado. Nate a agarrou pelos ombros. O navio cabeceava, mas ele estava firme como uma rocha.

-Tem que separar os ps, distribuir o peso.

Megan no estava segura de que aquilo servisse de algo. Comeava a enjoar-se. No podia, disse-se, danificar o dia ao Kevin, nem humilh-lo, enjoando-se.

-Demoramos uma hora em chegar, verdade? -disse com uma voz muito mais vacilante do que esperava.

-Sim.

Megan fez gesto de ir-se, mas acabou por apoiar-se contra ele.

Nate lhe deu a volta. Megan estava plida, como a neve, com uma ligeira cor esverdeada sob a pele. Nate moveu a cabea com preocupao.

-tomaste algo?

Megan no podia seguir fingindo, e no tinha a fora para mostrar valor.

-Sim, mas me parece que no serviu que nada. Enjo-me at em uma canoa.

-E te mete em uma viagem de trs horas no Atlntico?

-Kevin queria vir...

Nate a agarrou pela cintura e a levou a um banco.

-Sente-se -ordenou-lhe.

Megan obedeceu, e ao ver que os meninos estavam distrados olhando ao mar, agachou a cabea e a ps entre as pernas.

Trs horas, pensou, ao cabo de trs horas teriam que coloc-la em uma bolsa e jog-la ao mar. O que lhe tinha feito pensar que um par de plulas obteriam o milagre? Sentiu que lhe punham uma mo no ombro.

-O que? J veio a ambulncia?

-Ainda no, nenm.

Era Nathaniel, que lhe ps umas ataduras nas bonecas.

-O que  isto?

-Acupuntura -disse Nathaniel, e retorceu as ataduras at que Megan sentiu a presso de algo metlico em um ponto da boneca.

teria posto-se a rir se no fora porque lhe dava vontade de chorar.

-Genial, faz-me falta uma maca e voc me faz vodu.

-A acupuntura  uma cincia muito vlida. E eu tampouco desprezaria o vodu. Eu vi alguns resultados impressionantes. Agora respira profundamente e fique aqui sentada -disse Nate e foi abrir uma janela para deixar que entrasse a brisa-. Tenho que voltar para a cabine.

Megan se apoiou na parede e deixou que a brisa lhe desse na cara. Ao outro lado da coberta os meninos jogavam, esperando encontrar ao Moby Dick depois da espuma de cada onda. Megan se fixou nas colinas, mas logo fechou os olhos.

Suspirou, depois comeou a formular uma complicada frmula trigonomtrica. Extraamente, quando deu com a soluo, sentia-se muito melhor.

Provavelmente porque tinha os olhos fechados, disse-se. Mas no podia mant-los fechados durante trs horas, e menos quando estava ao cargo de trs meninos.

Para provar, abriu um olho. O navio seguia balanando-se, mas ela seguia sentindo-se bem. Abriu o outro olho. Ao no ver os meninos sentiu pnico. ficou em p, esquecendo o enjo, e os viu na cabine, rodeando ao Nate.

Que bem, disse-se com desgosto, ela ali sentada, enjoada, enquanto Nathaniel, que tinha que pilotar o navio, cuidava dos meninos. ficou uma mo no estmago e avanou um passo.

Mas no lhe aconteceu nada.

Franzindo o cenho, avanou outro passo, e outro. sentia-se algo fraco, certamente, mas j no vacilava, nem sentia nuseas. atreveu-se a fazer a ltima prova, e olhou pela janela.

Sentiu um puxo, mas foi quase uma sensao agradvel, como a de montar em um carrossel. Agachou a vista e se olhou as ataduras das bonecas com assombro.

Nathaniel a olhou por cima do ombro. Ao Megan havia tornado a cor.

-Melhor?

-Sim -disse Megan sonriendo-. Obrigado.

Ps aos meninos as jaquetas e ela ficou a jaqueta. Sobre o Atlntico, o vero se desvanecia.

-A primeira vez que sa a navegar, vimo-nos metidos em uma tormenta. Passei as duas piores horas de minha vida aparecido no corrimo. Venha, toma o leme.

-O leme? No.

-por que no?

-Venha, mame.  muito divertido.

Empurrada pelos trs meninos, Megan se encontrou metida na cabine. Deu com as costas contra o peito do Nathaniel, que lhe agarrou as mos.

Megan se estremeceu. O corpo do Nathaniel era forte como o ao e suas mos seguras e firmes. Podia cheirar o mar, mas tambm o cheirava a ele. No importava o muito que tratasse de concentrar-se na gua que flua interminavelmente a seu redor, Nate estava ali, justo ali, lhe acariciando a cabea com o queixo.

-No h nada como pilotar para no enjoar-se -comentou Nate.

Megan proferiu um som de assentimento. Imaginava o que seria sentir suas mos sobre seu corpo. Se dava a volta para ficar frente a ele e inclinava a cabea at alcanar o ngulo correto...

Desconcertada por aquele pensamento, voltou a fazer um clculo matemtico.

-Velocidade a um quarto -ordenou Nathaniel.

A mudana de velocidade fez perder o equilbrio ao Megan. Ao tratar de recuper-lo, Nathaniel lhe deu a volta, de modo que ficou frente a ele. Pelo sorriso do Nate, Megan se perguntou se sabia o que ela estava imaginando.

-Olhe essa lucecita na tela, Kevin -disse Nate, mas no deixava de olhar ao Megan, cativando-a com seu olhar profundo, com aqueles olhos azuis escuros, olhos de feiticeiro, pensou tristemente-. Sabe o que quer dizer? acrescentou, inclinando a cabea, aproximando-a a do Megan-. Que h baleias.

-Onde? Onde, Nate? -disse o menino, e correu  janela.

-Segue olhando. Quando as virmos, paramos.

Ao deter-se, o navio se balanou com mais entusiasmo, ou era ela a que estava mais agitada?, perguntou-se Megan. Nathaniel falou pela megafona do navio, fazendo um comentrio a respeito das baleias que viam no mar. Megan tirou os prismticos e a cmara da bolsa.

-Olhe! -exclamou Kevin, saltando sobre a coberta-. Mame, olhe!

Uma enorme baleia emergiu da gua, elevando-se, suave e esplendidamente. A gente que estava em coberta rompeu em exclamaes de admirao. Megan conteve o flego.

Havia uma sorte de magia em que um animal to grande, to magnfico, pudesse no s deslizar-se to brandamente, a no ser existir.

O animal expulsou um jorro de gua pelo, orifcio superior, e foi igual a se um trovo ressonasse no cu.

A gua salpicou o ar, pulverizando-se como gotas de diamante. Megan ficou olhando com um n na garganta, esquecendo-se dos prismticos e da cmara.

-Seu casal se aproxima -disse Nathaniel.

Megan despertou de sua abstrao e tomou a cmara.

A outra baleia emergiu e as duas se deslizaram sobre a gua, soprando.

Os meninos aplaudiram entusiasmados. Megan se ps-se a rir e tomou em braos ao Jenny para que pudesse ver melhor. Os trs meninos olharam por turno, e com impacincia, pelos prismticos.

Megan se apoiou na janela, observando com tanto interesse como os pequenos, enquanto o navio seguia s baleias em sua travessia. Logo, as baleias deram um enorme bufido e se inundaram no mar com um golpe de seus enormes aletas. Na coberta inferior, a gente, embora salpicada de gua, proferiu exclamaes de entusiasmo.

Duas vezes mais, o Mariner procurou e encontrou mais exemplares, proporcionando aos passageiros o espetculo de sua vida. Tempo depois, viraram e puseram proa ao porto. Megan olhou pela janela, esperando ver baleias uma vez mais.

-Bonito, verdade?

Megan olhou ao Nathaniel, brilhavam-lhe os olhos.

-Incrvel. No podia imagin-lo. Tinha-o visto em televiso, mas  muito mais espetacular.

-No h nada como v-lo e faz-lo voc mesmo -diga-o Nate com uma careta-. Segue bem?

Megan riu e se olhou as bonecas.

-Outro pequeno milagre. No teria apostado nem um cntimo.

-"H mais costure no cu e na Terra, Horacio".

Um pirata citando Hamlet.

-Isso parece -murmurou Megan-. Olhe, As Torres -disse assinalando.

-Est aprendendo, nenm.

Quando alcanaram a baa, Nathaniel deu as ordens para atracar.

-Quanto tempo leva navegando? -perguntou-lhe Megan.

-Toda minha vida. Fugi-me e me arrolei na marinha mercante aos dezoito anos.

-Fugiu-te? -disse Megan sonriendo-. Procurando aventuras?

-Procurando liberdade.

Nate atracou com tanta suavidade como se ficasse uma luva.

Megan se perguntava por que um menino partiria em busca de liberdade. E pensou em si mesmo  mesma idade, uma cria com um filho. Tinha entregue sua liberdade, mas, nove anos depois, no se arrependia disso. O preo de sua liberdade tinha sido seu filho.

-Podemos ir beber? -perguntou-lhe Kevin-. Temos sede.

-Claro, eu lhes levo.

-Podemos ir sozinhos -disse Alex com orgulho-. Eu tenho dinheiro. Queremos nos sentar abaixo e ver baixar s pessoas.

-Muito bem, mas fique dentro -disse Megan-. Desdobram suas asas muito logo.

-A seu filho ainda fica muito tempo para te deixar.

-Isso espero -disse Megan, e se calo a tempo de acrescentar: " tudo o que tenho"-. foi um dia estupendo para ele, e para mim tambm. Obrigado.

-foi um prazer.

Estavam sozinhos na cabine, amarrados. Os passageiros comeavam a desembarcar.

-Voltar.

-No posso deixar sozinho ao Kevin. Vou busc-los.

-Esto bem, no se preocupe -disse Nate, e se aproximou do Megan antes de que esta se evadisse-. Tranqila, no fique nervosa.

-No estou nervosa.

-Eu acredito que sim. Era uma delcia observar sua cara quando vimos a baleia. Sempre  uma delcia, mas quando te ri e o vento te revolve o cabelo, voltaria louco a qualquer homem.

Avanou outro passo. Megan retrocedeu at dar com a roda do leme. Talvez no tivesse direito, dizia-se Nate, mas pensaria nisso depois.

-Tambm eu gosto de seu olhar. Seu olhar, agora.  todo olhos. Tem os olhos mais bonitos que vi. E sua pele dourada, como o pssego -disse Nate, lhe acariciando a bochecha.

-No me afetam os flertes -disse Megan. Queria aparentar firmeza, no ficar sem flego.

- sozinho a verdade -disse Nate, e inclinou a cabea para beij-la-. Se no querer que te beije, me diga que no.

Megan o teria feito, de ter sido capaz de falar. Mas Nate a beijou antes, e comeou a acarici-la. Mais tarde, Megan se diria que tinha tentado protestar, apartar-se, mas no era verdade.

Desfrutou daquele beijo, deixando-se levar, invadida pelo desejo. Era o primeiro beijo depois de muitos anos. Enredou os dedos nos cabelos do Nate, urgindo-o a que a beijasse mais e mais.

Nate esperava uma resposta fria, ou ao menos vacilante. Possivelmente tivesse visto um brilho de paixo em seus olhos, mas lhe parecia profundo, escondido, igual a um vulco, que na superfcie parece dormido.

Entretanto, nada o tinha preparado para aquele estalo de fogo.

No pde pensar em nada, logo solo pensou no Megan, em seu aroma, em seu tato, em seu sabor. Estreitou-a com fora, sentindo com prazer cada curva de seu corpo, que Megan apertava sem rubor.

O aroma do oceano lhe fez imaginar que se encontravam em uma praia deserta, enquanto as ondas golpeavam na borda e se ouviam as gaivotas.

Megan sentia que se estava afundando e se agarrou a ele, procurando equilbrio. via-se apanhada em um torvelinho de sensaes e as ataduras que tinha nas bonecas no bastariam para que recuperasse o bem-estar, a calma.

Faria-lhe falta fora de vontade, mas lhe bastou... a lembrana.

separou-se dele e teria cansado ao cho de no sustent-la Nate.

-No.

Nate, que estava sem flego, disse-se que mais tarde pensaria por que um s beijo o deixava sem respirao, igual a um murro.

-Ter que ser mais especfica. No a que?

-A isto, a algo relacionada com isto -replicou Megan, presa do pnico-. No estava pensando.

-Eu tampouco.  um bom sinal no pensar quando lhe beijam.

-No quero que me beije.

Nate se meteu as mos nos bolsos. Era o mais seguro, decidiu. Megan voltava a pensar.

-Nenm, parece-me que tambm foi tua coisa.

No tinha sentido negar o evidente.

- muito atrativo e respondi que um modo natural.

Nate sorriu.

-Nenm, se beijar assim  natural para ti, vou morrer muito feliz.

-No penso deixar que volte a ocorrer.

-J, mas as boas intenes no sempre se cumprem -disse Nate.

Megan estava tensa. Nate se dava conta e pensava que a experincia com o Dumont devia lhe haver deixado muitas cicatrizes.

-te tranqilize, Meg -disse mais amavelmente-. No te vou forar. Se quer ir devagar, iremos devagar.

A razovel proposta do Nate enfureceu ao Megan.

-No vamos nem depressa nem devagar -disse.

-Temo-me que vou ter que te contradizer. Quando um homem e uma mulher se atraem tanto,  difcil evitar o desejo.

Megan sabia que tinha razo. Inclusive naqueles momentos, uma parte de lhe dizia que se deixasse levar.

-No me interessa o desejo. Agora no quero ter uma relao e menos com um homem que nem sequer conheo.

-Pois ento nos conheceremos melhor -respondeu Nate com um tom irritantemente razovel.

Megan apertou a mandbula.

-No quero uma relao. Sei o que deve ser um grande golpe para seu ego, mas ter que te acostumar. Agora, se me perdoar, vou pelos meninos.

Nate se apartou para a deixar passar e esperou a que chegasse  porta de cristal que levava a coberta de acima.

-Meg -disse. Era sozinho uma parte de seu ego a que o incitava a falar, o resto era pura determinao-. Quando fizer o amor contigo no pensar nele. Nem sequer recordar seu nome.

Megan se voltou para olh-lo, com desprezo. Abandonou sua dignidade e partiu com uma portada.






4


Essa mulher vai acabar comigo -disse O Holands. Estava na despensa, com uma garrafa de rum na mo-. Escuta bem o que te digo, moo.

Nathaniel estava sentado a seu lado, depravado, depois de desfrutar de um jantar com as Calhoun. A cozinha do hotel estava imaculada, depois do jantar, e Coco estava com a famlia. De outro modo, O Holands no se teria atrevido com o rum.

-No estar pensando em abandonar o navio, verdade, companheiro?

O Holands rebuf. O fazia graa, como ia abandonar sozinho porque uma mulher subia s barbas?

-Fico -disse e, depois de um olhar  porta, serve rum para os dois-. Mas lhe advirto isso, moo, antes ou depois, essa mulher vai receber seu castigo. E vai dar quem eu me sei disse destacando o peito com o polegar.

Nathaniel bebeu um gole de rum. Chiaram-lhe os dentes e lhe queimou a garganta.

-Onde est a garrafa que te dei de presente?

-Usamo-la em um bolo. Este  bastante bom para beber.

-Sim, se quer ter uma lcera -resmungou Nathaniel-. Bom, que problemas tem com Coco?

-No  um problema, so dois -disse O Holands, e franziu o cenho quando soou o telefone de servio. Servio de habitaes, pensou fazendo uma careta, alguma vez tinha tido servio de habitaes em seus navios-. Sim, o que?

Nathaniel sorriu. A diplomacia no era o ponto forte do Holands.

-Acreditar-se que no temos nada mais que fazer -disse O Holands-. O levaremos quando estiver preparado -disse, e pendurou-. Champanha e bolo a estas horas. Recm casados. No lhes vimos o cabelo em toda a semana.

-Onde est seu romantismo, Holands?

-Isso lhe deixo isso a ti, moo -disse cortando um pedao de bolo de chocolate com seus manazas-. J vi como olhava  ruiva.

- loira, embora com reflexos avermelhados -corrigiu-o Nathaniel, e se atreveu a beber outro gole-.  bonita, n?

-Como todas as que voc gosta -disse O Holands, e acompanhou as partes de bolo com mingau e morangos. Tem um menino, no?

-Sim -disse Nathaniel, o bolo tinha to bom aspecto que gostou de uma parte-. Kevin, cabelo castanho, alto para sua idade, olhos grandes.

-J o vi -disse O Holands, que tinha uma debilidade pelos meninos que tratava de ocultar-. baixou com os outros dois safados a procurar doces.

Que, como Nathaniel sabia, os tinha dado com grande prazer, apesar de sua mscara de resmungo.

-Teve-o muito jovem, no?

Nathaniel franziu o cenho. Aquela frase parecia indicar o pensamento do Holands, que Megan era a nica responsvel por seu embarao.

-Aquele porco a enganou -disse.

-Sei, sei, ouvi algo.  difcil que me escape algo -disse O Holands.

No era difcil solicitar informao a respeito de Coco, se procurava nos stios convenientes. Embora no o admitia, era algo que fazia diariamente. Chamou um garom pelo intercomunicador.

-Prepara uma bandeja para a nmero trs -disse-. Dois bolos e uma garrafa de champanha da casa, e no se esquea dos guardanapos, maldita seja.

Uma vez servida a bandeja, apurou seu rum.

-Arrumado a que gosta de uma parte.

-No diria que no.

-Nunca vi que rechace uma boa comida, ou uma mulher -disse O Holands, e cortou uma parte de bolo, bastante maior que os anteriores.

-No me vais pr morangos?

-Come e cala.  muito magra, no? Como  que no est ligando com ela?

-Vou pouco a pouco -disse Nathaniel com a boca enche-. Esto todos no comilo, reunio familiar -disse Nate. levantou-se, serve-se uma taa de caf e jogou nele o rum que ficava-. encontraram um livro antigo. E no  muito magra,  delicada.

-Sim, isso -disse O Holands, e pensou em Coco, cheia de curvas-. Todas as mulheres so delicadas at que lhe pem um anel diante dos narizes.



Ningum haveria dito que as mulheres reunidas no comilo eram delicadas, no quando tinha lugar uma das discusses que sacudiam o lar dos Calhoun de vez em quando.

-Eu digo que o queimemos -dizia C. C., cruzada de braos-. depois de tudo o que soubemos do Fergus pelo jornal da Bianca, no sei por que temos que guardar este livro.

-No podemos queim-lo -replicou Amanda-.  parte de nossa histria.

-me d ms vibraes -disse Lilah olhando o livro, que estava no centro da mesa-, muito ms.

-Pode ser -disse Max, sacudindo a cabea-, mas no posso queimar um livro, nenhum livro.

-No  literatura exatamente -resmungou C. C.

Trent deu umas palmadas no ombro a sua mulher.

-Podemos deix-lo onde estava, ou pensar no que sugere Sloan.

-Acredito que poderamos construir uma sala com objetos relacionados com a histria de Las Torres -disse Sloan-. Acredito que seria bom no s para o hotel mas tambm para a famlia.

-No sei -disse Suzanna, apertando os lbios e tratando de ser objetiva-. No quero pr este libero ao lado das coisas da Bianca ou de tia Colleen ou do tio Sejam.

-Foi um canalha, mas  parte da histria -disse Holt-. Estou de acordo com o Sloan.

Aquela opinio,  obvio, despertou uma srie de assentimentos, dissenses e outras sugestes. Quo nico Megan podia fazer era permanecer sentada e observar com assombro.

No tinha querido estar ali, mas tinha sido convocada sumariamente. As reunies familiares dos Calhoun eram sagradas.

A discusso seguia e ela se fixou no objeto em questo. Quando Amanda o deixou em seu escritrio, sucumbiu  tentao. Tirou-lhe o p e o folheou, sem poder evitar fixar-se nas colunas repletas de nmeros, em ocasionais enganos de aritmtica. Do mesmo modo, fixou-se nas notas  margem e, depois de ler algumas, dava-se conta de que Fergus Calhoun era um homem frio, ambicioso e egosta.

Mas no entendia por que um simples livro de contabilidade ocasionava tantos problemas. Sobre tudo, quando as ltimas pginas estavam cheias de nmeros, s nmeros, sem nenhuma explicao.

estava-se dizendo, uma vez mais, que no devia intervir, quando foi branco de todas as olhadas.

-Voc o que opina, Megan? -perguntou-lhe Coco.

-Perdo?

-Voc o que pensa? No h dito nada e, ao fim e ao cabo, sua opinio seria a mais qualificada.

-Por...?

- um livro de contabilidade -assinalou Coco-. Voc  contvel.

A lgica daquela asseverao derrotou ao Megan.

-No  meu assunto-disse, mas um coro de respostas lhe disse justamente o contrrio-. Bom, eu... Suponho que seria uma lembrana interessante, e  muito interessante revisar um livro de contabilidade de faz tanto tempo. Ver os salrios, calcular o valor em dlares atuais, obter a renda da famlia naquele ano.

-Claro! -disse Coco, aplaudindo-. Ontem  noite estive pensando em ti, Meg, enquanto me jogava as cartas. E me lembrei de que sua carta dizia que te veria imersa em um projeto, um projeto com nmeros.

-Tia Coco -disse C. C. com pacincia-, Megan  nosso contvel.

-J sei, carinho -disse Coco com um brilhante sorriso-. Assim, ao princpio, no pensei muito nisso. Mas seguia com a sensao de que se tratava de algo mais e estou segura de que o projeto vai proporcionar algo maravilhoso, algo que nos far muito felizes a todos. Me alegro muito de que o faa.

-Que faa o que? -disse Megan, e olhou a seu irmo, que estava sonriendo.

-Estudar o livro do Fergus. Inclusive poderia arquiv-lo no ordenador, verdade? Sloan nos h dito que  muito lista.

-Poderia, mas...

O pranto de um menino, que chegava travs de um alto-falante, interrompeu-a.

- Bianca? -disse Max.

-Ethan -disseram C. C. e Lilah ao unssono.

E a reunio concluiu.



O que tinha aceito fazer exatamente? De algum jeito, embora logo que havia dito uma palavra, tinha ficado a cargo do livro do Fergus. Mas, que remdio tinha, era um assunto de famlia.

Suspirou e saiu a terrao. Aspirou profundamente o ar cheio de aromas da noite. Ouvia o mar na distncia. A brisa era fresca, ligeiramente mida e salgada. As estrelas 'brilhavam no cu, a lua crescente.

Seu filho estava deitado, contente e seguro, rodeado de gente que o queria.

Estudar o livro do Fergus era um pequeno favor com o que podia comear a pagar todo o bem que lhe tinham feito.

Muito desvelada para ir-se dormir, descendeu pela terrao, entre os macios de flores. fixou-se nas rosas e petunias, banhadas pela luz da lua. Sobre o tronco de uma rvore ressecada, subia uma glicinia, cujas ptalas, que cobriam o cho, caram sobre seu cabelo ao sopro a brisa.

-"Ela no era mais que um delicado fantasma quando, por primeira vez, apareceu ante meus olhos".

Megan se sobressaltou, levando-a mo ao corao. Uma sombra se separou das outras sombras.

-Assustei-te? -disse Nathaniel, aproximando-se. Na escurido brilhava a ponta de seu charuto aceso-. Normalmente, Wordsworth tem um efeito distinto.

-No te tinha visto. Pensei que no havia ningum.

-Estava passando o momento com O Holands e uma garrafa de rum -disse Nate, saindo  luz da lua-. Gosta de queixar-se de Coco e prefere uma audincia pormenorizada -disse e deu uma imerso ao charuto. Seu rosto se ocultou depois de uma nuvem de fumaa, atrativo e misterioso-. Bonita noite.

-Sim... Bom, tenho que...

-No faz falta que fuja. Tinha sado a passear -disse Nate e se agachou para cortar um peona-. Est em sua melhor hora -disse oferecendo-lhe ao Megan.

Megan aceitou o casulo em silncio.

-Estava admirando as flores -disse ao cabo de uns segundos-. A mim no me do bem.

-Tem que pr muito carinho, alm de gua e fertilizante.

Megan tinha o cabelo solto, e seguia com as calas e a jaqueta que se ps para jantar. Que pena, pensou Nate, lhe teria gostado mais que estivesse em bata. Mas Megan Ou'Riley no era o tipo de mulher que se passeava de noite em bata  luz da lua.

E se tivesse vontades de faz-lo, no o permitiria.

O nico modo de combater aqueles penetrantes olhos cinzas, alm de fugir como uma parva, era a conversao.

-Tambm sabe de jardinagem, alm de navegar e citar aos clssicos?

-Entre outras coisas, eu adoro as flores -disse Nate, e tomou a mo do Megan, a que sustentava a peona, levando-lhe ao nariz para aspirar o aroma da flor e da mulher.

Megan se viu apanhada, imersa em uma atmosfera cheia de enfeitio. O perfume do jardim parecia rode-los, invadindo seus sentidos. O rosto do Nate estava talher de sombras. Ela se fixou em seus lbios, curvos e tentadores.

Pareciam completamente sozinhos, totalmente separados do mundo, das responsabilidades diurnas. Eram sozinho um homem e uma mulher, sob um cu estrelado e em um jardim iluminado pela lua, balanados pela msica do mar distante.

Mas Megan tratou de romper aquele encanto.

-Surpreende-me que tenha tempo para a poesia e as flores.

-Sempre se encontra tempo para o que mais importa.

Nate tambm sentia a magia daquela noite. Em noites como aquela, tinha ouvido canes de sereias, ou rugidos de monstros desconhecidos. Nate acreditava na magia e, por isso, aquela noite tinha esperado que Megan sasse ao jardim e sabendo, de algum modo, que o faria.

-vamos passear -disse ao Megan sem lhe soltar a mo-. No podemos desperdiar uma noite como esta.

-Tenho que voltar -disse Megan.

-Logo.

De modo que Megan comeou a passear com o Nate naquele jardim de conto de fadas, com uma flor na mo e o cabelo cheio de ptalas.

-Teria que... ir ver como est Kevin.

-Tem problemas de sonho?

-No, mas...

-Pesadelos?

-No.

-Bom, ento -disse Nate, continuando o passeio pelo estreito caminho-. Quando um homem se aproxima de ti, sempre tem vontades de sair correndo?

-No sa correndo. J te hei dito que no quero uma relao.

-Tem graa, faz um momento, quando estava na terrao, parecia uma mulher preparada para comear uma relao.

Megan se deteve.

-Estava-me espiando?

-Mmm -disse Nathaniel, e apagou o charuto em um cinzeiro de areia-. Estava pensando que  uma pena que no tenha um alade.

Megan, ainda molesta, sentiu curiosidade.

-Um alade?

-Uma mulher s em uma terrao... Merece uma serenata.

Ao Megan deu vontade de rir.

-E voc sabe tocar o alade.

-No, mas quando te vi, pensei que eu gostaria -disse Nate e seguiu caminhando. A terrao iniciava o pendente por volta do mar-. Estava acostumado a passar por aqui navegando quando era pequeno, e ficava olhando As Torres. Eu gostava de imaginar que um drago as protegia e que eu escalava o escarpado e lutava com ele.

-Kevin segue dizendo que  um castelo -murmurou Megan.

-Quando cresci e me fixei nas Calhoun, imaginava que quando matava ao drago me recompensavam. Suponho que so fantasias normais aos dezesseis anos, ser coisa dos hormnios.

Megan riu.

-Com qual sonhava?

-Com todas -disse Nate sonriendo e se sentou em um muro, sentando ao Megan a seu lado-. Sempre foram... algo especial. Holt sonhava com a Suzanna, embora nunca o admitiria. Como era meu amigo, tive que me esquecer dela. Isso deixava s outras trs, mas antes tinha que conquistar ao drago.

-Mas, alguma vez brigou com o drago?

Uma sombra cruzou o rosto do Nate.

-Tive que brigar com outro. Suponho que se pode dizer que o deixei para mais tarde e me embarquei. Mas tive um breve e maravilhoso interldio com a encantada Lilah.

-Voc e Lilah?

-Justo antes abandonei a ilha, mas havia me tornado louco. Eu acredito que estava praticando -disse Nate suspirando-. Era muito boa.

Megan imaginou sua relao, relaxada, distendida, perfeita.

-Que fcil  ver o que est pensando, Meg -disse Nate, sonriendo-. No fomos Romeo e Julieta. Beijamo-nos umas quantas vezes e tratei de convenc-la, por todos os meios, de que fssemos mais longe. Mas no quis. Tampouco me rompeu o corao. Bom, rachou-me isso um poquito.

-E ao Max no importa?

-por que ia importar lhe? casou-se com ela e so unha e carne.

Nate tinha razo. Todas as Calhoun tinham encontrado sua meia laranja.

- curioso, tantas relaes cruzadas.

-Diz-o por mim ou por ti?

Megan ficou tensa, porque de repente se deu conta do que significava estar ali junto ao Nate, que a rodeava pelos ombros.

-Que mais d.

-Segue zangada? -disse Nate, estreitando o abrao-. Por isso ouvi sobre o Dumont, acredito que no merece a pena que pense nele. No merece a pena estragar uma noite como esta removendo velhas feridas. por que no me conta como lhe convenceram para que aceite o livro de contabilidade do Fergus?

-Como te inteiraste que isso?

-Ho-me isso dito Holt e Suzanna.

Megan se tranqilizou um pouco. Era agradvel discutir com algum prximo, mas que no pertencia  famlia.

-No sei o que passou, quase no tenho aberto a boca.

-Seu primeiro engano.

Megan deixou escapar um bufido.

-Teria que ter gritado para que me ouvissem. No sei por que dizem que  uma reunio silo nico que fazem  discutir -disse, e franziu o cenho-. Ento, deixam de discutir e voc te d conta de que lhe colocaram no alho. E se trficos de dizer que no, todos se tornam sobre ti.

-Sei muito bem de que falas. Ainda no sei se me colocar em negcios com o Holt foi minha coisa. Surgiu a idia, discutiu-se, votou-se e se passou. E ao dia seguinte, j estava assinando no sei que documentos.

Interessante, pensou Megan, estudando o perfil do Nate.

-No me parece o tipo de pessoa que pode ver-se arrastada a fazer o que no quer.

-Eu diria o mesmo de ti.

Megan reflito um momento.

-Tem razo. O livro  fascinante, de todas formas, estou desejando me pr com ele.

-Espero que no esteja pensando em ocupar nele todo seu tempo livre -disse Nate, brincando com os cabelos soltos do Megan-. Eu quero uma parte para mim.

Megan se separou um pouco.

-Hei-te dito que no quero.

-O que te passa  que est preocupada porque est interessada -disse Nate, tomando seu queixo e lhe girando a cabea para que o olhasse-. Imagino que o ter acontecido muito mal, por isso te disse que posso esperar.

Megan o olhou com fria.

-No me diga como o passei ou o deixei que passar. No te estou pedindo nem compreenso nem pacincia.

-Est bem.

Nate a beijou sem mediar palavra, com desejo incontenible, sem poder ser fiel a sua inteno de ser paciente. E seus lbios eram exigentes, ansiosos, irresistveis, Megan no pde fazer nada para recha-lo.

As brasas que tinham ardido em seu interior do primeiro beijo se converteram em chamas. Megan se odiou por sua prpria debilidade, mas no podia evit-lo e se deixou arrastar.

Tinha provado o que queria, disse-se Nathaniel beijando-a no pescoo, inundando-se em uma quebra de onda de desejo.

Mas aquele desejo tinha que esperar para ser satisfeito, porque Megan ainda no estava preparada.

-Agora me diga que no te importa, que no lhe afeta -murmurou Nate, furioso consigo mesmo por no tomar o que sabia que era dele-. Me diga que no queria que te tocasse.

-No posso -exclamou Megan com desespero.

Queria que a tocasse, que lhe fizesse o amor, que a jogasse no cho e a amasse grosseiramente. E, desse modo, descarregar a de responsabilidade, e da sensao de vergonha que solo a acovardava.

-O desejo no basta -disse e empurrou ao Nate, ficando em p-, nunca me bastar. J desejei antes.

Estava tremendo e com os olhos cheios de lgrimas.

-Mas eu no sou Dumont -disse Nathaniel-, e voc j no  uma menina de dezessete anos.

-Sei quem sou, mas no sei quem  voc.

-Isso  uma evasiva. Sentimo-nos atrados do primeiro momento.

Megan retrocedeu, porque sabia que era certo, e lhe dava medo.

-Est falando de qumica.

-Talvez esteja falando do destino -disse Nate com tranqilidade, e se levantou-. Necessita tempo para pensar, e eu tambm. Acompanho a casa.

Megan o deteve com um gesto.

-Posso ir eu sozinha -disse e saiu correndo.

Nathaniel resmungou uma maldio. Voltou a sentar-se e acendeu outro charuto. No tinha sentido voltar para casa, no poderia dormir.



 tarde seguinte, Megan levantou a vista de sua mesa para ouvir que chamavam a sua porta.

-Passe.

-Perdo pela interrupo.

Era Coco. Megan comprovou, surpreendida, que Coco se tingiu o cabelo. Levava-o castanho escuro. Aquela mulher devia tingir-se com tanta freqncia como se trocava de sapatos.

-No comeste -disse Coco e entrou levando uma bandeja carregada de comida.

-No tinha por que te haver incomodado -disse Megan consultando o relgio; ficou de pedra ao comprovar que eram mais das trs-. J tem bastante que fazer.

-Isto  parte de meu trabalho -disse Coco, servindo a comida. Jogou uma olhada  tela do ordenador,  calculadora e s faturas-. Meu deus, quantos nmeros. Nunca me deram bem.

-Ter que tomar-lhe com calma -disse Megan-. Uma vez que sabe que um e a gente so dois, pode-se fazer algo.

Coco olhou a tela do ordenador com vacilao.

-Se voc o disser, querida. Bom, aqui tem uns sandwiches e ch gelado.

Era uma tentao, sobre tudo porque no tinha tomado o caf da manh. Um resduo de seu encontro com o Nathaniel.

-Obrigado, Coco. Sinto que por mim tenha interrompido seu trabalho.

-OH -exclamou Coco com um gesto da mo-. No se preocupe por isso. Para ser franco, querida, tinha que sair dali, me afastar desse homem.

-Do holands? -disse Megan sonriendo, depois de provar o primeiro sndwich-. Conheci-o esta manh, ao baixar.
Coco comeou a brincar com os colares dourados que adornavam seu pescoo.

-Espero que no haja dito nada ofensivo.  um pouco... brusco.

-No -disse Megan, servindo dois copos de ch e lhe oferecendo um a Coco-. Solo me disse que tenho que comer mais porque estou muito magra. Pensei que me ia oferecer a omelete que estava fazendo, mas chegou um garom e me escapei enquanto jogava a bronca ao pobre menino.

-Tem uma linguagem -disse Coco sentando-se e estirando a cala de seda- deplorvel. E sempre me est contradizendo com as receitas. Considero-me uma mulher paciente e, se me permite diz-lo, inteligente. Ambas as coisas me tm feito falta para criar a quatro meninas. Mas com esse homem no sei o que fazer.

-Suponho que poderia despedi-lo -disse Megan.

-Impossvel.  como um pai para o Nathaniel, e os meninos esto encantados com ele, embora no posso compreender por que -disse Coco e sorriu-. E tenho que admitir que no lhe do mal certos pratos singelos -disse mesndose os cabelos.

	Megan seguia pensando no que Coco lhe havia dito anteriormente. 

-Suponho que o senhor Vo Home e Nathaniel se conhecem a muito tempo tempo.

-Faz mais de quinze anos. Estiveram juntos em todos os navios. Acredito que o senhor Vo Home tomou ao Nathaniel sob seu amparo. Isso  algo a seu favor, suponho. Deus sabe que o menino necessitava a algum, depois de uma infncia to miservel.

-OH -exclamou Megan. No gostava das intrigas, mas Coco necessitava pouco estmulo.

-Sua me morreu quando era muito pequeno, pobrecillo. Quanto a seu pai... -disse Coco com seriedade. Era pouco mais que uma besta. Eu o conheci muito pouco, mas no povo se falava muito dele. Nathaniel ia pescar com o Holt de vez em quando, e quando vinha por aqui, eu mesma podia ver seus cardeais.

-Pegava-lhe?

-Temo-me que sim.

-E ningum fez nada para impedi-lo?

-Quando lhe perguntava, John Fury dizia que o menino se cansado ou que se brigou com outro menino. Nathaniel nunca lhe contradizia.  triste diz-lo, mas naqueles tempos a gente no lhe dava tanta importncia aos maus entendimentos. Ainda  assim, temo-me -disse Coco, derramando lgrimas, que se limpou com um guardanapo de papel-. Nathaniel partiu assim que teve idade. Seu pai morreu faz poucos anos. Nate mandou dinheiro para o enterro, mas no veio. Ningum pode culp-lo.

calou-se uns instantes e suspirou.

-No queria te contar uma histria to triste, mas teve um final feliz. Nate se converteu em um bom homem. Quo nico precisa  encontrar  mulher adequada.  muito bonito, no te parece?

-Sim -disse Megan com cautela. Seguia tratando de reconciliar ao menino maltratado com o homem seguro de si mesmo que conhecia.

-E tambm  honrado e romntico, com todas essas histrias que conta e esse ar de mistrio. A mulher que fique com ele vai ter muita sorte.

Megan fez um gesto com os olhos. Tinha captado a mensagem.

-No sei. Eu no o conheo tanto como voc e tampouco penso nos homens nesse sentido.

-Tolices -disse Coco, que confiava cegamente em seus prprios julgamentos-.  jovem, bonita e inteligente. Um homem no vai acabar com essas qualidades, nem com sua independncia. O homem apropriado sozinho as reala. E tenho a sensao de que muito em breve te dar conta disso, muito em breve. Agora... -disse dando ao Megan um beijo na bochecha-.., tenho que voltar para a cozinha antes de que esse homem faa algo horrvel com meus canaps de salmo.

dirigiu-se  porta, mas, antes de sair, voltou-se.

-OH, querida, o que despistada sou. Vinha a te dizer um pouco do Kevin.

-Kevin? No est jogando com o Alex e Jenny?

-Sim, mas no aqui -disse Coco sonriendo distradamente, em um gesto que tinha praticado durante anos.  o dia livre do Nathaniel e se foi a comer. Que apetite tem, come como uma lima mas no engorda. Claro, que como sempre est ativo. Por isso tem esses msculos to maravilhosos. Maravilhosos.

-Coco, onde est Kevin?

-OH, outra vez, que desorientao. Est com o Nate. Todos esto com ele.

Megan ficou de p com um sobressalto.

-Com ele? Onde? No navio? -disse Megan, que imaginava perigosas tormentas a pesar do dia que fazia.

-No, no, em sua casa. Est fazendo um navio ou algo e os meninos morriam por ir com ele. Faria-me um grande favor se for recolh-los.

 obvio, pensava Megan, Coco pretendia que visse sua encantadora casa e o bem que se levava com os meninos.

-Suzanna no sabe que seus filhos no esto aqui, sabe? Mas no volta at as cinco, assim no h pressa.

-Mas...

-Sabe onde est a casa da Suzanna, verdade, carinho? a do Nathaniel est meio quilmetro mais  frente.  preciosa, no tem perda.

antes de que Megan pudesse protestar, Coco fechou a porta.

Bom trabalho, pensou Coco dirigindo-se para a cozinha.
5




Kevin no sabia qual gostava mais. A eleio era difcil entre o pequeno drago que Nathaniel tinha tatuado por detrs do ombro esquerdo, ou a cicatriz que tinha por diante. A cicatriz era o resultado de uma ferida de faca, o que era algo fantstico, mas uma tatuagem, a tatuagem de um drago, tambm era genial.

Nathaniel tambm tinha outra cicatriz, justo em cima da cintura, perto do quadril. Ante as insistentes pergunta do Alex, Nathaniel lhe disse que era pelo ataque de uma moria que tinha sofrido ao sul do Pacfico.

Kevin se imaginou ao Nathaniel, armado unicamente com uma faca agarrada entre os dentes, lutando at a morte com uma criatura marinha to grande como o monstro do Lago Ness. 		

Alm disso, Nathaniel tinha um louro, de chamativas cores, que estava nada mais entra na casa, apoiado em um cabide de madeira, e que, de vez em quando, falava. A frase favorita do Kevin era: "Que lhe cortem a cabea".

Para o Kevin, Nathaniel era o homem mais interessante que tinha conhecido nunca, um homem que tinha sulcado os sete mares, como Simbad, e com cicatrizes e histrias para prov-lo. E, alm disso, gostava dos ces e tinha um pssaro que falava.

Kevin se aproximou dele enquanto Alex e Jenny jogavam no jardim com o cachorrinho, disparando-se raios laser com pistolas de brinquedo. Gostava mais estar ao lado do Nathaniel, observando como cravava umas pranchas.

-por que quer fazer uma terrao?

-Para poder me sentar a tomar o ar.

-Mas se j tem uma na parte de atrs.

-E ali penso deix-la -respondeu Nathaniel, cravando outro prego.

S levava umas calas jeans curtas e um leno na cabea. Brilhava-lhe a pele, bronzeada e perlada de suor-. V? Aqui vo as pranchas.

Kevin observou o marco sobre o que ficariam as pranchas, que rodeava o lateral da casa.

-Sim.

-Bom, pois ter que continuar at chegar  outro soalho.

Ao Kevin brilharam os olhos.

-Para que d a volta  casa...

-Exato -disse Nathaniel, cravando outro prego-. Voc gosta da ilha?

Nathaniel lhe perguntava igual a se fosse um adulto, de modo que Kevin olhou a seu redor para ver se, em vez da ele, dirigia-se a uma pessoa maior.

-Sim, eu gosto de muito. Eu gosto de viver no castelo e jogar com o Alex e Jenny.

-Tambm tinha amigos no Oklahoma, verdade?

-Claro. Meu melhor amigo  John Curtis Silverhorn.  meio comanche. Minha me diz que pode vir a nos visitar quando queira, e que podemos lhe escrever cartas. Eu j lhe tenho escrito e lhe contei o das baleias -disse Kevin, e sorriu com acanhamento-.  o que mais eu gosto.

-J iremos ver as outro dia.

-De verdade? Quando?

Nathaniel deixou de martillear e olhou ao menino. Devia saber, depois de ver o Jenny e Alex, que quando os meninos crescem com amor, acreditam tudo o que lhes diz.

-Pode vir sempre que querer, sempre que sua me te deixe.

Sua recompensa a aquela oferta foi um brilhante sorriso.

-E poderei conduzir o navio outra vez?

-Claro -disse Nathaniel sonriendo e girou  boina de beisebol do menino-. Quer pr algum prego?

-Sim!

-Toma -disse Nathaniel e se apartou para que o menino se ajoelhasse junto a ele-. Agarra assim o prego disse ajudando-o a guiar o martelo e a sustentar o prego.

-N! -exclamou Alex, chegando do Planeta Zero-. Posso?

-Eu tambm -disse Jenny, pendurando-se das costas do Nathaniel.

-Suponho que j tenho equipe de trabalho -disse Nathaniel, calculando que aquela ajuda s lhe custaria o dobro de tempo do que pensava.

Uma hora mais tarde, Megan chegou ao lugar. A casa a surpreendeu. Era um encantado endoideci de dois novelo, com venezianas azuis e suportes de vasos cheios de flores nas janelas. A grama estava recm talhada e o cachorrinho brincava de correr de um lado a outro.

Mas o que mais a surpreendeu foi o prprio Nathaniel. ficou assombrada ao v-lo meio nu. Tinha um corpo precioso e ela, depois de tudo, era humano. Mas o que mais a surpreendeu foi o que estava fazendo.

Estava inclinado sobre seu filho, em um soalho de madeira ao meio fazer. Tinha arranca-rabo a mo do Kevin e Jenny estava a seu lado, admirando o trabalho. Alex estava sobre uma tabela, mantendo o equilbrio igual a se estivesse na corda frouxa.

-Ol, Megan! Olhe o que fao -disse-lhe este cruzando de um lado a outro da tabela.

-Muito bem -disse Megan.

-Estou na pista central, e sem rede.

-Mame, estamos fazendo um soalho -disse Kevin e, mordendo o lbio, cravou outra ponta-. V?

-Sim, muito bem -disse Megan, que teve que agachar-se para acariciar ao carinhoso cachorrinho, que lhe dava a bem-vinda.

-E logo vou eu -disse Jenny, olhando ao Nathaniel-. A que sim?

-claro que sim.

-Bom, capito, adiante com esse prego.

Kevin, com uma careta de esforo, obteve que a ponta transpassasse a tabela. 	

-pus eu toda a tabela, mame -disse Kevin, olhando a sua me com orgulho-. Cada um fazemos uma tabela. 	

-V, parece que esto fazendo um bom trabalho -disse Megan, olhando ao Nate-. E  difcil. 

-S faz falta emano firme e bom olho. Bom, moos, onde est a prxima tabela? 		

-Vamos! -disseram Alex e Kevin ao unssono. 	

Megan observou o processo. Nathaniel colocou a nova tabela em seu stio, ajudando-se com um taco de madeira. Quando ficou satisfeito com a posio, 	Jenny ficou diante dele. 

Nate agarrou as mos da menina e a ajudou com o martelo. 

-Mantn o olho no branco -disse Nathaniel, enquanto com pequenos golpes introduzia o prego-. Tenho sede. Vs no, companheiros? 

-Morro de sede -disse Alex ficando-as mos no pescoo e pondo rouca a voz. 

Nathaniel cravou a seguinte ponta. 

-H limonada na geladeira. Se algum quer traz-la

Quatro pares de olhos se voltaram para ela e Megan teve que ir pela limonada. J que no ia trabalhar de carpintera, teria que fazer o de ajudante. 	

-De acordo -disse e cruzou a parte terminada do soalho para ir  cozinha. 	

Nathaniel no disse nada, limitou-se a esperar. 	

Segundos depois, do interior da casa lhes chegou um uivo de lobo, seguido de um grito surdo. Nate sorriu, e ouviu a bem-vinda do louro: "N, carinho, quer uma taa? Adiante, nenm". Quando o louro ficou a entoar No h nada como uma mulher, os meninos estalaram em gargalhadas.

Uns minutos depois, Megan saiu levando uma bandeja de bebidas. Deixou-a no soalho e olhou ao Nate.

-Bogart, canes e poesia. Mido pajarraco -disse.

-Gosta das mulheres bonitas -disse Nathaniel, bebendo meio copo de limonada de um gole-. No o culpo.

-Tia Coco diz que Nate necessita uma mulher -disse Alex, limpando-a boca com o dorso da mo-. No sei por que.

-Para dormir com ele -disse Jenny. Nathaniel e Megan ficaram de pedra-. Os majores se sentem muito solos de noite e tm que dormir com algum. Igual a papai e mame. Eu tenho meu osito -disse-, assim no estou sozinha.

-Hora de descansar -disse Nate, contendo a risada com muita dificuldade-. Meninos, por que no levam a Co a dar um passeio?

	A idia encontrou geral aprovao e os meninos saram correndo. 	-

-Como so os meninos -disse Nate-. Os majores se sentem sozinhos...

-Estou segura de que Jenny pode te emprestar seu osito -disse Megan apartando-se, como se queria estudar a casa-.  muito bonita, Nathaniel.  acolhedora.

-Esperava-te um desastre de casa, no? uma espcie de cabana.

Megan sorriu.

-Algo assim.

-Tenho que te dar as obrigado por passar o dia com o Kevin.

-Os trs vo juntos a todas partes.

-Sim,  verdade.

-Eu gosto de sua companhia -disse Nate, sentando-se no soalho e cruzando as pernas-. O menino tem os mesmos olhos que voc.

Megan deixou de sorrir.

-No, os do Kevin so marrons -disse-, como os de seu pai.

-No me refiro  cor, a no ser ao olhar. Quanto lhe contaste?

-Pois... -disse Megan, e adotou uma atitude defensiva-. No vim a falar de minha vida contigo.

-E a que vieste?

-Pelos meninos e a revisar os livros contigo?

-Trouxeste-os? -disse Nate com um sorriso.

-Sim. examinei o primeiro trimestre. Seus gastos foram superiores aos ganhos, embora conseguiram efetivo com as reparaes. Mas h uma fatura impagada pendente desde fevereiro disse Megan, e tirou de sua carteira, que tinha deixado junto ao soalho ao chegar, umas folhas cheias de cifras, impressas em ordenador-. Um tal senhor Jacques LaRue, mil e duzentos dlares.

-LaRue teve um ano terrvel -disse Nathaniel, servindo-se mais limonada-. Holt e eu estivemos de acordo em lhe dar mais tempo.

-O negcio  seu, claro. O normal  pr interesses a partir dos trinta dias da data de pagamento.

-O normal nesta ilha  manter um trato amistoso.

-Como querem -disse Megan, ajustando-as culos-. Agora, como pode ver, ordenei os gastos em apartados distintos...

-Esse perfume  novo?

Megan o olhou.

-O que?

-Leva outro perfume, tem um pouco de jasmim. -Coco me deu de presente isso.

-Eu gosto -disse Nate, e se inclinou para diante-. Muito.

-Bom -disse Megan, esclarecendo-a garganta-. E aqui esto os ganhos. contabilizei os ganhos das entradas mensalmente. Dei-me conta de que os clientes do hotel tm desconto.

-Pareceu-nos justo e um bom negcio alm disso. -Sim,  muito bom negcio. Oitenta por cento dos clientes do hotel fazem o passeio Y... Tem que te sentar to perto?

-Sim. Jantamos juntos?

-No.

-Tem medo de estar a ss comigo?

-Sim. Agora, como pode ver, em maro seus ganhos comearam a subir...

-te traga para o menino.

-O que?

-Que venha Kevin. Levarei-lhes a um restaurante que conheo, a comer ostras -disse Nate-. No posso dizer que alcancem o refinamento da comida de Coco, mas o stio  muito pitoresco.

-J veremos.

-Estraguem. J vejo,  uma me autoritria.

Megan suspirou e se encolheu de ombros.

-De acordo. Ao Kevin adoraria.

-Bem -disse Nate, e se disps a cravar outra ponta-. Esta noite, ento.

-Esta noite?

-por que esperar? Chama a Suzanna e lhe diga que lhe levamos aos meninos.

-Bom, por que no -disse Megan.

Nate lhe dava as costas e quo nico ela podia fazer era fixar-se na tenso de seus msculos enquanto cravava a ponta. Ignorou seus temores e recordou que seu filho atuaria de carabina.

-Nunca comi ostras -disse.

-Pois chegou o momento.



S o pitoresco caminho, cheio de curvas, merecia a pena a viagem. Cruzaram pueblecitos preciosos, enquanto o sol se ocultava e a brisa lhes agitava o cabelo. Cheirava a pescado, a flores e a mar.

O restaurante no era mais que um caramancho de madeira desgastada pela umidade apoiado em pilote sobre o mar. A decorao consistia em conchas e redes de pesca.

Sobre as pequenas e rsticas mesas de madeira havia velas, postas sobre pequenas latas. O menu do dia estava escrito em uma piarra que pendurava junto  porta da cozinha.

-De comer sozinho temos ostras -dizia-lhes a garonete a uma atemorizada famlia-. De beber h cerveja, leite, ch gelado e refrescos. H batatas fritas e salada de couve como acompanhamento, mas no temos gelado porque a mquina se danificou. O que vo tomar?

Ao ver o Nathaniel, a garonete abandonou a seus clientes e se aproximou dele, saudando-o com um murro no peito.

-Onde te coloca, capito?

-por a, Julie. Mas hoje gostava de comer ostras.

-Pois este  o stio adequado -disse a garonete, corpulenta, de mdia idade e de pele curtida, e olhou ao Megan-. Encantada.

-Megan Ou'Riley e seu filho Kevin. Esta  Julie Peterson. Tem as melhores ostras da ilha do Mount Desert.

-A nova contvel de Las Torres -disse Julie assentindo-. Bom, sentem-se. Agora mesmo lhes preparo o jantar -disse, e voltou com os outros clientes-. J se decidiram ou s vo se sentar a tomar o ar?

-A comida  melhor que o servio -disse Nathaniel-. Acaba de conhecer um dos monumentos da ilha, Kevin. A famlia da senhora Peterson leva uns cem anos pescando e cozinhando ostras.

-Uauh -exclamou Kevin olhando  garonete, quem, aos olhos de um menino de nove anos, tinha idade suficiente para ter levado aquele negcio pessoalmente durante ao menos cem anos.

-Quando era pequeno, eu trabalhei aqui, limpando.

-Eu acreditava que tinha trabalhado para a famlia do Holt... -disse Megan, logo se amaldioou por falar muito-. H-me isso dito Coco.

-Passei algum tempo com os Bradford.

-Conheceu bisav do Holt? -disse Kevin-.  um dos fantasmas.

-Seguro. Estava acostumado a sentar-se no alpendre da casa onde Alex e Jenny vivem agora. Algumas vezes ia passeando at os escarpados. Procurando a Bianca.

-Lilah diz que agora tambm seguem passeando, mas eu no os vi -disse Kevin com decepo-. Voc viu algum fantasma alguma vez?

-mais de uno-dijo Nathaniel, ignorando o piso que Megan lhe deu por debaixo da mesa-. No Cornualles, entre os escarpados, onde a nvoa se retorce como se estivesse viva, vi uma mulher de p, olhando por volta do mar. Levava uma capa e chorava.

Kevin estava inclinado sobre a mesa, curioso e cativado.

-Aproximei-me dela, atravs da nvoa, e ela se deu a volta. Era muito bonita e muito triste. "Perdido", disse-me. "O est perdido e eu tambm". Logo desapareceu, como a fumaa.

-De verdade? -perguntou Kevin.

-Chamavam-na a mulher do capito, e a lenda diz que seu marido se afundou com seu navio no mar da Irlanda. Noite detrs noite, enquanto viveu, e muito tempo depois, aproximava-se dos escarpados e chorava por ele.

-Deveria escrever, como Max -murmurou Megan, surpreendida e molesta por sentir calafrios.

-OH, inventa cada histria -interveio Julie, lhes servindo duas cervejas e um refresco-. Dava-me a lata me falando das viagens que ia fazer e dos stios que ia conhecer. Bom, suponho que j os viu, no, capito?

-Suponho que sim -disse Nathaniel, dando um gole de cerveja-. Mas nunca me esqueci que ti, carinho.

Julie se ps-se a rir e deu ao Nate um murro no ombro.

- um donjun -disse e se foi.

Megan ficou olhando sua jarra de cerveja.

-No nos perguntou o que queremos.

-Trar-nos o que ela queira. Porque lhe caio bem. Mas se no querer cerveja, posso lhe dizer que te traga outra coisa.

-No, est bem. Suponho que conhece muita gente da ilha.

-A alguma, faz muito tempo que fui.

-Nate deu a volta ao mundo. Duas vezes -disse Kevin, bebendo seu refresco com uma pajita-. cruzou furaces e tufes e tudo.

-Tem que ter sido emocionante.

-s vezes.

-O sente falta de?

	-naveguei no navio de outro durante quinze anos, agora tenho meu prprio navio. As coisas trocam -disse Nathaniel, apoiando o brao no respaldo da cadeira do lado-. Me alegro de que tenham vindo a viver aqui. 

-Ns gostamos -disse Kevin-. O chefe de mame no Oklahoma era um idiota.

-Kevin.

-Dizia-o o av. E no lhe caa bem.

Megan sorriu.

-O av exagerava -disse-. Mas sim, ns gostamos de estar aqui.

-Tomem -disse Julie lhes servindo o jantar, e deixou trs enormes pratos sobre a mesa cheios de ostras e um de batatas fritas.

-A esta garota faz falta comer -disse Julie-. E ao menino tambm. No sabia que voc gostasse de magras, capito.

-Eu gosto de qualquer modo sempre que puder as conseguir -disse Nathaniel.

Julie voltou a rir a gargalhadas.

-No vamos poder comer tanto -disse Megan.

Nathaniel j tinha comeado.

-claro que sim. Ento, ainda no comeaste com o livro do Fergus?

-No -disse Megan e deu o primeiro bocado. A pesar do lugar, a comida era deliciosa-. Antes quero conhecer a situao atual. Como a contabilidade das excurses era o que pior estava, comecei com ela. Mas fica o segundo trimestre e a contabilidade do hotel.

-Sua me  uma mulher muito prtica, Kevin.

-J sei. O av diz que tem que sair mais.

-Kevin.

Nathaniel sorriu.

-De verdade? -disse-. Que mais diz seu av?

-Que tem que viver um pouco -disse Kevin, atacando as batatas fritas com a determinao de um menino, que  muito jovem e no pode encerrar-se como uma monja.

-Seu av  muito preparado.

-OH, sim. Sabe tudo. Tem azeite no sangue e pssaros na cabea.

- o que diz minha me -disse Megan-. Ela tambm sabe tudo. Mas me estava perguntando pelo livro do Fergus.

-Perguntava-me se tambm despertou sua curiosidade.

-Pois sim. pensei em lhe dedicar uma hora cada noite para estud-lo.

-No acredito que quando seu pai diz que tem que viver um pouco se refira a isso.

-Mas -disse Megan voltando para tema mais seguro do livro do Fergus-, algumas pginas esto em mal estado, mas, alm de alguns enganos, as contas so exatas e detalhadas. Exceto nas duas ltimas pginas, que solo tm cifras sem lgica.

-No quadram?

-Parece que no, mas tenho que comprov-lo com detalhe.

-Algumas vezes te perde mais por olhar muito ao detalhe -disse Nathaniel, e piscou os olhos um olho a Julie quando esta trouxe outra ronda de bebidas-. No me importaria lhe jogar uma olhada.

Megan franziu o cenho.

-por que?

-Por que eu gosto dos quebra-cabeas.

-No acredito que seja um quebra-cabeas, mas se  famlia no importa, no tenho nenhuma objeo -disse Megan-. Bom, sinto muito, mas j no posso comer mais.

-No importa -disse Nathaniel, trocando seu prato vazio com o do Megan-. Eu sim.



Para surpresa do Megan, assim foi. No era uma surpresa que Kevin deixasse o prato limpo, estava crescendo e precisava comer, mas Nathaniel comeu prato e mdio sem pestanejar.

-Sempre comeste assim? -perguntou-lhe Megan uma vez no carro.

-No. Embora sempre quis. Quando era menino nunca me sentia cheio -provavelmente porque no havia bastante comida-. No mar, aprende a comer algo, e em grandes quantidades.

-Teria que pesar cem quilogramas.

-Alguma gente queima o que come -disse Nate, olhando ao Megan aos olhos-. Como voc. Toda essa energia nervosa consome suas calorias.

-No estou to magra.

-No, mas  o que eu pensava at que te abracei.  muito suave quando te aperta contra um homem.

Megan lhe indicou que se calasse e olhou para o assento traseiro.

-dormiu-se assim que arrancamos -disse Nathaniel. Efetivamente, Kevin estava jogado no assento, com a cabea apoiada nos braos e dormindo-. Embora no sei que dano pode lhe fazer saber que um homem se interessa por sua me.

- um menino -disse Megan-. No quero que pense que sou...

-Humana?

-No  teu assunto.  meu filho.

-Sim, e o educaste muito bem -disse Nathaniel.

Megan o olhou com cautela.

-Obrigado.

-No me d isso.  um fato.  difcil educar a um menino, e mais se estiver sozinha. Voc o tem feito muito bem.

Era impossvel zangar-se com ele, sobre tudo recordando o que Coco lhe tinha contado dele.

-Perdeu a sua me quando foi pequeno... H-me isso dito Coco.

-Vejo que Coco h dito muitas coisas.

-No pretendia fazer nada mau, j sabe como , preocupa-se muito pela gente e quer v-los...

-Alinhados de dois em dois? Sim, conheo-a. Trouxe-te aqui para mim.

-Que h... Isso  ridculo?

-Sim, quase tem umas datas previstas.

- uma sorte que esteja avisado -disse Megan com indignao.

-Pois sim. Leva meses cantando seus louvores. E a verdade  que quase supera sua prpria publicidade.

Megan o olhou e lhe fez um gesto de que se calasse. Seu sorriso, e a situao, transformaram sua indignao em alegria.

-Obrigado -disse, estirando as pernas, decidida a relaxar-se-. Odiaria te decepcionar. Ho-me dito que  misterioso, romntico e encantador.


-Quase supera sua prpria publicidade -disse Megan.

-Nenm... -replicou Nate, tomando sua mo e beijando-a-, posso ser muito melhor.

-Seguro que pode -disse Megan apartando a mo, querendo evitar o estremecimento que o beijo lhe causou-. Se no me casse to bem, estaria molesta, mas  to amvel.

-Tem um grande corao. Quando era pequeno, pensava que eu gostaria que fora minha me.

antes de poder resisti-lo, Megan lhe acariciou uma mo.

-Tem que ter sido muito duro perder a sua me sendo menino.


-No importa, foi faz muito tempo -disse Nate, e fez uma pausa-. Lembro-me de quando via coco no povo, ou em Las Torres, era uma mulher esplndida, parecia uma rainha, e nunca se sabia de que cor ia ter o cabelo  semana seguinte.

-Hoje o deixa castanho -disse Megan. Nate se no.

-A primeira mulher da que me apaixonei. Veio a casa um par de vezes, a lhe ler a cartilha a meu pai porque bebia muito. Suponho que pensava que se estivesse sbrio no me pegaria -disse Nate, e olhou ao Megan aos olhos-. Suponho que tambm lhe h isso dito.

-Sim -disse Megan, e apartou o olhar-. Sinto muito, Nathaniel. dio que a gente fale de mim, por muito boas intenes que tenha. Parece-me algo muito ntimo.

-Eu no sou to sensvel. Todo mundo sabe como era meu pai -disse Nate, que recordava muito bem os olhares de compaixo, os comentrios-. Ento me incomodava, mas j no.

-As visitas de Coco... serviram de algo?

Nate guardou silncio uns instantes, com a vista fixa na estrada.

-Meu pai lhe tinha medo, assim, quando se ia, pegava-me mais forte que nunca.

-meu deus.

-Mas no quero que saiba.

-No -disse Megan, tragando saliva-, no lhe direi nada. Por isso foi, verdade? Para escapar dele.

-Era uma das razes -disse Nate e olhou ao Megan-. Se tivesse sabido que te comoveria tanto que me dessem uma torta de vez em quando, haveria-lhe isso dito antes.

-No  para rir -disse Megan com raiva-. No h desculpa para tratar assim a um menino.

-N, que j o superei.

Megan ficou olhando.

-deixaste que odi-lo?

-No -disse Nate-. Mas deixei que lhe dar importncia, e acredito que  o melhor.

Ao cabo de um momento, chegaram s Torres. Nate deteve o carro.

-Se algum te fizer muito dano, um dano permanente, a melhor vingana  que te importe o menos possvel.

Megan o olhou.

-Est falando do pai do Kevin, e no  o mesmo. Eu no era um menino indefeso.

-Depende de onde risque a linha -disse Nathaniel, e se desceu do carro-. Eu levarei ao Kevin.

-No tem por que -disse Megan apressando-se a levar a seu filho, mas Nate o sustentava j em seus braos.

Permaneceram ali de p uns momentos, nas ltimas luzes do dia, com o menino, que apoiava a cabea no ombro do Nathaniel, entre eles. Megan acariciou a seu filho.

-foi um dia muito comprido para ele.

-E para ti, Meg. Tem olheiras. Como certamente isso significa que ontem  noite dormiu to pouco como eu, me alegro das ver.

Era duro, pensou Megan, muito duro, manter-se firme frente a quo corrente a empurrava para ele.

-No estou preparada, Nathaniel.

-Algumas vezes se levanta um vento e nos leva. No est preparado, mas, se tiver sorte, acaba por te deixar em um stio muito melhor de que estava.

-Eu no gosto de depender da sorte.

-No importa, a mim sim -disse Nate, e levou a menino para a casa.

6




-No sei por que ter que armar tanto animao -resmungou O Holands, preparando uma nata para seu bolo especial surpresa.

-Trenton St. James II  membro da famlia.

Coco estava muito agitada desde que aquela manh ficasse a nata de pepinos, o que lhe fez atrasar todo seu horrio.

-E presidente dos hotis St. James -disse comprovando a temperatura do guisado de cordeiro-. E  a primeira vez que vem s Torres.  importante que tudo saia bem.

-Sim, um rico bastardo a ver os escravos que lhe esto fazendo mais rico.

-Senhor Vo Home! -exclamou Coco, que depois de seis meses, sabia que no devia surpreender-se pelo que dissesse aquele homem, mas...-. Conheo senhor St. James desde... bom, faz muitos anos. Pode lhe assegurar que  um homem de negcios com muito xito e um grande trabalhador, no um explorador.

O Holands deu um bufido e olhou a Coco. A verdade era que se ps muito bonita. Levava um vestido de seda cinza brilhante e delicado, que deixava ao descoberto grande parte de suas pernas, que no estavam nada mal. Tinha as bochechas rosadas, mas no era pelo calor da cozinha.

-O que acontece?  seu noivo?

O rosa das bochechas se converteu em vermelho vivo.

- obvio que no. Uma mulher de mi... experincia no tem noivos -disse Coco, e se olhou de esguelha na porta de vidro de um dos fornos-. Admiradores, possivelmente.

Admiradores! Ja!

-Ho-me dito que esteve casado quatro vezes e paga a suas ex-mulheres bastante dinheiro para equilibrar a dvida nacional. Quer ser a quinta?

Coco se levou a mo ao corao, no sabia o que dizer.

- voc... impossvel, grosseiro.

-N, que no me importa que queira pescar um peixe gordo.

Coco proferiu uma exclamao. Embora tinha temperamento, era, depois de tudo, uma mulher educada, mas no pde evitar equilibrar-se sobre aquele homem com a inteno de lhe cravar as unhas.

-No penso tolerar seus insultos!

-No? E o que vai fazer a respeito?

Coco ficou nas pontas dos ps, at que ficaram nariz com nariz.

-Despedirei-o.

-Rompe-me o corao. Adiante, preciosa, deme a patada e a ver como se as acerta com o jantar de esta noite.

-Asseguro-lhe que sairemos adiante -disse Coco, o corao lhe palpitava com tanta fora que pensava que ia saltar lhe do peito.

-E um corno -disse O Holands. Odiava o perfume de Coco, porque se o fazia a boca gua-. Quando cheguei aqui, quo nico sabiam era ferver a gua.

Coco no podia respirar.

-Esta cozinha no o necessita, senhor Vo Home. E eu tampouco. -Voc sim me necessita e muito. 	

Como tinha chegado a lhe pr as mos sobre os ombros? por que sentia seus seios apertando-se contra seu peito? Ao inferno contudo, terei que lhe dar seu castigo de uma vez por todas.

	Coco ps os olhos como pratos quando O Holands a beijou, de forma arrebatadora. Todo seu mundo, to seguro, tremeu sob seus ps. Por isso,  obvio, solo por isso, jogou os braos ao pescoo. 	

Daria-lhe uma bofetada, sem duvid-lo. 	

Mas logo. 			

Malditas mulheres, pensou O Holands. Malditas fossem todas as mulheres. Sobre tudo as altas, cheias de curvas e com lbios que sabiam A... a cerejas. Sempre tinha tido debilidade pelas cerejas.

Separou-a de si, mas seguiu agarrando seus ombros.

-vamos deixar algo claro...

-Como se atreve A... -disse Coco ao mesmo tempo.

Os dois se separaram como meninos culpados quando a porta da cozinha se abriu.

Megan ficou de pedra, boquiaberta, na soleira. No podia ter visto o que tinha visto. Coco estava comprovando o guisado e O Holands fazendo uma nata. No podiam estar... abraados. Mas aos dois lhes tinham subido as cores.

-Perdo -disse-. Sinto...

-OH, Megan, querida -disse Coco, aturdida e retocando o penteado. Estava tremendo, de vergonha, disse-se-. O que posso fazer por ti?

-S queria comprovar os gastos da cozinha contigo -disse Megan, que no deixava de olhar ao Holands e a Coco. A tenso era to forte que o ar se podia cortar com uma faca-. Mas se est ocupada, podemos faz-lo depois.

-Tolices -disse Coco, limpando o suor das mos no avental-. Solo um pouco frenticos preparando a chegada do Trenton.

-Trenton? OH, tinha-me esquecido. Chega o pai do Trent -disse Megan, e comeou a retroceder-. Ento no  necessrio que...

-No, no -"OH, Deus", pensou Coco, "no me deixe"-.  a ocasio perfeita. Aqui tudo est sob controle. Vamos a seu escritrio se quiser -disse tomando ao Megan do brao-. O senhor Vo Home pode ocupar-se de tudo.

Saram ao corredor. Coco se agarrava ao Megan como a um salva-vidas em meio de uma tormenta.

-Detalhes, detalhe -dizia-. quanto mais te ocupa deles, mais aparecem.

-Coco, est bem?

-OH,  obvio -disse Coco, mas sustentou uma mo sobre seu corao-. Solo tive um pequeno contratempo com o senhor Vo Home, mas no passa nada. Como vo suas contas, querida? Espero que encontre tempo para te ocupar do livro do Fergus.

-Pois j hei...

-No queremos que trabalhe muito -disse Coco. Dava-lhe voltas a cabea, de modo que no escutava uma palavra do que lhe dizia Megan-. Queremos que te encontre a gosto nesta casa, que desfrute, que descanse. depois do agitado que foi o ano passado, todos queremos nos tranqilizar e descansar. No acredito que possamos suportar mais crise...

-Que no tenho reserva?  um escndalo!

Coco se deteve em seco, e o rosa de suas bochechas se transformou em branco ao escutar aquela voz irada.

-meu deus, no, no pode ser.

-Coco? -disse Megan apertando o brao de seu amiga. Estava tremendo, e se perguntou se poderia sustent-la se se deprimia.

-Jovencito -disse a mesma voz, cada vez mais alto-. Sabe quem sou eu?

-A tia Colleen -sussurrou Coco, suspirou profundamente e se encaminhou, armada de valor, ao vestbulo.

-Tia Colleen! -disse com um tom completamente distinto-. Que surpresa!

-No me diga que te alegra de lombriga -disse Colleen, aceitando o beijo de sua sobrinha. Era uma anci alta, magra e formidvel. Levava um vestido de seda de cor crua e um colar de prolas to brancas como seus cabelos-. J vejo que enchestes isto de estranhos. Teria sido melhor queim-lo. lhe diga a este insolente que subida minhas malas.

-Claro -disse Coco, chamando um botes-. Na asa da famlia, segundo andar, primeira habitao  direita.

-E no lhe d nenhum golpe s malas, jovem -disse Colleen, dando uns golpes no cho com sua fortificao dourado-. Quem  esta? -perguntou, refirindose ao Megan.

-lembra-se do Megan, tia Colleen, a irm do Sloan? Conheceu-a nas bodas da Amanda.

-Sim, sim -disse a tia Colleen sem deixar de olhar ao Megan-. Tem um filho, no?

Em realidade, sabia tudo o que fazia falta saber respeito ao Kevin.

-Sim. Me alegro de v-la, senhora Calhoun.

-Pois deve ser a nica -disse a tia Colleen, e ignorando s duas, aproximou-se do retrato da Bianca e estudou as esmeraldas que brilhavam na urna. Suspirou, mas to silenciosamente que ningum a ouviu.

-Necessito um conhaque, Cordelia, antes de ver o que tm feito com este stio.

-Claro. Agora mesmo vamos  asa da famlia. Megan, por favor, te una a ns.

Era impossvel negar-se. Coco o suplicava com o olhar.



Momentos depois chegaram ao salo da famlia. Naquele lugar, o papel das paredes estava descolorido, quebrado em alguns stios. Havia marcas no cho, em frente da chamin, nos lugares onde tinha saltado alguma fasca.

-Vejo que aqui nada trocou -disse Colleen, sentada em uma cadeira como uma rainha.

-Concentramo-nos no hotel -disse Coco, servindo o conhaque. Estava nervosa e falava atropeladamente-. Agora que est terminado, comeamos com a reforma da casa. tiramos duas habitaes e construdo uma habitao de jogos.

-Mmm.

A tia Colleen tinha ido, especificamente, a ver os meninos e, solo de modo acessrio, a voltar louca a Coco.

-Onde esto todos? vim a ver minha famlia e s me encontro com estranhos.

-J chegaro. Esta noite temos um jantar familiar, tia Colleen -disse Coco, esforando-se por manter seu brilhante sorriso-. O pai do Trent veio para ficar conosco uns dias.

- um playboy -resmungou tia Colleen-. Voc -disse assinalando ao Megan-,  contvel, no?

-Sim.

-Megan  uma maga com os nmeros -disse Coco-. Alegramo-nos muito de que esteja aqui. E de que esteja Kevin,  obvio.  um menino encantador.

-Estou falando com a garota, Cordelia. Vete  cozinha a fazer suas coisas.

-Mas...

-Vete, vete.

Coco, dirigindo ao Megan um olhar de desculpa, partiu.

-O menino vai fazer nove anos, verdade?

-Sim, dentro de dois meses -disse Megan, preparando-se para algum comentrio cido sobre sua ascendncia.

Colleen assentiu, dando golpecitos com os dedos nos braos da cadeira.

-leva-se muito bem com os meninos da Suzanna, verdade?

-Muito bem, no se separaram desde que chegamos -disse Megan, fazendo esforos por no gritar-. foi maravilhoso para ele, e para mim.

-Dumont te incomodou?

Megan piscou.

-Perdo?

-No te faa a parva. Perguntei-te se esse descarado te incomodou.

Megan ficou rgida como um pau.

-No. No o vi nem ouvi falar dele desde que nasceu Kevin.

-J ouvir falar dele -disse Colleen, franzindo o cenho e inclinando-se para diante-. esteve fazendo perguntas.

Megan apertou a taa de conhaque.

-Como sabe?

-Porque aguo o ouvido quando se trata da famlia -disse Colleen, esperando alguma reao, que no se produziu-. Vieste-te a viver aqui, verdade? Seu filho foi aceito igual a se fosse irmo do Alex ou Jenny, ou do Christian.

Megan tinha um n no estmago.

-Isso no tem nada que ver com ele.

-No seja tola. Um homem como Dumont pensa que o mundo se move a seu redor. Est metido em poltica, filha, e em vista de como anda esse circo, umas palavras bem escolhidas por ti frente  imprensa... -disse Colleen com um sorriso-. Bom, seu caminho a Washington se converteria em uma costa muito levantada.

-No tenho inteno de ir  imprensa, nem de expor ao Kevin  ateno pblica.

-Uma deciso muito sbia -disse Colleen, dando outro gole de conhaque-.  uma pena, mas  uma deciso muito sbia. Se tentar algo, diga-me isso Eu gostaria de lombriga as com ele outra vez.

-me posso arrumar isso por mim mesma.

-Talvez -disse Colleen.



-E por que tenho que me pr gravata? -disse Kevin, enquanto Megan tratava de lhe fazer o n. Estava geada desde sua conversao com tia Colleen.

-Porque  um jantar especial e tem que estar muito bonito.

-As gravatas so uma tolice. Seguro que Alex no tem que ficar a 

-No sei o que vai ficar Alex -disse Megan, a quem lhe esgotava a pacincia-, mas voc tem que fazer o que te digo.

-Preferiria comer uma pizza.

-Pois no h pizza. Maldita seja, Kevin, estate quieto!

-Faz-me mal.

-Se no te movesse... -disse Megan e se tirou o cabelo da cara de um sopro-. J est, est muito bonito.

-Pareo um menino tolo.

-Muito bem, parece um parvo. Agora te ponha os sapatos.

Kevin franziu o cenho.

-Eu no gosto destes sapatos. Quero levar minhas botas.

Megan, exasperada, ficou em cuclillas e olhou a seu filho aos olhos.

-Jovencito, vais pr te esses sapatos e no me vais levantar a voz, ouviste-me?

Megan saiu da habitao do Kevin e se dirigiu  sua, que estava em frente. Tirou a escova de uma gaveta e comeou a pentear-se. Tampouco ela queria baixar  maldito jantar. A aspirina que se tomou uma hora antes para acalmar a dor de cabea no lhe tinha feito efeito. Mas tinha que exibir seu melhor sorriso e baixar para jantar, fingir que no estava preocupada com o que pudesse fazer Baxter Dumont.

Mas, talvez, Colleen estava equivocada, pensou. depois de tudo, tinham passado quase dez anos. por que ia Baxter a incomod-la depois de tanto tempo?

Porque queria chegar a senador dos Estados Unidos. Fechou os olhos. Tinha-o lido no peridico. Baxter tinha comeado sua campanha para o cargo e um filho ilegtimo, embora nunca reconhecido, no encaixava com a idia de homem honesto que queria dar ao eleitorado.

-Mame.

Viu o reflexo do Kevin no espelho. ps-se os sapatos e tinha a cabea agachada. Megan se sentiu culpado.

-me diga.

-por que est zangada?

-No estou zangada -disse Megan, e se sentou ao bordo da cama-. Solo me di um pouco a cabea. Oua, est muito bonito -disse, lhe dando um beijo na frente-. vamos baixar. Seguro que Alex e Jenny chegaram j.



Efetivamente, tinham chegado. Alex estava to aborrecido com sua gravata como Kevin com a sua. Mas a excitao era muito grande como para que aquela preocupao lhes durasse muito. Havia canaps que comer, meninos com os que jogar e aventuras que planejar.

Todo mundo, naturalmente, estava falando de uma vez.

O rudo da habitao era muito molesto para o Megan. Aceitou a taa de champanha que Trenton II lhe ofereceu e fez quanto pde para fingir interesse ante seu intento de flerte. Era alto e muito arrumado, estava moreno e era encantador. E Megan se alegrou imensamente de que dedicasse suas cuidados a Coco.

-Fazem um bonito casal, verdade? -murmurou-lhe Nate ao ouvido.

-Fantstica -disse Megan, mastigando uma parte de queijo.

-Parece-me que no lhe est acontecendo isso muito bem.

-No, estou bem -disse Megan, e trocou de tema-. Pode que esteja interessado em algo que acredito ter visto esta tarde.

-O que? -perguntou Nate.

Megan o conduziu a terrao.

-Coco e O Holands.

-Outra vez discutindo? atiraram-se as caarolas?

-No exatamente -disse Megan respirando profundamente, com a esperana de que servisse para limp-la um pouco. Estavam... pelo menos isso  o que me pareceu...

Nathaniel fez uma careta de assombro. Compreendia sem necessidade de mais palavras.

- uma brincadeira.

-No. Estavam nariz com nariz, o um em braos do outro -disse Megan, e sorriu-. Ante minha inesperada e inoportuna entrada, separaram-se como se estivessem planejando um assassinato. E os dois ficaram vermelhos como um tomate. Os dois.

-O Holands vermelho como um tomate? -disse Nathaniel, tornando-se a rir-. Santo Deus.

-me parece muito tenro.

Nathaniel olhou ao interior. Viu coco rendo-se por algo que lhe dizia Trenton.

-Est fora de seu alcance. Romper-lhe o corao.

-Que tolice -disse Megan, que seguia sem relaxar-se-. No amor no contam as diferenas sociais.

-O Holands e Coco -disse Nate, pensativo. Eram duas das poucas pessoas no mundo a quem queria-. Est segura, nenm?

-No quero dizer nada -disse Megan-, exceto se sentem atrados. E deixa de me chamar nenm.

-Bom, bom -disse Nate, e olhou ao Megan-. O que te ocorre?

Megan tinha a mo na tmpora, e a esfregava.

-Nada.

Nate, agarrou-a pelos cotovelos e a ps frente a sim, olhando-a aos olhos.

-Dor de cabea, n? Di-te muito?

-No, ... Sim.

-Est muito tensa -disse Nate, e comeou a lhe dar uma massagem nos ombros-. Duros como pedras.

-No me...

- puramente teraputico -disse Nate, prosseguindo com a massagem-. Se obtivermos algum prazer disso, ser puramente casual. Sempre tiveste dores de cabea?

Os dedos do Nate eram fortes, masculinos, mgicos. Era impossvel no relaxar-se.

-No, no  normal.

-Muito estresse -disse Nate e lhe acariciou as tmporas com os polegares. Megan fechou os olhos com prazer-. Reprime-te muito, Meg, e seu corpo o paga. Date a volta, deixa que te faa uma massagem nos ombros.

-No... -disse Megan, mas se interrompeu ao sentir os dedos do Nate.

-Tranqila. Faz uma noite preciosa, verdade? Lua enche, luzem lis estrela. Alguma vez foste dar um passeio pelos escarpados  luz da lua?

-No.

-H flores silvestres que nascem nas gretas das rochas e se oua romper as ondas contra os escarpados.  fcil imaginar aos fantasmas que tanto gostam ao Kevin. Alguma gente pensa que  um lugar solitrio, mas no o .

Sua voz e suas mos eram muito sedutoras. Megan desejava acreditar que no havia nada que temer.

-Suzanna tem um quadro dos escarpados  luz da lua -disse Megan, tratando de concentrar-se na conversao.

- do Christian Bradford, gostava de muito esse lugar. Mas no h nada como v-lo em vivo. Podemos ir jantar.

-No  esta a ocasio para tontear com a garota.

Era Colleen. Sua voz cortou o ar da tarde.

Embora Megan voltou a ficar tensa, Nate deixou as mos onde estavam e sorriu.

-me parece uma ocasio perfeita, senhora Calhoun.

-Ja! Que descarado -disse Colleen, nada gostava mais que um arrumado descarado-. Sempre foi, lembro-me de quando brincava de correr pelo povo. Parece que o mar te converteu em um homem. Deixa de lhe dar larga, filha, no vai permitir que te escape. Se tiver sorte.

Nathaniel beijou ao Megan no cocuruto.

- um pouco tmida.

-Bom, ter que super-lo. Acredito que Cordelia vai dar o jantar. Quero que sente a meu lado, para falar de navios.

-Ser um prazer.

-E lhe traga isso vivi em cruzeiros a metade de minha vida -disse Colleen-. Arrumado a que vi mais mar que voc, moo.

-No o duvido -disse Nathaniel, levando ao Megan pelos ombros e oferecendo o brao ao Colleen-. Com uma larga lista de coraes quebrados em sua esteira.

Colleen riu.

-E que o diga.

O comilo estava cheio com os aromas da comida, as flores e a cera das velas. Uma vez que estiveram todos sentados, Trenton II se levantou para brindar.

-Eu gostaria de fazer um brinde -disse com uma voz to elegante como seu traje de etiqueta-. Pela Cordelia, uma mulher de qualidades extraordinrias.

Chocaram as taas. De uma posio escondida, O Holands grunhiu, deu meia volta e voltou para a cozinha.

-Trent -sussurrou-lhe C. C. a seu marido-. Sabe que te quero.

Trent sabia o que ia a seguir.

-Sim, sei.

-E adoro a seu pai.

-Mmm...

-Mas se puser os olhos em tia Coco, o vou matar.

-J sei -disse Trent sonriendo, e comeou a comer.

Ao outro extremo da mesa, ignorando aquela ameaa, Trent se dirigiu ao Colleen.

-O que lhe parece o hotel, senhora Calhoun?

-Eu no gosto dos hotis, nunca os uso.

-Tia Colleen -disse Coco-, os hotis St. James so famosos por seu luxo e bom gosto.

-No posso suport-los -disse Colleen tranqilamente, e provou a sopa-. O que  isto?

-Sopa de ostras, tia Colleen.

-Faz-lhe falta sal -disse, e logo assinalou ao Kevin-. No agache tanto a cabea, moo. Quer que os ossos lhe cresam torcidos?

-No, senhora.

-O que quer ser de maior?

Kevin levantou a vista, e sentiu um grande alvio quando sua me apoiou uma mo sobre a sua.

-Marinheiro -disse-. conduzi o Mariner.

-Ja! -disse Colleen, agradada-. Me alegro por ti. Em minha famlia no quero a nenhum preguioso. te coma toda a sopa e pode que chegue a ser marinheiro.



-Segue igual a sempre -disse Lilah, sentada em uma cadeira de balano enquanto dava de mamar a Bianca. O silncio reinava na casa, que tinha as luzes apagadas. Estava no dormitrio dos meninos. Megan estava a seu lado, parecia-lhe a melhor maneira de escapar do Nate.

-... -disse Megan, procurando uma frase diplomtica- toda uma dama.

- uma velha suscetvel -disse Lilah-. Mas a quero.

Amanda, desde outra cadeira de balano, suspirou.

-Assim que se inteire da existncia do livro do Fergus -disse-, no te vai deixar em paz.

-Te vai acossar -disse C. C., que embalava ao Ethan.

-Te vai perseguir -concluiu Suzanna, trocando os fraldas de seu filho.

-Sonha prometedor.

-No se preocupe -disse Suzanna-. Estamos contigo.

-Estamos contigo -disse Lilah-, mas no te vai deixar em paz.

-Quanto ao livro -disse Megan-. Fiz cpias de algumas pginas porque pensei que poderiam lhes interessar. Fez muitas notas sobre negcios, assuntos pessoais, compras. Tambm faz inventrio das jias da Bianca, suponho que para o seguro.

-As esmeraldas? -disse Amanda-. E pensar nas horas que nos passamos folheando papis, tratando de encontrar uma prova de que existiam.

-Tambm h outras peas, valoradas em centenas de milhares de dlares, de 1913.

-Vendeu-o quase tudo -murmurou C. C.-. encontramos os documentos de venda. desfez-se de tudo o que pertencia a Bianca.

-Ainda di -disse Lilah-. No o dinheiro, embora Deus sabe que o teramos usado bem. O que me incomoda  ter perdido tudo o que lhe pertencia, e que no poderemos lhe legar a nossos filhos.

-Sinto muito.

-No se preocupe -disse Amanda, levantando-se para deixar a Delia em seu bero-. Somos muito sentimentais. Suponho que todos nos sentimos muito perto da Bianca.

-Compreendo-te -disse Megan, embora lhe parecia estranho admiti-lo-. Eu tambm o sinto. Suponho que foi por ver referncias a ela no livro e seu retrato no vestbulo -disse, e sorriu, algo confusa-. Algumas vezes, de noite, d a sensao de que est aqui.

- obvio -disse Lilah-, porque est aqui.

-me perdoem, senhoras -disse Nathaniel, entrando na habitao. Parecia cmodo entre meninos e mes.

Lilah sorriu lentamente.

-Ol, bonito. O que te traz por aqui?

-vim a procurar a minha garota -disse e se aproximou do Megan, tomando-a do brao.

-Como que sua garota?

-ficamos para ir dar um passeio.

-Eu no hei dito que...

-Faz uma noite fantstica -disse Suzanna, embalando a seu filho.

-Tenho que levar ao Kevin  cama.

-Eu o levei j -disse Nathaniel levando-lhe -Agora vou -disse Suzanna, mas esperou a que Megan e Nate sassem para dirigir-se a suas irms-. O que lhes parece?

-Que levaste ao Kevin  cama?

-ficou-se dormido em meus joelhos, assim que me pareceu o normal. Ah, Suzanna, Holt diz que podem ir quando quiser.

-Agora vou -disse Suzanna, mas esperou a que Megan e Nate sassem para dirigir-se a suas irms-. O que lhes parece?

Amanda sorriu.

-Acredito que funciona  perfeio -disse.

-Estou de acordo -disse C. C. deixando ao Ethan em seu bero-. Acreditava que Lilah tinha perdido a cabea quando lhe ocorreu unir a esses dois.

Lilah bocejou.

-Nunca me equivoco -disse e sorriu-. Arrumado a que podemos v-los da janela.

-espi-los? -disse Amanda-. Boa idia.



Sua silhueta se recortava no jardim, iluminado pela luz da lua.

-Est complicando as coisas, Nathaniel.

-as simplificando -corrigiu Nate-. No h nada mais singelo que um passeio  luz da lua.

-Mas voc no espera que todo fique nisto.

-No. Mas seguimos indo a seu ritmo, Meg -disse Nate, e se levou a mo do Megan aos lbios; Logo comearam a subir pela colina-. Preciso estar contigo.  um chateio, mas no posso evit-lo, assim que me hei dito, por que no, em vez de lutar contra isso, deixar-se levar?

-No sou uma mulher singela -disse Megan. Oxal pudesse s-lo, embora s fora por aquela noite-. Tenho lembranas, e rancores e inseguranas. Nem sequer me tinha dado conta de que estavam a at que te conheci, mas no quero que voltem a me fazer danifico.

-Ningum vai fazer te danifico -disse Nate, e lhe ps um brao sobre os ombros-. Olhe que grande est a lua. V Vnus e a pequena estrela que o guia? E Orin, v-o? -disse tomando a mo do Megan e riscando as estrelas como tinha esboado a travessia sobre a carta marinha.

-Sim.

Megan observou suas mos unidas, riscando caminhos nas estrelas enquanto a brisa subia desde mar e movia as flores que cresciam nas rochas.

Romntico, misterioso, havia dito Coco. E o era, e Megan se deu conta de que era muito mais sensvel a aquelas qualidades do que ela tinha suspeitado.

Sentia seu quente e forte corpo contra ela. Seu sangue pulsava a toda velocidade.

sentia-se viva. O vento, o mar e o homem que tinha a seu lado, faziam-na sentir-se muito viva.

E talvez houvesse algo mais: os fantasmas dos Calhoun. As colinas pareciam convidar aos espritos a caminhar enchendo o ar de um amor que duraria para sempre.

-Escuta -disse Nate com um murmrio-. Fecha os olhos e escuta, e poder ouvir como respiram as estrelas.

Megan obedeceu e escutou o sussurro do ar, e o de seu prprio corao.

-por que me faz sentir assim?

-No tenho resposta. No todo resolve com a lgica -disse Nate, e como precisava ver o rosto do Megan, fez que girasse a cabea-. Que tal a dor de cabea?

-J no me di, quase.

-No, no abra os olhos -disse Nate e, brandamente, beijou-a nos olhos, e logo em todo o rosto-. Me beije voc.

Como podia no faz-lo, pensou Megan, quando a boca do Nate era to tentadora? rendeu-se e se deixou levar por seu corao. Solo aquela noite, disse-se.

Aquela ligeira mudana quase desfez ao Nate. Megan tremia entre seus braos, suplicante, e seus beijos, vacilantes, excitavam-no. Custou-lhe toda sua fora de vontade no atirar dela e estreit-la entre seus braos.

Sabia que ela no resistiria. Possivelmente, desde o comeo, sabia que o enfeitio daquelas colinas se apoderaria deles, seduziria-os.., e lhe recordaria que devia cuidar dela.

-Desejo-te, Megan -disse, e a beijou no pescoo-. Desejo-te tanto que me di.

-Sei. Oxal... -disse Megan, apoiando a cabea no ombro do Nate-. No estou jogando, Nathaniel.

-Sei -disse Nate, acariciando o cabelo ao Megan-. Seria mais fcil se assim fora, porque eu conheo todas as regras. E como as romper -disse Nate suspirando, e a beijou-. Esses olhos teus o fazem muito difcil para ti -disse, e retrocedeu-. Acredito que ser melhor que acompanhe a casa.

-Nathaniel -disse Megan, apoiando uma mo sobre o peito do Nate-.  o primeiro homem que me tem feito... com o que quis estar desde que nasceu Kevin.

Algo brilhou nos olhos do Nate, algo selvagem e perigoso.

-E crie que saber isso me pe isso mais fcil? -disse-. Megan, est-me matando -acrescentou a ponto de estalar.

-No sei o que fazer -disse Megan com a respirao entrecortada-. Nunca passei por esta situao.

-Segue assim -disse Nate-, e vamos acabar na cama esta mesma noite.

Megan se estremeceu, mas se sentiu culpado.

-S quero ser sincera.

-Pois tenta mentir, para que me seja mais fcil.

-Sei mentir, mas no me parece honesto no te dizer o que sinto.

Voltaram caminhando para As Torres e ouviram os gritos antes de chegar ao jardim.

-Coco -disse Megan.

-E O Holands -disse Nathaniel, e apertando a mo do Megan, acelerou o passo.

-Isso  insultante e asqueroso -exclamava Coco, tinha os braos em jarras e olhava ao Holands com orgulho.

O Holands tinha os braos cruzados. Uns braos enormes sobre um corpo enorme.

-Velo que vi e hei dito o que hei dito.

-Eu no estava pega ao Trenton como uma... como uma...

-Como um marisco -disse O Holands com desprezo-. Como um marisco  quilha de um iate.

-Estvamos danando.

-Ja! Isso  o que voc diz. Eu o chamaria de outra forma. Onde eu venho o chamam...

-Holands! -exclamou Nathaniel.

-Tinha que fazer uma cena -disse Coco, mortificada, alisando-a saia do vestido.

- voc a que estava fazendo uma cena, com esse tipejo magricela. Mas claro, como  rico, h tonteado o que quiseste.

-Tonteado? -disse Coco, enfurecida-. Eu no hei tonteado em minha vida. Senhor,  voc desprezvel.

-Eu lhe ensinarei o que  ser desprezvel, senhora.

-Calem de uma vez! -disse Nathaniel, interpondo-se entre eles.

-Holands, que demnios te passa? Est bbado?

-Um par de taas de rum nunca me tm feito nenhum dano -disse O Holands, olhando ao Nathaniel com aborrecimento-. A culpa a tem ela. No te meta nisto, moo, ainda tenho um par de coisas que dizer.

-No, j terminaste -disse Nate.

-No lhes metam nisto -disse Coco. Estava sufocada, mas sua atitude era digna como a de uma rainha-. Prefiro arrumar isto a ss com ele.

Megan lhe agarrou o brao com suavidade.

-Coco, no crie que deveria entrar?

-No -disse Coco com tranqilidade-. Agora, querida, parte. O senhor Vo Home e eu preferimos falar disto a ss.

-Mas...

-Nathaniel -disse Coco-, te leve ao Megan.

-Sim, senhora.

Nathaniel conduziu ao Megan s portas da terrao.

-Est seguro de que podemos deix-los sozinhos?

-Quer te colocar em meio disso?

Megan voltou a olhar ao lugar onde acontecia a cena.

-No, parece-me que no -disse.

-Bom, senhor Vo Home -disse Coco quando se assegurou de que voltavam a estar sozinhos-. Tem algo mais que dizer?

-Muitas coisas -disse O Holands, preparando-se para a batalha-. Lhe diga a esse ricachn que no volte a te tocar.

-E se no querer?

O Holands uivou como um lobo desafiando a seu casal, pensou Coco.

-Romperei-lhe os braos.

OH, Meu deus, disse-se Coco, OH, Meu deus.

-De verdade?

-me ponha a prova -disse O Holands sacudindo a Coco, que se deixou estreitar entre seus braos.

Aquela vez, Coco estava preparada para o beijo e deixou que acontecesse. Quando se separaram, os dois estavam sem flego e assombrados.

Algumas vezes, disse-se Coco, era a mulher a que tinha que dar o primeiro passo. De modo que se umedeceu os lbios e tragou saliva.

-Minha habitao est no segundo andar.

-Sei muito bem onde est -disse O Holands com meia sorriso-. A minha est mais perto -disse, e estreitou a Coco entre seus braos. Igual a um pirata a seu prisioneira, pensou Coco com prazer.

- uma mulher preciosa, Coco.

Coco se levou a mo ao corao.

-OH, Niels!

7





Megan no estava acostumado a sonhar acordada. Anos de disciplina lhe tinham ensinado que solo podia sonhar enquanto dormia, no em manhs chuvosas como aquela, com a nvoa rodeando a casa e os cristais das janelas molhados. Tinha o ordenador aceso e o queixo apoiado na mo, enquanto no deixava de recordar, como em dias anteriores, um passeio  luz da lua, entre flores silvestres e com o rumor do mar de fundo.

Uma e outra vez, pensava naquela noite, mas tratava de recorrer  lgica. No podia, e pensava que no devia, esquecer que a nica relao amorosa de sua vida tinha sido uma iluso, uma mentira que tinha servido para trair sua inocncia, seus sentimentos e seu futuro. acreditou-se imune, at conhecer o Nathaniel.

O que devia fazer depois de que sua vida tivesse tomado um giro to desesperado? depois de tudo, j no era uma menina que acreditasse em promessas ou que necessitasse palavras de flego. Sabia quais eram suas necessidades, mas podia as satisfazer sem ver-se ferida?

Quanto desejava que seu corao no se viu comprometido. Quanto desejava ser inteligente, chicoteada e experimentada, para ser capaz de manter uma relao exclusivamente fsica.

por que no podia bastar a atrao e o afeto e o respeito? Seria uma equao to singela. Dois adultos, mais desejo, compreenso e paixo igual a prazer mtuo.

Que pena que uma frao escondida desprezasse uma soluo to singela.

-Megan.

-Mmm -disse levantando a cabea-. OH, no te tinha ouvido entrar.

Era Suzanna.

-Estava em outra parte -disse esta.

Megan tratou de ocultar seu embarao movendo papis daqui para l.

-Suponho que sim. Ser pela chuva.

-eu adoro -disse Suzanna-. E me passa quo mesmo a ti. Mas me temo que aos turistas no passa o mesmo.

-Ao Kevin a nvoa encantou, at que lhe hei dito que por ela no podia ir aos escarpados.

-E os planos de assalto do Alex e Jenny ao Fort Ou'Riley foram pospostos. Esto na habitao do Kevin, defendendo o planeta dos aliengenas.  maravilhoso v-los juntos.

-Sei, levam-se muito bem.

Suzanna sorriu.

-Que tal o trabalho? -perguntou.

-Vai bem. Amanda levou as contas muito ordenadamente, de modo que solo tenho que as passar a meu sistema contvel e as arquivar no ordenador.

- um grande alvio para ela que esteja aqui. Alguns dias tinha que fazer faturas enquanto falava por telefone ou dava de mamar a Delia.

Ante aquela imagem, Megan sorriu.

-Me imagino,  muito trabalhadora.

-E muito ordenada, o que mais odeia deste mundo  a desordem. Suponho que pode entend-lo.

-Sim, entendo-o -disse Megan, jogando com um lpis entre os dedos-. Estava preocupada com ter que vir aqui e trazer para o Kevin. Alm disso, temia que voc, Suzanna, no me recebesse bem. Temia dizer algo que te fizesse sentir incmoda.

-No  passado j todo aquilo, Megan?

-Para ti sim -disse Megan, deixando o lpis sobre a mesa-. Mas talvez seja um pouco mais duro quando se  a outra.

-Mas quem era a outra? Voc ou eu?

Megan negou com a cabea.

-No posso dizer que eu gostaria de voltar atrs e trocar as coisas, porque se o fizesse, no teria ao Kevin -disse, e olhou a Suzanna aos olhos-. Sei que considera o Kevin como um irmo para seus filhos e que o quer.

-Sim,  verdade.

-Quero que saiba que eu tambm considero a seus filhos como minha famlia e os quero.

Suzanna ps uma mo sobre a do Megan.

-Sei. Vinha, entre outras razes, a te pedir que deixasse que Kevin se viesse a casa. Alex e Jenny querem que o convidemos a comer.

-Parece-me bem.

-Outra coisa. Viu  tia Coco?

-S um momento, justo depois do caf da manh. Porqu?

-Estava cantando?

-Pois a verdade  que sim -disse Megan-. Parece-me que ultimamente canta muito.

-Faz um momento tambm estava cantando, e se ps seu melhor perfume -disse Suzanna, e se mordeu o lbio, incmoda-. Perguntava-me se o pai do Trent... voltou para Boston, assim pensei que no havia por que preocupar-se.  um homem encantador e o queremos muito, mas... casou-se quatro vezes e me parece que  um conquistador.

-J me dei conta -disse Megan, e depois de um pequeno debate sobre a intimidade das pessoas, esclareceu-se garganta-. Mas acredito que Coco no... no olhe nessa direo.

-No?

-O Holands -disse Megan.

Suzanna ficou de pedra.

-Como?

-Acredito que O Holands,y . ela...

-O Holands? Nosso Holands? Mas se sempre se est queixando dele e se mete com ele a menor oportunidade. Se se esto brigando continuamente Y... -disse, e se tampou a boca com a mo-. OH...

olharam-se aos olhos e logo puseram-se a rir.

Megan se disse que Suzanna era como uma irm para ela e se sentia muito bem naquela conversao familiar. depois de lhe contar que tinha visto coco e ao Holands abraados na cozinha, contou-lhe a cena da terrao.

-Saltavam fascas. Primeiro, pensei que foram se pegar, logo me dava conta de que se tratava mas bem de um ritual de emparelhamento.

-Um ritual de emparelhamento? Megan, crie que...?

-Suzanna, Coco no pra de cantar.

- verdade -disse Suzanna, sopesou a idia um momento e gostou-. Acredito que me vou deixar cair pela cozinha antes de ir, para comprovar como vai o ambiente.

-J me contar o que v.

- obvio -disse Suzanna e, sonriendo, dirigiu-se para a porta-. Suponho que foi a lua.

-Talvez -murmurou Megan-. Sim, a lua.

Suzanna a olhou.

-Nathaniel  todo um homem.

-Acreditava que estvamos falando do Holands.

-Estvamos falando de amor -disse Suzanna-. At mais tarde.

Megan franziu o cenho. To evidente era?



depois de passar o resto da manh e a primeira parte da tarde revisando as contas do hotel, Megan se deu a pequena recompensa de estudar durante uma hora o livro do Fergus. Desfrutou somando os custos das contas originadas pelos gastos do estbulo, dos carros de cavalos: Foi uma revelao ver o que custava um baile em Las Torres em 1913 e, lendo as notas  margem, compreender os motivos do Fergus.


Tudo os convites aceitos. Ningum se atreveu a declin-la. B. encarregou flores e discutimos.  muito ostentoso. Hei-lhe dito que uma mulher nunca deve discutir com seu marido. Levar esmeraldas, no prolas como ela queria. Quero que lhe ensine  sociedade meus gostos e meus interesses, e assim lhe recordo qual  seu lugar.


Seu lugar, pensou Megan sentindo lstima pela Bianca, teria estado junto ao Christian. Que triste era pensar que solo a morte os tinha unido.

No queria deixar-se levar por aquela sensao de pena, de modo que passou a examinar as ltimas pginas. Ali, os nmeros no tinham sentido. No havia notas de gastos, nem datas. O que eram aqueles nmeros? Valores, aes, o nmero de lotes de mercadorias?

Talvez, merecia a pena fazer uma visita  biblioteca pblica para ver se podia averiguar alguma informao sobre feitos acontecidos em 1913. De passagem, podia aproximar-se do porto para deixar a folha contvel correspondente a abril e recolher mais recibos.

E, talvez, toparia-se com o Nathaniel.



Era um prazer conduzir sob a gua. A lenta mas persistente chuva tinha  maioria dos turistas encerrados no interior de seus alojamentos ou desfrutando de atividades de interior. Alguns, entretanto, passeavam pelas ruas, olhando cristaleiras. O mar, na Baa do Francs, era de cor cinza, e os mastros dos navios enchiam o porto.

ouvia-se, de vez em quando, o som das sereias dos navios. As nuvens estavam muito baixas, e era como se a ilha inteira estivesse coberta por uma manta. sentiu-se tentada de seguir conduzindo, de seguir a sinuosa estrada que levava a Parque Nacional da Acadia ou a que bordeaba a costa.

por que no? Talvez o fizesse ao final do dia, uma vez finalizado o trabalho, e talvez convidasse ao Nathaniel a ir com ela.

Mas no viu seu carro no embarcadero. Era ridculo dizer-se que no lhe importava v-lo ou no, pensou, porque lhe importava muito. Queria v-lo, observar seu olhar profundo, fixa nela, o modo em que punha os lbios ao sorrir.

Talvez tivesse estacionado ao voltar a esquina. Saiu do carro e se dirigiu ao escritrio, mas estava vazia.

levou-se uma grande decepo. No se tinha dado conta do muito que lhe importava v-lo at que no o viu. Ento, da parte de atrs, ouviu o longnquo zumbido de uma rdio. Havia algum na oficina, provavelmente fazendo reparaes, j que o mar estava muito encrespado para navegar.

No queria ir ver quem era, disse-se com firmeza. Tinha ido sozinho por motivos de negcios, de modo que deixou a folha contvel sobre a lotada mesa do escritrio. Mas, a um nvel puramente prtico, tinha que falar com o Holt, ou com o Nate, do segundo trimestre e dos projetos para no prximo ano.

Olhou a seu redor. Naquele lugar havia uma desordem que no podia compreender. Como se podia trabalhar, como podia um concentrar-se em semelhante confuso?

Lhe deu vontade de ficar a orden-lo tudo, mas deu meia volta e se aproximou dos armrios arquivos. Procuraria o que necessitava e, por curiosidade, iria  oficina.

Quando ouviu a porta aberta, deu meia volta, lista para sorrir, mas na porta havia um estranho.

-No que posso ajud-lo?

O homem entrou e fechou a porta a suas costas.

-Ol, Megan.

Por um instante, o tempo se parou, logo retrocedeu, em cmara lenta, cinco, seis, dez anos atrs, a um tempo no que era jovem e ingnua, e acreditava no amor a primeira vista.

-Baxter -sussurrou.

Que estranho, disse-se, no hav-lo reconhecido a primeira vista. Logo que tinha trocado. Estava to atrativo e elegante como a ltima vez que o viu. Era como um prncipe azul com a boca repleta de mentiras.

Baxter sorriu. Levava dias tratando de surpreend-la s e s a frustrao o tinha empurrado a aproximar-se dela naquele momento. Porque era um homem ao que o preocupava muito sua imagem, de modo que, antes de entrar, tinha comprovado que ali no havia ningum mais.

-Est to bonita como sempre -disse.

Megan estava plida e ao Baxter gostava de saber que jogava com vantagem. Alm disso, levava semanas planejando aquela reunio.

-Mas melhoraste com os anos. perdeste um certo ar infantil e  mais... elegante. Parabns.

Quando se aproximou dela, Megan no se moveu, suas pernas no lhe respondiam. Nem sequer quando Baxter lhe acariciou a bochecha e logo lhe tocou no queixo, com um dedo, rememorando um hbito que Megan tinha conseguido esquecer.

-Sempre foste uma beleza, Megan, com essa inocncia que a um homem d vontade de corromper.

Megan se estremeceu e Baxter sorriu.

-O que faz aqui?

Megan s podia pensar no Kevin, e dava obrigado porque no estivesse ali.

-Tem graa. Eu ia perguntar te o mesmo. O que est fazendo aqui, Megan?

-Vivo aqui -disse Megan com vacilao-. Trabalho aqui.

-Cansada do Oklahoma, no? Queria uma mudana? -disse Baxter, e se inclinou para diante at que Megan deu com as costas contra o arquivo. Sabia que a chantagem no serviria com ela, de modo que recorreria  intimidao-. Toma como tolo? No o faa, seria um grande engano.

Quando suas costas deu contra o arquivo, Megan, ao dar-se conta de que estava tremendo de medo, tranqilizou-se e ficou tensa. J no era uma menina, a no ser uma mulher, disse-se.

-por que estou aqui no  teu assunto.

-OH, claro que o  -disse Baxter com calma-. Eu prefiro que esteja no Oklahoma, Megan. Com seu trabalho, e sua famlia, e sua vida tranqila. De verdade que o prefiro.

Seu olhar era frio, geada, pensou Megan com tristeza. Nunca at ento o tinha parecido.

-O que voc prefira no me importa, Baxter.

-Acreditava que no ia averiguar que te tinha transladado a viver com minha ex-mulher e sua famlia? Pensava que te tinha perdido de vista? O que me tinha esquecido de ti durante todos estes anos?

Megan tratou de apartar-se dele, mas Baxter lhe cortou o passo. No tinha medo, mas sim sentia cada vez mais raiva.

-Nunca pensei nisso porque no me importa. E no, no sabia que no me tinha perdido de vista. por que ia ou seja o? Nem Kevin nem eu queremos nada de ti.

-esperaste muito tempo para vir -disse Baxter, esforando-se por controlar a fria que se apoderava dele. Tinha trabalhado muito para que um antigo engano o jogasse tudo por terra-.  muito lista, Megan, mais lista do que pensava.

-No sei do que est falando.

-A srio quer que cria que no sabe nada de minha campanha eleitoral? No penso tolerar seus patticos intentos de vingana.

A voz do Baxter era cortante, afiada. Megan comeava a sentir certo temor.

-Repito-te que no sei do que est falando. Minha vida no  teu assunto, Baxter, e a tua no me importa nada. Faz tempo deixou isso bastante claro, quando te negou a reconhecer que Kevin  seu filho.

- esse o conto com o que vais sair? -disse Baxter. Queria manter a calma, mas cada vez estava mais furioso. A intimidao, disse-se, no bastaria-. vais recorrer  histria da pobre garota inocente, seduzida, trada e abandonada?

-No  um conto,  a verdade.

-Foi jovem, Megan, mas foi inocente? -disse Baxter, apertando os dentes-. No o foi,  mais, estava-o desejando, ansiosa.

-Acreditei-te! Acreditei que me queria, que queria te casar comigo. E voc te aproveitou. Nunca teve inteno de ter um futuro comigo, j estava comprometido. Eu no era mais que um capricho.

-Foi muito doce, Megan, muito, muito doce -disse Baxter, empurrando-a contra o arquivo.

-me tire as mos de cima.

-Ainda, no. Escuta com ateno. Sei por que vieste a viver com as Calhoun. Primeiro haver rumores, logo uma triste historia contada a algum jornalista compassivo. A velha dama me pressionou quando deixei a Suzanna -disse Baxter com odeio ao recordar ao Colleen-, mas eu sozinho queria o bem dos meninos, por isso deixei que Bradford os adotasse. Cedi generosamente meus direitos, para que os meninos pudessem crescer em uma famlia tradicional.

-Alguma vez lhe importaram, verdade? -disse Megan com voz grave-. Alex e Jenny nunca lhe importaram, como tampouco te importa Kevin.

-O assunto  que a velha no tenha que preocupar-se com ti. Assim, Megan, ser melhor que me escute. As coisas no vo bem aqui, assim tem que voltar para o Oklahoma.

-No vou a nenhuma parte -disse Megan, e deu um coice quando Baxter lhe apertou o brao.

-vais voltar para o Oklahoma e a levar a vida tranqila que levava, sem entrevistas sentimentais com a imprensa. Se trficos de me fazer danifico, de me complicar de algum modo, acabarei contigo. E quando tiver terminado, e me acredite, tenho dinheiro bastante para fazer que muitos homens declarem que foi uma fulana, quando tiver terminado, no ser nada mais que uma zorra oportunista com um filho bastardo.

Megan se estremeceu, mas no pelas ameaas, o que no suportava era lhe ouvir o Baxter dizer que Kevin era um bastardo. E antes de que se desse conta, levantou a mo e deu ao Baxter uma bofetada.

-No volte a chamar assim a meu filho nunca mais.

Baxter lhe devolveu a bofetada.

-No me pressione, Megan -disse-. No me pressione porque pode acabar muito mal. Voc e o menino.

Enfurecida, como qualquer me protegendo a seu filho, Megan se equilibrou sobre ele. Os dois caram ao cho, junto  parede.

-Segue tendo a mesma natureza apaixonada, por isso vejo -disse Baxter, atirando dela para si-. Lembrana bem como despert-la.

Baxter tinha imobilizada ao Megan, sujeitando seus braos, de modo que esta se defendeu com uma dentada. Quando Baxter chio de dor, abriu-se a porta.

Nathaniel o levantou do cho como faria com um co raivoso.

-Nathaniel -disse Megan.

O no a olhou, em vez disso, sujeitou ao Baxter contra a parede.

-Dumont, verdade? -disse com um tom tranqilo mas aterrador-. ouvi que voc gosta de maltratar s mulheres.

Baxter tratou de recuperar a compostura, mas seus ps no tocavam o cho.

-Quem demnios  voc?

-Sim, suponho que tem direito ou seja meu nome, porque lhe vou arrancar o corao com as mos -disse Nathaniel, e teve o prazer de ver que Baxter ficasse branco de medo-. Meu nome  Nathaniel Fury, no o vais esquecer, verdade?

Quando Baxter pde falar, fez-o com um dbil fio de voz.

-Estar no crcere antes de que acabe o dia.

-No acredito -disse Nate, e quando Megan quis adiantar-se, disse-lhe-: Fique a.

-Nathaniel -disse Megan, tragando saliva-, no o mate.

-No quer que o mate?

Megan abriu a boca e voltou a fech-la. A resposta parecia desesperadamente importante, de modo que disse a verdade.

-No.

Baxter quis gritar, mas Nathaniel o impediu de lhe pondo a mo na garganta.

-Tem sorte, Dumont. A dama no quer que lhe mate e no quero decepcion-la. J se ocupar de ti o destino -disse Nate, e tirou o Baxter do despacho, levando-o como se no fora mais que uma bolsa velha.

Megan correu para a porta. estremeceu-se de alivio ao ver o marido da Suzanna perto do mole.

-Holt! Faz algo.

Holt se limitou a encolher-se de ombros.

-Fury me mataria. Volta a entrar, est-te molhando.

-Mas, no ir matar o?

Holt refletiu um instante. Nathaniel, enquanto isso, atirava do Baxter pelo mole.

-No acredito.

-Espero que no saiba nadar -disse Nathaniel, e jogou no Baxter  gua. deu-se a volta, sem incomodar-se em ver se Baxter sabia nadar ou no.

-Vamos  -disse ao chegar junto ao Megan.

-Mas...

Nathaniel a levantou em seus braos.

-J basta de trabalho por hoje.

-De acordo -disse Holt, com as mos metidas nos bolsos-. At manh.

-Nathaniel, no pode...

-te cale, Meg -disse Nate, e a levou at o carro.

Megan olhou para o mole. No estava segura de se, ao ver o Baxter aparecendo pelo bordo do mole, sentiu alvio ou decepo.



Nathaniel necessitava um pouco de paz para tranqilizar-se. Detestava seu forte temperamento, porque s vezes lhe dava vontade de solucionar as coisas a murros. Em circunstncias normais era capaz de conter-se, mas solo saber do que era capaz o punha doente.

No havia dvida de que teria podido assassinar a aquele homem se Megan no o tivesse impedido.

esforou-se, ao longo dos anos, por recorrer s palavras e no aos punhos para resolver suas disputas. Normalmente conseguia conter-se, mas s vezes era impossvel.

Megan estava tremendo quando chegaram a casa do Nate. No lhe ocorreu at aquele momento que se esqueceu de Co. Mas pensou que Holt se ocuparia dele.

Nathaniel levou em braos ao Megan at seu dormitrio, e a deixou em uma cadeira. Sem dizer uma palavra, foi revolver nas gavetas.

-te tire essa roupa -disse-lhe, lhe deixando uma sudadera e umas calas de moletom-. vou fazer te um ch.

-Nathaniel...

-Faz o que te digo! -gritou Nate, apertando os dentes.

Conseguiu conter-se, mas pensando em que, ao chegar  cozinha, daria um murro contra a parede. Entretanto, o que fez foi pr a bule e ir procurar uma garrafa de conhaque. depois de consider-lo um momento, deu um gole diretamente da garrafa. No o acalmou muito, mas serve para lhe tirar o mau sabor da boca.

Quando ouviu assobiar a Pssaro e convidar ao Megan a Casbah, serve duas taas de ch.

Megan estava plida e tinha expresso de desconcerto. A sudadera e as calas lhe estavam muito grandes. ficou no vo da porta, vacilante, consciente de sua cmica imagem.

-Sente-se e toma algo. Sentir-se melhor.

-Estou bem, de verdade -disse Megan, mas se sentou, e tomou a taa com ambas as mos. Com o primeiro gole franziu o cenho-. Acreditava que era ch.

- ch. Mas lhe pus conhaque para que esteja mais rico -disse Nate, e se sentou frente a ela-. Tem-te feito mal?

Megan agachou a vista e pde ver seu rosto refletido na mesa.

-Sim.

Disse-o com tranqilidade, porque acreditava que estava tranqila, at que Nathaniel ps uma mo sobre a sua. Ento soluou e teve que agachar a cabea e apoi-la sobre a mesa, entre as mos.

Chorava pelas esperanas e os sonhos perdidos, pela traio, os medos e a amargura. Nate no disse nada, to solo esperou.

-Sinto muito -disse Megan ao cabo de um momento. sentia-se confortada pela fresca e agradvel sensao da mesa contra a bochecha e a mo do Nathaniel sobre seu cabelo-. Tudo ocorreu muito depressa e no estava preparada -disse, mas um novo medo se apoderou dela-. Kevin! OH,

Deus, se Bax...

-Holt se ocupar dele. Dumont no se aproximar dele.

-Tem razo -disse Megan com um suspiro-. Holt se ocupar dele e da Suzanna e de outros. Alm disso, Baxter s queria me assustar.

-E te assustou?

-No. Tem-me feito mal, e me h posto furiosa, e doente quando me h meio doido. Mas no me assustou, no poderia.

-Boa garota.

Megan suspirou e sorriu fracamente.

-Mas ele sim est assustado -disse-. Por isso veio, porque depois de todos estes anos teme que tenha vindo a viver com os Calhoun.

-Assustado? Do que?

-Do passado, das conseqncias -disse Megan e voltou a suspirar. Esta vez, ao faz-lo, cheirou a tabaco e a sal, o aroma do Nathaniel, um aroma reconfortante-. Acredita que nossa vinda forma parte de uma espcie de compl contra ele. Seguiu-me a pista todo este tempo. No sabia.

-No havia tornado a v-lo at hoje?

-No, nunca. Suponho que se sentia seguro quando estava no Oklahoma, sem nenhum contato com a Suzanna. Agora no s estamos em contato, mas sim vivemos na mesma casa... mas no parece entender que no tem nada que ver com ele.

Voltou a beber ch. Nathaniel no lhe perguntou nada, limitou-se a permanecer sentado a seu lado, sustentando sua mo. Talvez por isso, Megan se sentiu impulsionada a falar.

-Conheci-o em Nova Iorque. Eu tinha dezessete anos e era minha primeira viagem longe de minha casa. Foi durante as frias de inverno, fui com umas amigas. estiveste em Nova Iorque?

-Uma ou duas vezes.

-Nunca tinha visto nada igual. A gente, os edifcios...  uma cidade excitante, e no se parece com as cidades da Costa Oeste. Est cheio de colorido e de vida. eu adorei passear pela Quinta Avenida, tomar caf em Greenwich Village... Parece uma tolice.

-No, parece normal.

-Suponho que sim -disse Megan com um sorriso-. Tudo era normal e singelo... Logo... Conheci-o em uma festa, era to bonito, e parecia to romntico. O sonho de uma jovencita, com esse ar de mundo. Tinha a idade justa para parecer fascinante. Tinha estado na Europa... -interrompeu-se e fechou os olhos-. Que pattico.

-No tem por que me contar nada, Meg.

-Sei, mas quero faz-lo -disse Megan, e voltou a abrir os olhos-. Se quer ouvi-lo.

-claro que sim -disse Nate, lhe apertando a mo-. Adiante, libra lhe disso.

-Disse-me as palavras adequadas -disse Megan-, fez os movimentos adequados. Mandou-me uma dzia de rosas ao dia seguinte e me convidou para jantar.

deteve-se para escolher as palavras adequadamente e lhe enredou o dedo no cabelo. Era to horrvel, pensou, olhar ao passado.

-De modo que fui jantar. Havia velas e danamos. Eu me sentia adulta. Acredito que solo  possvel sentir-se assim quando tem dezessete anos. fomos ver museus, de compras, ao teatro. Disse-me que me queria e me comprou um anel. Tinha dois pequenos diamantes em forma de corao. Era muito romntico. O me ps um na mo e eu pus outro a ele.

interrompeu-se um momento, esperou a que Nathaniel fizesse algum comentrio. Quando no disse enchente, fez proviso de valor para continuar.

-Disse-me que iria ao Oklahoma e fizemos planos de futuro. Mas,  obvio, no foi. Chamou e disse que se atrasaria uns dias. Logo, de repente, deixou de responder a minhas chamadas. Logo soube que estava grvida e o chamei e lhe escrevi. Ento me inteirei de que estava prometido, que tinha prometido muito tempo. Ao princpio no pude acredit-lo, logo me voltei louca. Demorei tempo em me fazer  idia. Minha famlia se comportou muito bem. Nunca o teria suportado sem seu apoio. Quando nasceu Kevin, dava-me conta de que no bastava me sentindo adulta, mas sim tinha que ser adulta. Mais tarde, tratei de me pr em contato com o Bax uma vez mais. Acreditei que devia saber que tinha um filho e que Kevin tinha direito a ter algum tipo de relao com seu pai. Mas... No tinha nenhum interesse, solo sentia ira e hostilidade. Comecei a compreender que o melhor era que no conhecesse o Kevin, e hoje sigo acreditando que assim .

-No lhes merece a nenhum dos dois.

-No, no nos merece -disse Megan com um pequeno sorriso. Pela primeira vez em muito tempo se sentia poda, mas no vazia, a no ser livre-. Quero te agradecer que viesse em meu resgate.

-foi um prazer. No voltar a te tocar -disse Nate, lhe beijando a mo-. Nem a ti nem ao Kevin. Confia em mim.

-Confio em ti -disse Megan. Palpitava-lhe o corao, mas o olhou aos olhos-. Quando me subia pelas escadas acreditava que... Bom, no acreditava que fosses fazer me um ch.

-Nem eu tampouco. Mas estava tremendo e sabia que no podia te tocar antes de que nos acalmssemos. Teria sido um desastre, para os dois.

Megan comeava a excitar-se.

-Est tranqilo agora?

- um convite, Megan?

-Eu... -disse Megan. Sabia que Nate estava esperando a que ela assentira, mas sem seduzi-la, sem iluses, sem falsas promessas-. Sim.

Quando Nate a levantou em braos, riu nervosamente. E lhe fez um n na garganta quando Nate a olhou.

-No pensar nele -disse Nathaniel-. No pensar em nada exceto em ns.

8




Megan podia ouvir os batimentos do corao de seu corao, como contraponto ao som da chuva que golpeava os cristais das janelas. perguntou-se se Nathaniel tambm o ouvia e, silo ouvia, se saberia que ela sentia certo temor. Seus braos eram fortes e sua boca doce e firme.

Levou-a em braos pelas escadas como se pesasse to pouco como uma pluma.

Faria algo mal, alguma tolice, no seria o que ele esperava, o que ela esperava de si mesmo. As dvidas se apoderaram dela quando entraram na habitao, banhada de uma luz tnue e cheirando a glicinias.

Havia um vaso com as flores de cor prpura, posto sobre uma velha cmoda de madeira. As janelas estavam entreabiertas e deixavam passo a uma fresca brisa. A cama tinha cabecero de ferro e um edredom de algodo.

Nate deixou ao Megan no cho, junto  cama, e ela se deu conta de sua debilidade, tremiam-lhe os joelhos. Mas seguiu olhando-o aos olhos e esperou a que ele fizesse o primeiro movimento.

-Est tremendo -disse Nathaniel com tranqilidade e lhe acariciou a bochecha. Acreditava Megan que ele no se dava conta de seus temores? O que ela no podia, e no devia saber, era que seus temores despertavam os seus prprios.

-No sei o que fazer -disse Megan, e fechou os olhos. J estava, disse-se, j tinha cometido o primeiro engano. Mas, com deciso, tomou a cabea do Nate entre as mos e o beijou.

Nate se estremeceu, invadido por um fogo de desejo. Esticou os msculos como reao e conteve o desejo de jog-la sobre a cama e lhe fazer o amor intensa e rapidamente. Em vez disso, seguiu lhe acariciando a cara, os ombros, as costas, at que Megan se acalmou.

-Nathaniel.

-Sabe o que quero, Meg?

-Sim... no.

Jogou os braos ao pescoo, mas ele tomou suas mos e lhe beijou os dedos, um a um.

-Quero que esteja tranqila, que desfrute -disse e lhe soltou as mos-. Quero que te encha de mim disse, e comeou a lhe tirar as forquilhas do cabelo, as deixando na mesinha-. Quero te ouvir dizer meu nome quando estiver dentro de ti.

Acariciou-lhe o cabelo, sonriendo de satisfao ao sentir sua sedosa suavidade.

-Quero que deixe te fazer todas as coisas com as que estive sonhando desde que te vi. Deixa que te ensine.

Beijou-a na boca, brandamente. Logo, com pequenos mordisquitos e lhe lambendo os lbios, obteve que os separasse. Pouco a pouco, o beijo se foi fazendo mais intenso, mais profundo, at que Megan apoiou as mos nos quadris do Nathaniel e se deixou levar pelo prazer.

Nate sabia ligeiramente a conhaque e roava a bochecha do Megan com sua barba de dois dias. Megan se sentia invadida por uma sensao de atordoamento agradvel e intensa, e se deixava levar.

Nathaniel encheu seu rosto de beijos. Riscou a linha de sua mandbula, lambeu-lhe o lbulo da orelha e seguiu pelas bochechas e os olhos. Esperando, pacientemente, a dar o seguinte passo.

Por fim, retrocedeu, solo uns centmetros; tirou- a camisa ao Megan e a deixou no cho.

Megan viu uma chispada de desejo em seu olhar, logo seu olhar escurecido. Nate lhe aconteceu um dedo pelo pescoo e descendeu at chegar ao mamilo.

Megan conteve a respirao.

- preciosa, Meg, e to suave -disse Nate, e a beijou em um ombro, enquanto seguia acariciando-a, excitando-a-. To doce.

Temia que suas mos fossem muito grandes, muito arrudas. Como resultado, suas carcias eram extremamente suaves. Descendeu pelos flancos e chegou  cintura, para lhe desabotoar as calas.

Logo, seguiu acariciando-a, at que Megan no pde respirar sem gemer, inundada em um oceano de prazer.

Finalmente, Nate se despiu e Megan o olhou com ateno, intensamente.

Megan se disse que tinha chegado o momento, e lhe fez um n na garganta. Nate ia fazer lhe o amor, para aliviar aquela maravilhosa dor que habitava em seu interior.

Doce e ofegante, beijou-o na boca e ele a estreitou entre seus braos. Logo a tendeu sobre a cama, to docemente como se a tivesse tendido sobre um leito de rosas, e comeou a beij-la delicadamente, solo com os lbios, saboreando-a, como se fora um banquete dos mais deliciosos sabores. Logo a acariciou, como se fora descobrindo seu corpo pouco a pouco.

Nada poderia hav-la preparado. Embora tivesse tido cem amantes, nenhum poderia lhe haver dado mais, nem recebido mais. Estava perdida em muito sensaes, conquistada pela ternura, perdida na suavidade.

Seu corao pulsava cada vez mais depressa, mas ela respirava com calma, profundamente. Sentiu que lhe roava o mamilo com o cabelo, antes de tom-lo com a boca. Gemeu de prazer e escutou o suspiro do Nate, enquanto a chupava.

E se afundou em guas clidas e profundas.

E ento, comeou a form-la tormenta, lenta e sutilmente. Quase no podia respirar, mas necessitava ar, porque se estava afogando. Seu corpo estava tenso e cheio de desejo, mas a cabea lhe dava voltas.

-Nathaniel -disse agarrando-se a ele-. No posso.

Mas ele a beijou na boca, tragando-se seus suspiros, saboreando-a. E Megan se relaxou. Justo ento chegou a primeira quebra de onda de prazer.

Nate lhe estava acariciando o ventre, e ela se apertou contra aquela mo, invadida pela sensao. agarrou-se a seus ombros e o apertou com tal fora que lhe cravou as unhas, e teve um orgasmo. 	

-Megan, Deus -disse Nate. 	

Dar prazer a uma mulher sempre tinha dado prazer a ele mesmo. Mas nunca daquele modo, nunca at aquele ponto. sentia-se rei e mendigo ao mesmo tempo.

Assombrada-a resposta do Megan o excitou at o limite do suportvel. Era como se de seus nervos saltassem fascas. 

Queria lhe dar mais, tinha que lhe dar mais. No podendo resisti-lo mais, deslizou-se nela, satisfeito de ouvir seu gemido de prazer, seu rpido estremecimento. 	

Era to pequena. Nate teve que recordar-se, uma vez mais, que era pequena e delicada e sua pele era suave e tenra. Que era inocente e quase como uma virgem. De modo que enquanto o sangue pulsava em sua cabea, em seus pulmes, tomou docemente, com as mos apoiadas na cama, por medo a faz-la dano se a tocava. 	

E seu corpo se contraiu e estalou. E ento, pronunciou seu nome.

Voltou a beij-la e a abraou.


A chuva seguia golpeando contra a janela. Megan voltou para a realidade pouco a pouco. Estava tendida na cama, quieta, com uma mo enredada no cabelo do Nathaniel, que sorria.

Comeou a cantarolar uma cano.

Nathaniel se apartou um pouco e se apoiou em um cotovelo. 

-O que faz?

-Estou cantando.

Nate sorriu e a observou.

-Eu gosto de muito, nenm.

-Voc comea a me gostar da mim -disse Megan lhe acariciando o queixo com um dedo. Logo agachou o olhar-. esteve bem, verdade?

Nate sorriu e esperou a que Megan o olhasse para responder.

-No esteve mal para comear.

Megan abriu a boca, e voltou a fech-la com um pequeno gemido.

-Podia ser um pouco mais... amvel.

-Voc podia ser um pouco menos tola -disse Nate beijando-a na boca-. Fazer o amor no  um concurso. Nem fica nota.

-O que queria dizer era que... No importa.

-O que queria dizer era que... -disse Nate, e ps ao Megan em cima dele-. Em uma escala de um a dez...

-Curta, Nathaniel -disse Megan, apoiando a bochecha sobre o peito do Nate-. dio que me faa sentir ridcula.

-Eu, no -disse Nate, lhe acariciando as costas-. eu adoro te fazer sentir ridcula. eu adoro te fazer sentir.

Nathaniel esteve a ponto de acrescentar "te quero", mas Megan no o teria aceito. Inclusive lhe custava faz-lo.

-Tem-me feito sentir. Tem-me feito sentir coisas que nunca havia sentido. Tinha tanto medo.

-No quero que tenha medo de mim.

-Tinha medo de mim mesma -disse Megan-. De ns. Medo de deixar que ocorresse isto, mas me alegro de que tenha ocorrido.

Era mais fcil do que tinha pensado sorrir, beij-lo, falar. Por um instante, deu-lhe a impresso de que Nate ficava tenso, mas lhe pareceu uma tolice e voltou a beij-lo.

Nate estava surpreso. Como era possvel que voltasse a desej-la, to rpida, to desesperadamente? Mas, como podia resistir ao encanto daqueles lbios, doces e tentadores?

-Parece-me que vai ocorrer outra vez.

Megan sorriu e o beijou na boca. Logo, proferiu um gemido de deleite quando Nate a fez rodar para ficar em cima dela. Nate se deixou levar, beijando-a apaixonadamente, devorando-a, beijando sua boca, sua pele, lhe acariciando os cabelos, e apartando-os para beij-la no pescoo.

Megan se queixou, gemeu, revolveu-se debaixo dele.

Nate se apartou e se tendeu de costas.

Confusa, Megan lhe tocou o brao, que ele apartou.

-No -disse-. Necessito um momento.

Megan ficou de pedra.

-Sinto muito. Fiz algo mal?

-No -disse Nate passando-a mo pela cara, e se sentou-. No estou preparado. O que te parece se baixo e preparo algo de comer?

S estava a uns centmetros do Megan, mas

pareciam quilmetros.

-No, d igual -disse com calma-. A verdade  que tenho que ir. Tenho que ir pelo Kevin.

-Kevin est bem.

-Mesmo assim -disse Megan mesndose o cabelo e, de repente, teve vontades de tampar-se, de ocultar sua nudez.

-No me feche a porta -disse Nate, contendo uma perigosa paixo.

-No fechei nenhuma porta. Eu acreditava que queria que ficasse. Mas como no quer...

-Claro que quero. Maldita seja, Megan -exclamou Nate, e no se surpreendeu quando Megan se sobressaltou-. Necessito um maldito minuto. Poderia te comer viva, desejo-te muito.

Megan se tampou os seios com um brao.

-No te entendo.

-Claro que no me entende -disse Nate, e tratou de acalmar-se-. Estaremos bem, Meg, se esperas a que me tranqilize.

-Do que est falando?

Presa da frustrao, Nate tomou a mo do Megan e a ps contra a sua, palma com palma.

-Tenho as mos muito grandes, Megan. Herdadas de meu pai. Sei como as utilizar, mas tambm sei como fazer mal com elas.

Brilhavam-lhe os olhos, como o fio de uma espada. Deveria ter atemorizado ao Megan, mas a excitava.

-Tem medo -disse-. Medo de me fazer danifico.

-No te farei mal -disse Nate, e apoiou a mo sobre a cama, apertando o punho.

-No, no me far mal -disse Megan, lhe acariciando o queixo.

Nate apertava a mandbula.

-Deseja-me -disse e o beijou na boca-. Quer me tocar e quer que eu te toque.

Tomo sua mo e a ps sobre um de seus seios, logo lhe acariciou o peito e sentiu o tremor de seus msculos.

-me faa o amor, Nathaniel -disse com os olhos entrecerrados, p-lhe as mos no pescoo e se apertou contra ele-. Me mostre o muito que me deseja.

Nate a beijou, concentrando-se no sabor de sua boca. Seria o bastante, disse-se, para satisfaz-la.

Mas Megan aprendia depressa. Quando Nate queria ser tenro, ela era intensa, quando queria ser suave, ela se deixava levar pelo desejo.

Finalmente, Nate a levantou e ficaram frente a frente, de joelhos, corpo a corpo, e a beijou apaixonadamente.

Megan respondia avidamente a cada uma de suas demandas, a cada desesperado gemido. Nate a acariciava por todo o corpo, posesivamente, tomando mais solo quando ela pedia mais. acabaram-se as guas tranqilas e se deixavam levar por uma corrente de desejo.

Nate no podia deter-se, mas, alm disso, esqueceu-se de qualquer tipo de controle. Megan era seu e ele queria o ter tudo dela. Com um pouco parecido a um gemido, percorreu-lhe o corpo com os lbios.

Megan se arqueou e Nate se agachou e a beijou no ventre e lhe lambeu o sexo. Megan no pde reprimir os gemidos de prazer, que proferiu pronunciando o nome do Nathaniel.

Nate a penetrou, impulsivamente, gemendo, com os olhos fechados. Tomou as mos do Megan e prosseguiram amando-se com as mos entrelaadas.

Megan recordaria o ritmo, e a liberdade selvagem de seu encontro. E recordaria a maravilhosa sensao de compartilhar um orgasmo ao mesmo tempo.



Devia haver ficado dormida, disse-se ao despertar, tombada de barriga para baixo na cama. J no chovia e tinha cansado a noite. Quando lhe esclareceu mente, deu-se conta de um monto de pequenos dores e de uma sensao de atordoamento e satisfao.

Pensou em d-la volta, mas lhe pareceu muito esforo. Em vez disso, estirou os braos, procurando o Nate, embora, em realidade, sabia que estava sozinha.

Ento ouviu falar com pssaro.

-Voc sim sabe assobiar, no, Steve?

Megan seguia sonriendo quando Nathaniel entrou na habitao.

-O que faz? Ver filmes antigos todo o tempo?

- um f do Bogart -disse Nate. Resultava-lhe estranho sustentar uma bandeja de comida diante de uma mulher nua que jazia sobre sua cama-. Tem uma bonita cicatriz, nenm.

Megan estava muito contente para incomodar-se.

-Me ganhei. Voc tem um bonito drago.

-Tinha dezoito anos, tola, e mais de um par de cervejas. Mas suponho que eu tambm me ganhei isso.

-Fica bem. O que trouxeste?

-pensei que teria fome.

-Morro de fome -disse Megan, apoiando-se em ambos os cotovelos-. Cheira muito bem. No sabia que soubesse cozinhar.

-No sei. Tem-no feito O Holands. Sempre me trago comida do hotel. Solo tenho que esquent-la. Bom, h frango uso ndio e veio.

Megan se lambeu e se incorporou para ver o contedo da bandeja.

-Tem uma pinta estupenda. Mas de verdade que preciso ir pelo Kevin.

-chamei a Suzanna -disse Nate, esperando que Megan ficasse para jantar, nua como estava-. A no ser que a voc chame, Kevin pode ficar a dormir em sua casa.

-Bom, pois...

-Diz que est jogando aos videojuegos com o Alex e Jenny.

-E se eu chamar, aguarei-lhe a festa.

-Mais ou menos -disse Nate sentando-se na cama, e acariciou ao Megan com um dedo-. Bom, fica dormindo comigo?

-Nem sequer tenho escova de dentes.

-Posso te encontrar um -disse Nate partindo uma parte de frango e dando-lhe ao Megan.

-OH -exclamou ela-. Como lana.

-Sim -disse Nate, e se inclinou para beij-la nos lbios. Logo lhe deu a beber vinho-. Melhor?

-Maravilhoso.

Nate deu uns golpecitos no copo de vinho e caram umas gotitas sobre o ombro do Megan.

-OH, ser melhor que o limpe -disse, e o fez com a ponta da lngua-. O que tenho que fazer para te convencer de que fique?

Megan esqueceu a comida e se tornou em braos do Nate.

-Acaba de faz-lo.



Pela manh, esclareceu-se nvoa. Nathaniel olhou ao Megan, que olhava pela janela, banhada pela luz do sol. inclinou-se e a beijou na base do pescoo.

Pareceu-lhe um gesto formoso e singelo que podia converter-se em um hbito.

-eu adoro como te arruma, nenm.

-Como me arrumo? -disse Megan, olhando o reflexo do Nate no cristal da janela.

Levava o mesmo traje de jaqueta do dia anterior, que no tinha nenhuma ruga. Ia perfeitamente maquiada, graas ao pequena maleta de emergncia que levava na bolsa. O nico que lhe dava problemas era o cabelo, porque tinha perdido a metade das forquilhas.

- igual a um pastelito na cristaleira de uma confeitaria.

-Um pastelito? -disse Megan, rendo-. Eu no sou um pastelito.

-eu adoro os doces -disse Nate, e para prov-lo mordeu ao Megan no lbulo da orelha.

-J me dei conta -disse Megan, apartando o de si-. Tenho que ir.

-J. Eu, tambm. Imagino que no posso te convencer de que venha comigo.

-A ver baleias? -disse-. Posso te convencer de que voc venha a mim despacho a fazer nmeros?

Nate fez uma careta.

-Suponho que no. Que tal esta noite?

Megan imaginou a entrevista.

-Tenho que pensar no Kevin. No posso me passar as noites aqui e que ele durma em outra parte.

-J pensei nisso. Estava pensando que podia deixar as portas de seu balco abertas.

-E vais subir subindo?

-Mais ou menos.

-Boa idia -disse Megan renda-se-. Bom, leva-me a meu carro?

-Que remdio -disse Nate, tomando sua mo.

Quando baixavam as escadas, Nate lhe falou, embora odiava tirar o tema, tinha que dizer-lhe 

-Megan, se tiver notcias do Dumont, se tratar de verte a ti ou de ver o Kevin, se chamar ou faz sinais de fumaa, se fizer algo, o que seja, quero que me diga isso.

Megan lhe apertou a mo.

-Duvido que o faa, depois de como o tratou. Mas no se preocupe, posso com ele.

-Que lhe cortem a cabea -disse Pssaro, quando passaram a seu lado, mas Nathaniel no sorriu.

-No  questo de que possa com ele -disse Nate, empurrando a porta-. Pode que no te d conta de que o que passou ontem  noite me d direito a te cuidar e a cuidar de seu filho, mas isso  o que penso e isso  o que farei. Assim vamos pr o desta maneira, ou me promete que me avisar ou vou por ele agora mesmo.

Megan quis protestar, mas a imagem, muito vvida, do rosto do Nathaniel quando empurrou ao Baxter contra a parede a deteve.

-Sei que o faria -disse.

-Garanto-lhe isso.

-Eu gostaria de dizer que te agradeo que se preocupe por meu, mas no estou segura de que isso me alegre. Levo muito tempo cuidando do Kevin e de mim mesma.

-As coisas trocam.

-Sim -disse Megan, perguntando-se que pensamentos se escondiam depois dos olhos cinzas e tranqilos do Nate-, mas me sinto mais cmoda quando trocam pouco a pouco.

-Fao todo o possvel por ir a seu ritmo, Megan. Mas neste assunto te peo que me diga sim ou no.

No se tratava sozinho dela, pensou Megan, tambm estava Kevin. E Nathaniel lhes estava oferecendo seu brao protetor. O orgulho no importava quando se tratava do bem-estar de seu filho.

Quando se sentaram no carro, olhou-o.

-Sempre lhe as acertas para te sair com a tua. Diz as coisas como se fossem inevitveis.

-Normalmente o so -disse Nate, arrancou o carro e se dirigiram ao porto.

Um pequeno comit os esperava. Holt e, para surpresa do Megan, seu irmo, Sloan.

-deixei aos meninos em Las Torres -disse-lhe Holt-. Com seu co, Nate.

-Obrigado.

Megan acabava de sair do carro quando Sloan a agarrou pelos ombros e a olhou aos olhos.

-Est bem? por que demnios no me chamaste? P-te as mos em cima?

-Estou bem, Sloan, estou bem -disse Megan, e, instintivamente, acariciou-lhe a bochecha e o beijou-. No te chamei porque j tinha dois cavalheiros de branca armadura para me defender. E pode que ele me tenha posto as mos em cima, mas eu lhe hei devolvido murros. Acredito que lhe rompi o lbio.

Sloan disse algo muito desagradvel sobre o Dumont e abraou a sua irm.

-Teria que hav-lo matado faz anos, quando me contou isso tudo.

-No diga isso -disse Megan, abraando a seu irmo-. J terminou tudo e quero que o esqueamos e que Kevin no saiba nada disso. Agora, vamos, levo-te a casa.

-Tenho coisas que fazer -disse Sloan olhando ao Nathaniel framente, por cima do ombro do Megan. V voc. Eu vou logo.

-De acordo -disse Megan, e o beijou outra vez-. Holt, obrigado por cuidar do Kevin.

-No se preocupe.

Nathaniel se despediu do Megan com um comprido beijo. Holt olhou ao Sloan, que franzia o cenho, e teve que conter a risada.

-At mais tarde, nenm.

Megan se ruborizou, esclarecendo-a garganta.

-Sim, bom... Adeus.

Nathaniel se meteu as mos nos bolsos e esperou a que Megan se partiu para dirigir-se ao Sloan.

-Suponho que quer falar comigo.

-Claro que quero falar contigo.

-Pois ter que ser no navio, tenho um tour pendente.

-Querem um rbitro? -disse Holt, e ganhou dois olhadas fulminantes-. Que pena, no me queria perder isso -Acredito que j o ter adivinhado -disse Nathaniel framente.

Consumindo-se, Sloan seguiu ao Nathaniel pelo mole e subiu atrs dele ao navio. Esperou a que desse as ordens para zarpar e, quando estavam na cabine do leme, Nathaniel olhou ao Sloan.

-Se forem ser mais de quinze minutos, est convidado a um passeio em navio.

-Tenho tempo de, sobra -disse Sloan, aproximando-se do Nate e separando as pernas como um pistoleiro-. Que diabos est fazendo com minha irm?

-Acredito que j o ter adivinhado -disse Nathaniel framente.

Sloan apertou os dentes.

-Se crie que me vou ficar parado enquanto voc liga com ela, equivoca-te. Quando se foi com o Dumont eu no estava presente, mas agora estou aqui.

-Eu no sou Dumont -disse Nathaniel, fazendo esforos por conter-se-. Se quer descarregar em mim o que lhe fez, est bem, eu tenho vontades de matar a algum desde que vi esse bastardo em cima dela. Assim, se quer tom-la comigo, adiante.

Embora o convite tentava ao Sloan, despertando um elementar instinto masculino, Sloan retrocedeu.

-O que quer dizer com isso de que estava em cima dela?

-O que acabo de dizer -disse Nate-, que a tinha no cho, e estava sentado em cima dela. Me deu vontade de mat-lo, mas no acredito que lhe tivesse gostado.

Sloan respirou profundamente, tranqilizando-se.

-E o atirou  gua.

-Bom, antes disso, dava-lhe alguns golpes. Pensei que talvez no soubesse nadar.

Mais tranqilo, Sloan assentiu.

-Holt teve umas palavras com ele quando saiu da gua. J se tinham enfrentado em outras ocasies. No acredito que volte, se por acaso volta a encontrar-se com algum de ns -disse. Sabia que devia alegrar-se, mas o lamentava, porque tambm ele queria lhe pr as mos em cima-. Agradeo-te que a cuidasse, mas isso no impede que eu no goste que...  muito vulnervel e o aconteceu muito mal. No quero que nenhum homem se aproveite disso.

-Dava-lhe ch e roupa seca -disse Nathaniel entre dentes-. E a teria ficado a coisa se ela tivesse querido, mas quis ficar comigo.

-No quero que volte a sofrer. Pode que quando a olhar veja uma mulher atrativa, mas  minha irm.

-Estou apaixonado por sua irm -disse Nathaniel, e girou a cabea para ouvir a porta da cabine.

-Preparados, capito.

-Pois vamos  -disse apertando os dentes e iniciou a manobra para zarpar.

-Quer que tenha que lombriga as contigo? -disse Sloan.

-Est surdo ou o que? Estou apaixonado por ela, maldita seja.

-Bom, ento... -disse Sloan e, desconcertado, sentou-se em um pequeno banco da cabine.

Queria esclarecer seus pensamentos. depois de tudo, Megan apenas o conhecia, embora no tinha por que importar, ele se tinha apaixonado pela Amanda assim que a viu. Se ele pudesse escolher um homem para sua irm, teria sido algum parecido ao Nathaniel Fury.

-O h dito? -perguntou-lhe Sloan, com um tom grandemente menos beligerante.

-Vete ao inferno.

-No o h dito -disse Sloan-. E ela sente o mesmo por ti?

-Sentir-o -disse Nathaniel, apertando os dentes-. Necessita tempo, isso  tudo.

-Isso h dito?

-Isso  o que eu digo -disse Nathaniel, mesndose os cabelos-. Olhe, Ou'Riley, me d um murro nos narizes se quiser, j tive o bastante.

Sloan sorriu.

-Est louco por ela, n?

Nathaniel se limitou a grunhir, sem apartar a vista do mar.

-E o que passa com o Kevin? -disse Sloan, estudando o perfil do Nate-. H homens que no quereriam fazer-se carrego do filho de outro.

-Kevin  o filho do Megan -disse Nate com um olhar penetrante-. E ser meu filho.

Sloan guardou silncio uns instantes antes de prosseguir.

-Ento, quer o pacote completo.

-Exato -disse Nathaniel, acendendo um charuto-. Algum problema?

-Ao contrrio -disse Sloan sonriendo e aceitou o charuto que lhe ofereceu Nate-. Mas no sei se para ti o ser. Minha irm  muito teimosa. Mas vendo que quase  um membro da famlia, eu adorarei ajudar.

Nathaniel franziu os lbios.

-Obrigado, mas prefiro faz-lo sozinho.

-Como quer -disse Sloan, e se disps a desfrutar de do passeio.



-Seguro que est bem?

Megan acabava de entrar em Las Torres e se encontrou rodeada de preocupao.

-Estou bem, de verdade -disse.

Mas seus protestos no impediram que as Calhoun a levassem a cozinha e lhe oferecessem ch e simpatia.

-Parece-me que esto exagerando.

-Quando algum se mete com algum de ns -disse C. C.-, mete-se com todos ns.

Megan olhou ao jardim. Os meninos jogavam alegremente.

-Agradeo-lhes isso, de verdade. Mas no acredito que haja nada pelo que nos preocupar.

-Claro que no -disse Colleen entrando na cozinha, observando a cena com seu ardiloso olhar-. O que esto fazendo aqui? Pondo nervosa  garota? Fora.

-Tia Colleen... -disse Coco.

-Fora, hei dito. Todos. E voc volta para a cozinha com esse holands grandote com o que aconteceste a noite.

-Mas...

-Vete. E voc -disse tia Colleen, dirigindo seu gesto ameaador a Amanda-. Tem que dirigir o hotel, no? Pois vete. E voc -disse a uma preguiosa Lilah-, vete a dormir a sesta.

-Sim -disse ela-, faz-me falta. Vamos, senhoras, jogam-nos.

Satisfeita, quando a porta se fechava, Colleen se sentou pesadamente em uma cadeira.

-me ponha uma taa de ch-disse ao Megan-. Bem quente.

Embora se levantou para obedecer, Megan no estava impressionada.

-Sempre  to brusca para pedir as coisas, senhora Calhoun?

-Isso  pela velhice, e porque eu no gosto de perder o tempo -disse tia Colleen, e aceitou a taa de ch que lhe deu Megan. Um ch quente e forte, muito a seu gosto-. Agora, sente-se e escuta o que vou dizer te. E no me contradiga, jovencita.

-Tenho-lhe muito afeto a Coco -disse Megan-. E voc a tem feito envergonhar-se.

-Coco envergonhada? Ja! Ela e esse urso tatuado levam dias deitando-se juntos. Quo nico tenho feito  lhe dar um empurrozinho para que se atreva a diz-lo publicamente -disse e olhou ao Megan com cumplicidade-.  muito leal, verdade?

-Sim.

-Eu tambm o sou. Esta manh tenho feito umas quantas chamadas, a amigos de Boston. Amigos com influncias. Chist -disse ao Megan quando esta quis falar-. Eu detesto a poltica, mas s vezes  necessria para danar com o diabo. Dumont tem que saber que qualquer contato contigo, ou com seu filho, ser fatal para suas ambies. No voltar a te incomodar.

Megan franziu os lbios. At aquele momento, a ameaa do Baxter tinha pendido como uma espada do Damocles sobre sua cabea, mas, depois das palavras do Colleen, desapareceu por completo.

-por que o tem feito?

-Odeio aos porcos, sobre tudo aos porcos que interferem na felicidade de minha famlia.

-Eu no sou sua famlia -disse Megan com suavidade.

-Ja! Isso te voc crie. colocaste os narizes em territrio Calhoun, jovencita.  uma dos nossos, para sempre.

Ao Megan lhe encheram os olhos de lgrimas.

-Senhora Calhoun -disse Megan, mas tia Colleen a interrompeu com uns golpecitos de fortificao. Deu um coice e prosseguiu-: Tia Colleen, muito obrigado.

-De nada -disse Colleen, e pigarreou para esclarec-la garganta. Logo elevou a voz-. Deixem de escutar detrs da porta! J podem entrar!

A porta se abriu, e Coco foi primeira em entrar. aproximou-se do Colleen e lhe deu um beijo.

-Deixa de tolices -disse tia Colleen, apartando a suas sobrinhas-. Quero que a garota me conte como esse jovem to arrumado atirou a esse porco  gua.

Megan se ps-se a rir, secando-os olhos.

-Antes lhe sacudiu.

-Ja! -disse Colleen, agitando o fortificao como sinal de apreciao-. No economize detalhes.. No economize detalhes.
9




B. se est comportando extraamente. Desde que voltamos para a ilha depois do vero, est distrada, sonha acordada. Chega tarde ao ch, esquece entrevistas. Intolervel. Molestos distrbios no Mxico. despedi da ajuda de cmara. ps muito amido nas camisas.


Incrvel, pensou Megan, lendo as notas do Fergus, que tinha uma caligrafia sinuosa, quase indecifrvel. Podia falar de sua esposa, de uma guerra potencial ou do ajuda de cmara com o mesmo tom irritado. Que vida to miservel deveu ter Bianca, que terrvel deveu ser ver-se apanhada em seu matrimnio, controlada por um dspota e sem poder dirigir sua prpria vida.

Mas pior tivesse sido, disse-se Megan, que Bianca o tivesse amado.

Como fazia freqentemente nas horas tranqilas que precediam ao sonho, Megan voltou a fixar-se nas pginas finais do livro, repletas de nmeros e lamentou no ter podido ir  biblioteca ainda.

Embora, talvez, seria-lhe mais til falar com a Amanda. Amanda saberia se Fergus tinha contas bancrias no estrangeiro ou depsitos em caixas de segurana.

perguntou-se se ali estaria a chave de tudo. Fergus teve casas em Maine e Nova Iorque, aqueles nmeros podiam corresponder a caixas de segurana. Talvez fossem combinaes.

Pareceu-lhe uma idia muito atrativa, uma resposta lgica a um intrincado quebra-cabeas. Era algo que encaixava com a personalidade de um homem to obcecado pelo dinheiro como Fergus Calhoun.

No seria fantstico, disse-se, que encontrassem algum depsito em uma oxidada caixa de segurana? Levaria oitenta anos sem abrir-se e a chave se teria perdido. E o contedo? Rubis ou bnus negociveis? Uma fotografia velha ou uma mecha de cabelo?

Fechou os olhos e riu de si mesmo.

-No te deixe levar pela imaginao, Megan -murmurou-, pode te levar muito longe.

-O que?

Megan se sobressaltou como um coelho, e lhe caram os culos.

-Maldita seja, Nathaniel.

Nate sorria, enquanto fechava as portas da terrao a suas costas.

-Eu acreditava que te alegraria de lombriga.

-E me alegro, mas no sei por que tem que entrar sem avisar.

-Acabo de subir pelos balces do hotel, como ia entrar, com uma banda de msica? -disse Nathaniel, e se aproximou da cadeira onde estava sentada Megan, inclinando-se para beij-la como um homem faminto-. Me alegro de que fale sozinha.

-Eu no falo sozinha.

-Acaba de faz-lo, por isso decidi deixar de te olhar e entrar. Est muito bonita sentada a sua mesa, com o cabelo recolhido, os culos e essa bata.

Megan desejou que sua bata se transformasse em uma sedutora camisola de seda, mas no tinha nenhum objeto atrativo com a que adornar-se.

-Pensei que j no foste vir.  muito tarde.

-Imaginei que haveria muitas perguntas sobre o de ontem e que quereria deitar ao Kevin. No sabe o que passou, verdade?

-No -disse Megan, comovida porque Nate lhe perguntasse pelo Kevin-. Os meninos no sabem e todos outros estiveram maravilhosos.  como pensar que est sozinho em plena batalha e, de repente, encontra-te rodeado por um crculo de escudos -disse, e sorriu, inclinando a cabea a um lado-. O que est escondendo?

Nate escondia uma mo detrs das costas, que tirou, lhe mostrando ao Megan uma peona, geme a daquela que j lhe tinha dado.

-Uma rosa sem espinhos -disse-lhe.

Megan o olhou, e tudo o que pde pensar por um instante foi que aquele homem fascinante a desejava. Nate foi pr a flor no vaso, para substituir a outra flor j murcha.

-No a atire -disse-lhe Megan, sentindo-se um pouco parva.

- sentimental, Meg? -disse Nate, e deixou os dois casulos no vaso-. Sinta-se aqui a trabalhar at tarde olhando a flor e pensando em mim?

-Poderia ser -disse Megan, observando o irresistvel sorriso do Nate-. Sim, pensei em ti. Embora no sempre bem.

-Basta-me com que pense em mim -disse Nate, beijando-a na palma da mo-. Quase.

Atirou dela, sentou-se ele na cadeira, e logo a sentou em seus joelhos.

-Assim est muito melhor -disse.

Megan apoiou a cabea em seu ombro.

-Todo mundo se est preparando para a celebrao de Quatro de julho -disse perezosamente-. Coco e O Holands discutem sobre receitas para molho andaime e os meninos esto decepcionados porque no lhes deixamos atirar foguetes.

-Acabaro por fazer dois molhos e lhe perguntar a todo mundo sua opinio -disse Nate, pensando em quo agradvel era estar ali sentado, tranqilamente, ao final de um comprido dia de trabalho-. E aos meninos adoraro os fogos que sempre organiza Trent.

Kevin no tinha falado de outra costure em toda a tarde, recordou Megan.

-ouvi que vai ser um espetculo.

-J ver. Voc gosta dos foguetes?

-Quase tanto como aos meninos -disse Megan rendo, e se estreitou contra Nate-. No posso acreditar que j estejamos em julho.

-Sim, parece mentira -disse Nate-. O que faz? Est com o livro do Fergus?

-Sim. No sabia que tivesse amassado uma fortuna semelhante ou que tivesse to pouca considerao pela gente. Olhe aqui -disse Megan assinalando a pgina com um dedo-. Escreve da Bianca como se fora uma posse. Comprovava as contas todos os dias, at o ltimo cntimo. H uma anotao em que o sustrae trinta e trs cntimos do salrio  cozinheira por discrepncias com a compra de mantimentos.

-H muita gente que no primeiro que pensa  no dinheiro -disse Nate, folheando o livro-. Eu no posso estar seguro de que no esteja sentada em cima de mim por minha conta bancria, que conhece at o ltimo detalhe.

-No tem um dlar.

-Algum tenho.

-Muito poucos, mas  normal nos primeiros anos de um negcio, e quando ter que acrescentar o gasto de equipamento, a hipoteca da casa, os seguros e as licenas mercantis...

-Deus, eu adoro quando fala assim -disse Nate fechando o livro e brincando com a orelha do Megan. me fale de balanos e de pagamentos trimestres. Os pagamentos trimestres me voltam louco.

-Ento, alegrar-te saber que Holt e voc no lhes do a importncia que tm aos impostos trimestres.

-O que quer dizer?

-Devem-lhe ao governo outros duzentos e trinta dlares, que ter que acrescentar ao prximo pagamento ou que, sabiamente, posso enviar em uma emenda de devoluo.

-E por que temos que lhes pagar adiantado? -disse Nathaniel.

Megan lhe disse um beijo na frente.

-Porque, se no o fizer, o escritrio de Fazenda te vai fazer a vida impossvel.

-troquei que opinio. Eu no gosto que me fale como uma contvel -disse Nate e colocou uma mo sob a bata do Megan-. Vamos  cama, vou dizer te o que eu gosto mais de ti.



Nada mais amanhecer, Nate descia pelos degraus do jardim, assobiando e com as mos nos bolsos. O Holands, em idntica pose, descia pela escada oposta. Os dois ficaram de pedra quando se toparam frente a frente.

-O que faz aqui a estas horas? -disse O Holands. -Eu posso te fazer a mesma pergunta.

-Vivo aqui, no te lembra?

Nathaniel inclinou a cabea.

-Vive a abaixo -disse assinalando a planta baixa. -sa a tomar o ar -disse O Holands em um arrebatamento de inspirao.

-Eu tambm.

O Holands olhou para o balco do Megan. Nathaniel olhou ao de Coco. Os dois decidiram deixar as coisas como estavam.

-Bom, ento, suponho que gostar de tomar o caf da manh.

Nathaniel se passou a lngua pelos dentes.

-Pois a verdade  que sim.

-Vamos, ou quer ficar aqui toda a manh? Aliviados com a soluo, dirigiram-se juntos  cozinha, felizes pelo acordo.



Megan dormiu mais da conta. Saiu da habitao correndo a toda velocidade, grampeando-a blusa como podia. apareceu  habitao do Kevin, observou a cama feita e suspirou. Todo mundo estava acordado e levantado, disse-se.

dirigiu-se apressadamente a seu escritrio, esquecendo-se de tomar o caf da manh com seu filho, perdendo-se assim um dos pequenos prazeres do dia.

-OH, querida -disse Coco quando Megan quase se chocou com ela no vestbulo-. Ocorre algo?

-No, sinto muito, solo chego tarde.

-Tinha uma entrevista?

-No -disse Megan-. Quero dizer que chego tarde ao trabalho.

-OH, Meu deus, acabo de te deixar uma nota no despacho. V, v, no quero te deter.

-Mas...

Coco se afastou, deixando ao Megan com a palavra na boca, de modo que esta se dirigiu a seu escritrio.


Megan, querida, espero que tenha dormido bem. Tem caf na sua cafeteira e te deixei uma cesta de madalenas. No fique sem tomar o caf da manh. Kevin comeu como uma lima. Que bonito  ver um menino desfrutando de sua comida. Nate e ele voltaro para meio-dia. No trabalhe muito.

Uma saudao, Coco

P D.: Os cartas dizem que tem que responder a dois importantes pergunta. Uma com seu corao, a outra com a cabea. No te parece interessante?


Megan deixou escapar um suspiro e estava relendo a nota, quando Amanda bateu na porta.

-Tem um minuto?

-Claro -disse Megan, e lhe deu a nota-. Pode interpretar isto por mim?

-Ah, uma das hermticas mensagens de tia Coco -disse Amanda, franzindo os lbios-. Bom, o do caf e as madalenas  fcil...

-Isso o entendi -disse Megan, que j se serviu uma taa de caf-. Quer?

-No, obrigado, j me levou as minhas. "Kevin comeu como uma lima." Posso dar f disso. comeu trs torradas, brigando com o Nathaniel pela ltima pea.

Megan provou o caf.

-Nathaniel tomou o caf da manh aqui?

-Tomando o caf da manh e brincando com tia Coco, enquanto contava ao Kevin uma histria sobre um polvo gigante. "Voltaro para meio-dia." Bom, Nate se levou ao Kevin a ver as baleias outra vez. No acredito que terei que dizer muito sobre isso -acrescentou Amanda com um sorriso-. E nos pareceu que no te importaria.

-No, claro que no.

-E o das cartas desafia toda interpretao.  algo inerente  tia Coco -disse Amanda deixando a nota na mesa-.  um pouco misterioso, de todas formas. Tm-lhe feito algumas pergunta ultimamente?

-No, nada de particular.

Amanda se referia ao que Sloan lhe tinha contado: o que sentia pelo Megan.

-Seguro?

-N? Sim. Estava pensando no livro do Fergus, suponho que se pode considerar uma pergunta, pelo menos um enigma. Mas eu sim queria te perguntar algo.

-Adiante.

-Os nmeros das ltimas pginas. J lhe mencionei isso antes -disse Megan, abrindo um arquivo e lhe dando uma cpia da lista de nmeros a Amanda-. Perguntava-me se podiam ser nmeros de caixas de segurana ou combinaes de caixas fortes, ou referncias a propriedades, valores, no sei -disse encolhendo-se de ombros-. Sei que  uma tolice lhes emprestar ateno.

-No -disse Amanda-. Sei o que te passa. Eu tambm odeio a desordem, e que as coisas no encaixem. Examinamos a maioria dos papis de 1913 que ficam procurando pistas sobre onde estava o colar, mas no recordo nada que possa ter que ver com essas cifras. Embora v voltar a examin-lo tudo.

-me deixe a mim -disse Megan-.  como se fora meu menino.

-Me alegro, porque tenho muito que fazer e, com as celebraes de amanh, logo que tenho tempo de nada. Tudo o que h est no trastero que h debaixo da habitao da Bianca na torre. Est tudo arquivado em caixas, por ano e contedo, mas mesmo assim  um trabalho muito pesado.

-Me passado a vida fazendo trabalhos pesados.

-Pois ento te vais sentir como peixe na gua. Megan, dio lhe pedir isso mas  o dia livre da bab, Sloan teve que ir-se e eu tenho uma entrevista no povo esta tarde. Posso troc-la mas...

-Quer que cuide da menina?

-Sei que est ocupada...

-Mandy, acreditava que alguma vez me foste pedir isso -disse Megan com alegria-. Quando posso lhe pr as mos em cima?



Para o Kevin, aquele era o melhor vero de sua vida. Sentia falta da seus avs, aos cavalos e a seu melhor amigo, John Silverstone, mas tinha muitas coisas que fazer para estar realmente triste.

Jogava com o Alex e Jenny todos os dias, tinha seu prprio forte e vivia em um castelo. Montava em navio, subia pelas rochas e Coco e o senhor Holands lhe davam algo de comer sempre que o pedia. Max lhe contava histrias maravilhosas, Sloan e Trent lhe deixavam ajudar nas obras de vez em quando e Holt o tinha levado no fora borda.

Todas suas tias jogavam com ele e, algumas vezes, se tinha muito, muito cuidado, deixavam-lhe um beb.

Alm disso estava Nathaniel, disse-se observando ao homem que ia sentado a seu lado, conduzindo o conversvel, de volta s Torres. Kevin tinha decidido que Nathaniel sabia de tudo. Tinha msculos e uma tatuagem e quase sempre cheirava a mar.

Quando o recordava na cabine do navio, com os olhos entrecerrados para proteger do sol e suas grandes mos no leme, no podia pensar em um heri maior que ele.

-Ao melhor... -disse.

Nathaniel o olhou.

-Ao melhor o que, companheiro?

-Talvez posso voltar a ir em navio contigo -disse Kevin-. A prxima vez te prometo que no pergunto tanto e que no me ponho no meio.

Tinha existido alguma vez, perguntou-se Nathaniel, um homem que no fora sensvel  ternura de um menino?

-Pode vir comigo sempre que querer -disse baixando a viseira da boina de marinheiro que lhe tinha deixado ao Kevin-. E pode fazer todas as perguntas que queira.

-De verdade?

-De verdade.

-Obrigado!

detiveram-se na porta do imvel.

-O vou dizer a mame. Vem?

-Sim -disse Nate.

-Vamos -disse Kevin, e saiu correndo.

E correndo entrou em casa.

-Mame, estou aqui!

-V, que menino to calado -disse Megan levantando-se-. Deve ser meu filho Kevin.

Kevin se aproximou de sua me rendo e ficou nas pontas dos ps para ver o beb que sustentava em seus braos.

- Bianca?

-Delia.

Kevin se fixou na menina.

-E como as diferenas, se forem iguais?

-Olhos de me -murmurou Megan e beijou a seu filho-. Onde estiveste, marinheiro?

-Muito dentro do mar, duas vezes. Vimos nove baleias, e uma era como um beb. E Nate me deixou tocar a buzina e conduzir. E havia um homem enjoado, mas eu no, porque eu tenho pernas de marinheiro. E Nate diz que posso ir com ele outra vez, posso?

-Bom, suponho que sim.

-Sabe? As baleias se casam para toda a vida e no so peixes de tudo, embora vivam no mar. So mamferos, igual aos ces, e tm que respirar. Por isso saem e jogam gua pelo nariz.

Nathaniel entrou em plena lio. E se deteve, observando. Megan estava olhando a seu filho, sonriendo, e sustentava um beb entre os braos.

"Desejo-te," pensou. O desejo percorreu seu corpo como um raio de sol, quente e brilhante. E pensou que alm da aquela mulher, queria, como havia dito Sloan, todo o pacote.  mulher e a seu filho.

Megan o olhou e sorriu. Seu corao se parou. Quis falar, mas ao ver o olhar do Nathaniel lhe fez um n na garganta. Retrocedeu um passo, mas Nathaniel se aproximou dela, acariciou-lhe a bochecha e a beijou nos lbios.

O menino rio com entusiasmo e Delia atirou do cabelo do Nathaniel, que tinha to  mo.

-Ol, pequena -disse Nate, levantando o beb no ar, e deixando que esperneasse. Logo a baixou e a sustentou em braos, e olhou ao Kevin-. Importa-te que lhe tenha dado um beijo a sua me?

Megan proferiu um som estrangulado. Kevin olhou ao cho.

-No sei -disse.

- muito bonita, verdade?

Kevin se encolheu de ombros.

-Sim, no sei -disse. No sabia o que tinha que sentir. Muitos homens davam beijos a sua me: seu av, seu tio Sloan, Holt, Trent e Max. Mas aquele beijo era distinto e ele sabia. Levantou a vista e voltou a agach-la-.  seu noivo?

-Mais ou menos, voc molesta?

Kevin, com uma estranha sensao no estmago, encolheu-se de ombros.

-No sei.

J que o menino no levantava a vista, Nathaniel ficou em cuclillas.

-Tem todo o tempo do mundo para pens-lo, e logo me diz isso. Eu no vou a nenhuma parte.

-Vale -disse Kevin olhando a sua me, e ao Nathaniel de novo. Logo lhe disse ao ouvido-. lhe gosta?

Nathaniel conteve um sorriso e respondeu com solenidade a uma pergunta to solene.

-Sim.

depois de um comprido suspiro, Kevin assentiu.

-Est bem, pode lhe dar um beijo se quiser.

-Obrigado -disse Nate e tendeu a mo ao Kevin. Aquele trato de homem a homem deixou ao Kevin cheio de orgulho.

-Obrigado por me levar hoje -disse Kevin tirando-a boina de capito.

Nathaniel voltou a lhe pr a boina.

-Fique a 

O menino abriu muito os olhos.

-De verdade?

-Sim.

-Uauh, obrigado, obrigado, muito obrigado. Olhe, mame,  para mim. vou acostumar se a  tia Coco disse, e saiu correndo.

Megan olhou ao Nate franzindo o cenho.

-O que te perguntou?

-Coisas de homens. As mulheres no entendem destas coisas.

-De verdade? -disse Megan, e antes de que pudesse dizer nada, Nate lhe ps as mos na cintura e atirou dela.

-Agora tenho permisso para fazer isto -disse beijando-a, enquanto Delia se acomodava entre eles.

-Permisso de quem? -disse Megan quando conseguiu separar-se.

-De seus homens -disse Nate tomando a Delia e deixando-a no curral, onde a menina ficou a jogar com um osito de peluche-. Exceto de seu pai, mas como a ele no pude pedir-lhe -No  assunto dele -disse Megan com aborrecimento.

-Meus homens? Refere ao Kevin e Sloan? -disse Megan, deixando cair em um sof-. O h dito ao Sloan?

-amos pegar nos, mas ao final no passou nada -disse Nate, e foi ao mvel bar para servir um usque-. Ficamos como amigos.

-Suponho que a nenhum dos dois lhes ocorreu pensar que eu tinha algo que opinar no assunto.

-No falamos do assunto. Estava molesto porque te tivesse ficado dormindo comigo.

-No  assunto dele -disse Megan com aborrecimento.

-Pode que sim e pode que no, mas  gua passada. No te zangue.

-No estou zangada, mas me incomoda que fale de nossa relao com minha famlia sem falar antes comigo -disse Megan. O que mais lhe incomodava era o olhar de adorao que tinha visto nos olhos do Kevin.

Mulheres, pensou Nathaniel, e deixou o usque na mesa.

-Ou o explicava ao Sloan ou lhe dava um murro.

-Isso  uma tolice.

-Voc no estava ali, carinho.

-Por isso. Eu no gosto que falem de mim, j o sofri muitos anos.

-Megan, se for comear outra vez com o Dumont, vais conseguir que me zangue.

-No estou falando do Dumont, solo estou constatando um fato.

-E eu constatei outro. Hei-lhe dito a seu irmo que estou apaixonado por ti e j est.

-Teria que haver... -disse Megan, e se interrompeu. De repente, faltava-lhe o ar-. H- dito ao Sloan que est apaixonado por mim?

-Sim. Agora vais dizer que tinha que lhe haver isso dito a ti antes.

-Eu... no sei o que vou dizer -disse Megan, mas estava feliz, muito feliz.

-o melhor que pode dizer  "eu tambm te quero" -disse Nate, e esperou-. No pode?

-Nathaniel -disse Megan. "te acalme," disse-se, "sei razovel, lgica"-. Vamos muito depressa. Faz umas semanas nem sequer te conhecia, no esperava o que ocorreu entre ns. E sigo desconcertada por isso. Sinto algo muito intenso por ti, se no, no poderia me haver deitado contigo.

Estava-o matando.

-Mas...

-O amor no  algo no que possa voltar a ser frvola. No quero te fazer danifico nem sofrer eu, nem dar um passo que poderia fazer sofrer ao Kevin.

-E crie que o melhor  esperar, verdade? No importa o que sinta com tal de que espere a que passe um perodo de tempo razovel. Para que possa estudar todos os dados, quadrar o balano, e ento, obter a resposta correta.

Megan ficou rgida.

-Se o que quer dizer  que necessito tempo, ento, sim, necessito tempo.

-Muito bem, tome seu tempo, mas acrescenta isto a sua equao -disse Nate, aproximou-se dela e a beijou apaixonadamente-. Sente exatamente quo mesmo eu.

Assim era, s que lhe dava medo.

-Essa no  a resposta.

- a nica resposta -disse Nate, brocando-a com o olhar-. Eu tampouco te buscava, Megan. Estava satisfeito com como foram as coisas, mas o trocaste tudo para mim. Assim vais ter que reajustar suas bonitas colunas e fazer stio para mim. Porque te quero e vou ter te. Kevin e voc me ides pertencer -disse, e a soltou-. Pensa nisso -disse, e partiu.



Idiota. Nathaniel continuava amaldioando-se quando estacionou no mole. Estava claro, tinha encontrado um modo novo de cortejar a uma mulher: gritar e lhe dar um ultimato. Claramente, o melhor modo de ganhar seu corao.

deu-se a volta para tirar co, que ia no assento de atrs, e recebeu um afetuoso lametn.

-Quer que nos embebedemos? -perguntou a aquela bola de cabelo-. No, tem razo, no  uma boa eleio.

Entrou no escritrio, deixou a Co e se perguntou o que podia fazer para no pensar.

Trabalhar, disse-se, era uma opo mais sbia que a garrafa. 

Foi  garagem e esteve arrumando um motor, at que ouviu o familiar som de uma sereia. Devia ser Holt, com o ltimo grupo do dia.

Seguia de um humor amargo, mas saiu ao mole para ajudar no atraque.

-As frias esto trazendo muitos turistas -comentou Holt, depois de amarrar o navio-. Hoje tivemos muito boa bilheteria.

-J -disse Nathaniel, que se tinha fixado em quo passageiros abandonaram o navio-. dio as multides.

Holt se surpreendeu.

-Pois tua foi a idia de fazer tours especiais por em Quatro de julho.

-Faz-nos falta o dinheiro -disse Nathaniel, entrando na garagem-. Mas isso no significa que eu goste.

-O que te passa? Quem te chateou?

-Ningum -disse Nathaniel, acendendo um charuto-. Eu no gosto de ficar em terra, isso  tudo.

Holt duvidava que fora certo, mas, tal como reagem os homens, encolheu-se de ombros e agarrou uma chave.

-Este motor est levando muito tempo.

-Posso ir quando queira -disse Nathaniel, mordendo o charuto-. Quo nico tenho que fazer  fazer a mala e me arrolar em um cargueiro.

Holt suspirou.

-trata-se do Megan, no?

-Eu no lhe pedi que se metesse em minha vida, no?

-Bom...

-Eu estava aqui antes -disse Nathaniel. Sabia que era um argumento ridculo, mas no podia deixar de falar-. Essa mulher tem um ordenador na cabea. Nem sequer  meu tipo, com esses trajecitos e a carteira. Quem h dito que eu me ia ficar aqui, a me atar de por vida? Desde que tinha dezoito anos, no vivi mais de um ms em nenhuma parte.

Holt fingiu trabalhar no motor.

-comeaste um negcio, colocaste-te em uma hipoteca. E me parece que leva aqui seis meses.

-Isso no significa nada.

-insinuou Megan que quer casar-se?

-No -disse Nathaniel dando uma larga imerso ao charuto-. Insinuei-o eu.

Ao Holt lhe caiu a chave ao cho.

-Espera um momento. A ver se o entendo. Est pensando em te casar e me vem com que quer te arrolar em um cargueiro porque no quer te atar?

-Eu no queria me atar, simplesmente ocorreu -disse Nathaniel fumando-. Maldita seja, Holt, sou um idiota.

-Tem graa quo idiotas somos com a mulheres, n? Brigaste-te com ela?

-Hei-lhe dito que a quero. Ela comeou a briga -disse Nathaniel, e ficou a dar voltas, e a ponto esteve de atirar o banco de ferramentas de uma patada-. O que ocorreu com os dias em que as mulheres queriam casar-se, quando casar-se era sua meta, quando o nico que queriam era caar a um homem?

-Em que sculo estamos?

Que Nathaniel pudesse rir era um motivo de esperana.

-Acredita que vou muito depressa.

-Eu te aconselharia que fosse mais devagar, mas te conheo faz muito tempo.

Mais tranqilo, Nathaniel agarrou uma chave, refletiu um instante, e voltou a deix-la em seu stio.

-Suzanna se livrou do Dumont, como o conseguiram?

-Chiei-lhe muito.

-J o tentei.

-Lhe dei de presente flores. adora as flores.

-Tambm o tenho feito.

tentaste a splica?

Nathaniel franziu o cenho.

-Pois no, e voc?

Holt se interessou mais pelo motor.

-Estamos falando de ti. Demnios, Nate, lhe diga alguma dessas poesias que voc gosta tanto, eu o que sei. No sou muito bom nestas coisas.

-Tem a Suzanna.

-J -disse Holt sonriendo-. Pois consegue a sua prpria mulher. Nathaniel assentiu e atirou o charuto. -Isso intento.

10




O sol se ps quando Nathaniel voltou para casa. Tinha engordurado um motor e reparado um casco, mas seguia de mau humor.

Recordou uma entrevista, do Horacio, a respeito de que a ira era uma loucura momentnea. Se no se encontrava o modo de dominar a loucura momentnea, acabava-se em uma habitao acolchoada. Uma imagem muito pouco agradvel.

O nico modo de sair dali, tal como ele o via, era enfrentar-se a ela. E ao Megan. E ia fazer ambas as coisas assim que limpasse a casa.

-Ter que tratar comigo, no? -disse a Co, enquanto o animal saltava do assento traseiro-. Te faa um favor, Co, e te afaste das garotas listas com mais crebro que sentido comum.

Co moveu a cauda e foi regar as novelo.

Nathaniel fechou o carro de uma portada e se dirigiu  casa.

-Fury?

deteve-se e olhou para a porta.

-Sim.

-Nathaniel Fury?

Viu o homem aproximar-se para ele. Um gorila com calas jeans. Tinha cara de bruto, andava com as pernas separadas e levava uma boina de beisebol imerso at as sobrancelhas.

Nathaniel o reconheceu. Tinha-o visto antes. Era especialista em criar problemas ali onde estivesse.

-Exato. O que posso fazer por voc?

-Nada -disse o homem sonriendo-. Sou eu o que posso fazer algo por voc.

Agarraram-no por detrs, lhe retorcendo os braos. Viu o primeiro golpe, mas no pde fazer nada por esquiv-lo e recebeu um murro no estmago. Doeu-lhe muito e comeou a ver dobro. O segundo murro lhe deu na mandbula.

Gemeu e se inclinou para diante.

-Igual a uma menina. E se supunha que era duro -disse o que o agarrava. Com um rpido movimento, levantou a cabea e lhe deu no nariz. Logo, apoiando-se naquele homem, levantou ambos os ps e golpeou ao gorila.

O homem a suas costas ficou a amaldioar, mas afrouxou os braos o suficiente para que Nathaniel se soltasse. S teve uns segundos para julgar a seus oponentes.

Viu que os dois estavam tocados, algum se queixava, sangrando pelo nariz, e o outro tratava de recuperar o flego. Nate golpeou ao que tinha detrs com o cotovelo e teve o momentneo prazer de ouvir o choque do osso contra o osso.

Atacaram-no como ces.

brigou-se durante toda sua vida e sabia como no pensar na dor e seguir lutando. Saboreou seu prprio sangue e a cabea lhe retumbou como o sino de uma igreja quando lhe deram um murro na mandbula, logo lhe queimou o peito ao receber outro nas costelas.

Mas seguia movendo-se, embora o estavam rodeando. Evitou um murro no pescoo e o devolveu  mandbula. Doeram-lhe os ndulos, mas era uma dor doce.

Viu o movimento pela extremidade do olho e reagiu. O golpe lhe deu no ombro e lhe respondeu com dois diretos ao pescoo. O homem acabou de joelhos no cho.

-Agora s estamos voc e eu -disse Nathaniel limpando-a sangue da boca-. Venha, vamos.

Seu oponente, pensou um instante, tinha perdido vantagem numrica e Nathaniel era como um lobo ferido, que se defendia ensinando as mandbulas. Tinha perdido a seu scio, de modo que procurou uma sada.

Mas viu algo que lhe chamou a ateno.

Uma das pranchas que ainda no estavam cravadas ao soalho. Agarrou-a e sorriu, avanando e esgrimindo a tabela como se fora um taco de beisebol de beisebol. Nathaniel se agachou para evitar o golpe, mas a tabela o golpeou no ombro no movimento de volta.

equilibrou-se sobre seu atacante e acabaram entrando na casa de um empurro.

-Fogo! Fogo! -gritou Pssaro, agitando as asas-. Todos a coberta!

A mesita se rompeu como se fora de papel sob o peso dos dois homens. Estavam encetados e tratavam de golpear-se. Os mveis do salo foram caindo um a um.

A mescla de suor, dor e sangue, viu-se enriquecida por algo mais. Medo. Quando Nathaniel o reconheceu, subiu-lhe a adrenalina, e usou aquela nova arma com to pouca piedade como seus punhos.

Agarrou a seu oponente pelo pescoo e apertou at estar a ponto de afog-lo.

-Quem te manda? -disse Nathaniel, apertando os dentes e agarrando ao homem pelo cabelo, apertando seu pescoo contra o cho.

-Ningum.

Nathaniel lhe deu a volta e lhe dobrou o brao.

-Te vou romper o brao, logo te romperei o outro e logo te romperei as pernas. Quem te manda?

-Ningum -disse, logo gritou quando Nathaniel lhe apertou nos rins com o joelho-. No sei como se chama! Juro-o! disse, e voltou a gritar outra vez-. Um tio de Boston. Deu-nos quinhentos por lhe dar uma lio.

Nathaniel seguiu sujeitando-o.

-Como era?

-Alto, de cabelo castanho, com um traje caro -balbuciou o homem entre juramentos, incapaz de mover-se sem que aumentasse sua dor-. Est-me rompendo o brao.

-Segue falando e no te romperei nada mais.

-Cara bonita, como a de uma estrela de cinema. Disse que tnhamos que vir a lhe dar uma surra, que nos pagaria o dobro se acabava no hospital.

-Parece-me que te vais ficar sem prmio -disse Nathaniel, soltou-lhe o brao e o levantou lhe apertando o pescoo-. Escuta o que vais fazer. vais voltar para Boston e vais dizer a seu amigo que sei quem  e onde encontr-lo -disse, e empurrou ao homem contra a parede antes de tirar o de sua casa-. Lhe diga que no se incomode em procurar amparo, porque se dito que gosta de ir por ele, no me ver chegar. Inteiraste-te?

-Sim, sim.

-Agora agarra a seu scio e comea a correr.

O outro seguia no cho, com as mos no pescoo e fazendo caretas de dor.

Com a mo nas costelas, Nathaniel os observou sair correndo.

Ento se queixou e, com grande dor, voltou a entrar em sua casa.

-Ainda no comecei contigo -disse Pssaro.

-foste que grande ajuda -resmungou Nathaniel. Necessitava gelo, um calmante e um gole de usque.

Avanou um passo, deteve-se, e amaldioou quando comeou a perder viso e lhe tremeram as pernas.

Co apareceu por uma esquina e se aproximou dos ps do Nate.

-S um minuto -disse Nate, e a habitao girou ante seus olhos-. OH, diabos -disse, e se deprimiu.

Co lhe lambeu a cara, logo se sentou e esperou. Mas o aroma do sangue o ps em alerta. Ao cabo de uns momentos, saiu correndo.



Nathaniel estava recuperando o conhecimento quando ouviu passos. Tratou de sentar-se. Notava cada um dos golpes que lhe tinham dado durante a briga. Sabia que se haviam tornado por ele, poderiam danar claqu sobre sua cara sem nenhuma resistncia por, sua parte.

-Homem a bordo -anunciou Pssaro.

Holt se deteve na porta e disse uma maldio entre dentes.

-Que demnios passou? -disse agachando-se junto ao Nathaniel e ajudando-o a levantar-se.

-Um par de tios -disse Nate, apoiando-se em seu amigo.

-Ladres?

-No. S vieram a me dar um surra.

-Pois parece que tm feito um bom trabalho -disse Holt, e esperou a que Nathaniel recuperasse o flego. Disseram por que?

-Sim -disse Nate, moveu a mandbula e viu as estrelas-. Pagaram-lhes. Cortesia do Dumont.

Holt voltou a amaldioar. Seu amigo parecia um asco, enfraquecido, arroxeado e cheio de sangue. E ele tinha chegado sozinho a tempo de limpar os restos.

-Viu-os bem?

-Sim. Dei-lhes uma boa e mandei a Boston para que dem uma pequena mensagem ao Dumont.

-Deste-lhes uma boa e voc est assim? -disse Holt, ajudando a seu amigo a chegar  porta.

Nathaniel s grunhiu.

-Teria que hav-lo imaginado -disse Holt, ligeiramente mais contente-. Bom, vamos ao hospital.

-No -disse Nate, que no queria lhe dar ao Dumont aquela satisfao-. O filho de cadela lhes disse que lhes pagaria mais se eu acabava no hospital.

-Bom, ento vamos ver um mdico -disse Holt, entendendo a seu amigo.

-No estou to mal. No me tm quebrado nada -disse tocando-as costelas-. No, no acredito. Solo me faz falta gelo. 	

-Bom, de acordo -disse Holt, que entendia a resistncia do Nate a que o visse um mdico-. Anda devagar, companheiro. 	

-No posso ir de outra forma. 

Com um estalo dos dedos, Holt indicou a Co que subisse ao carro. 	

-Espera aqui um momento, vou chamar a Suzanna.

-lhe ponha comida a Pssaro.

Nathaniel se debateu entre a dor e a perda dos sentidos at que voltou Holt.

-Como  que vieste?

-Por seu co -disse Holt, arrancou o carro e conduziu o mais devagar que pde-. jogou a aprendiz do Lassie.

-Srio? -disse Nathaniel impressionado, e com grande esforo, jogou o brao para trs e acariciou a cabea de Co-. Bom menino.

-Leva-o no sangue.

-Aonde vamos?

-s Torres, aonde se no.



Coco deu um chiado ao v-lo, levando-as mos  cara. Nathaniel se dirigiu  cozinha da famlia, apoiado no Holt.

-OH, meu pobrecito! O que passou? tiveste um acidente?

-Sim -disse Nathaniel-. Coco, dou-te tudo o que tenho, includa minha alma imortal, por uma bolsa de gelo.

-meu deus!

Apartou ao Holt e tomou o rosto do Nathaniel entre as mos. alm de moretones e arranhes tinha um corte debaixo de um olho. O outro olho estava injetado de sangue e inchado. Coco no demorou muito em dar-se conta de que eram conseqncia de murros.

-No se preocupe, carinho, ns lhe cuidaremos. Holt, v a minha habitao, h um frasco de calmantes no estojo de primeiro socorros.

Nathaniel fechou os olhos, e ouviu o trajn de Coco pela cozinha. Um momento mais tarde se sobressaltou ao notar que lhe punham uma toalha molhada no corte do olho.

-Tranqilo, tranqilo, carinho -disse Coco-. Sei que di, mas temos que limp-lo para que no se infecte. vou pr um pouco de iodo, assim sei valente.

Nate sorriu, e ao lhe faz-lo doeu o lbio.

-Quero-te, Coco.

-Eu tambm te quero, carinho.

-vamos fugimos. Esta noite.

Coco lhe respondeu beijando-o no fronte com ternura.

-No deveria brigar, Nate. No resolve nada.

-Sei.

Megan, sem flego pela carreira, irrompeu naquele momento.

-Holt h dito que... OH, Meu deus.

Correu ao lado do Nate, tomou a mo e a apertou com fora.

-Est muito mal. Ter que te levar a hospital.

-Passei-as piores.

-Holt h dito que dois homens lhe atacaram.

-Dois? -exclamou Coco-. Atacaram-lhe dois homens? -disse, e toda a doura desapareceu de seus olhos, cujo olhar se endureceu como o ao-. Que porcos. Algum deveria lhes ensinar o que  uma briga justa.

Apesar de seu lbio, Nate sorriu.

-Obrigado, carinho, mas j o tenho feito eu.

-Espero que lhes tenha dado uma surra -disse Coco, e seguiu curando-o-. Megan, querida, traz um bolsa de gelo.

Megan obedeceu. Estava rota em mil pedaos, por como tinha a cara e porque no a tinha cuidadoso.

-Toma -disse pondo a bolsa de gelo debaixo do olho, enquanto Coco lhe curava os ndulos ensangentados.

-Eu posso sustent-la, obrigado -disse Nate.

-H anti-sptico no armrio da esquerda, na segunda prateleira -disse Coco.

Megan, com vontades de soluar, foi busc-lo.

A porta voltou a abrir-se, para deixar entrar em uma multido. O desconforto inicial do Nate ante as visitas se converteu em assombro ao escutar as expresses de indignao das Calhoun. riscavam-se e desprezavam planos de vingana, enquanto ele sofria as espetadas do iodo.

-lhe deixem ao menino um pouco de ar! -ordenou Colleen, apartando a suas sobrinhas e sobrinhos como uma rainha entrando em seu corte-. Deram-lhe uma boa, n?

-Sim, senhora.

-Dumont -murmurou Colleen, de modo que solo Nate a ouviu.

-Sim.

Colleen olhou a Coco.

-Parece-me que est em boas mos. Eu tenho que ir chamar por telefone -disse sonriendo.

Ter contatos era muito til, pensou, saindo da cozinha apoiada no fortificao. O prprio Dumont se ps uma soga ao pescoo, e aquele passo em falso significava que sua carreira tinha chegado a um desagradvel fim.

Ningum se metia com a famlia do Colleen Calhoun.

Nathaniel a viu ir-se, logo se tomou o calmante que Coco lhe oferecia. Ao tragar lhe doeu o pescoo e o flanco.

-vamos tirar te a camisa -disse Coco, e atacou a camisa com umas tesouras de cozinha. fez-se o silncio quando ficou exposto o arroxeado torso do Nate.

-OH, Deus, meu menino -disse Coco com lgrimas nos olhos.

-No mime ao menino -disse O Holands, que entrava com duas garrafas na mo. Assim que viu o Nate apertou a mandbula com tanta fora que lhe doeu, mas tratou de manter o tom tranqilo de sua voz. No  nenhum menino. Toma um gole disto, capito.

-Acaba de tomar um calmante -disse Coco.

-Tome um gole.

Nathaniel fez uma careta ao sentir o usque na boca, mas era o menor de muitos outros dores.

-Obrigado.

-Olhe como est -disse O Holands-. Olhe que te deixar pegar assim, igual a um seorito de cidade com esponjas em vez de punhos.

-Eram dois -disse Nate.

-E? -disse o holands, aplicando lcool aos moretones-. Est em to m forma que j no pode com dois?

-Dei-lhes uma boa -disse Nathaniel, e provou a tocar um dente com a lngua, doa, mas no o tinha perdido.

-Mais te vale -disse O Holands-. Ladres, no?

Nathaniel olhou ao Megan.

-No.

-Tem as costelas arroxeadas -disse O Holands sem emprestar ateno  resposta do Nate, e pressionou nas costelas-. Mas no esto rotas. perdeste o conhecimento?

-Talvez -disse Nate, admitindo-o a contra gosto-. Um minuto.

-Viso imprecisa?

-No, doutor, agora no.

-No te faa o preparado. Quantos? -disse o holands sustentando dois dedos ante seus olhos.

-Oitenta e sete -disse Nate e quis beber outro gole de usque.

Mas Coco lhe tirou a garrafa.

-No beba nada mais, dei-te um calmante.

-As mulheres acreditam que sabem tudo -disse O Holands, mas olhou a Coco com um sorriso, porque sabia que tinha razo-. Agora o que te faz falta  uma boa cama. Quer que te leve?

-No -disse Nate, era uma humilhao sem a que podia passar-se, disse beijando a mo de Coco-. Obrigado, carinho. Se soubesse que voc foste ser minha enfermeira, voltaria a faz-lo -disse e olhou ao Holt-. Leva-me a casa?

-Nada disso -disse Coco-. Fica aqui, onde possamos te cuidar. Pode ter uma comoo, assim que fica aqui para que possamos te cuidar e te vigiar.

-Contos -grunhiu O Holands, mas assentiu. Estava a suas costas e Nate no podia v-lo.

-vou preparar a cama na habitao de convidados -disse Amanda-. C. C., por que no lhe prepara um banho quente a nosso heri? Lilah, traz gelo.

Nate no tinha energia para opor-se a nada, assim que ficou sentado.

Lilah lhe deu um beijo na boca.

-Vamos, menino duro.

Sloan ajudou a levant-lo.

-Dois, n? Fortes?

-Gorilas, maiores que voc.

Subiu as escadas, ajudado pelo Sloan e Max, com a sensao de que estava flutuando.

-vou tirar te as calas -disse Lilah, quando o sentaram na cama.

Nate ainda teve foras para lhe piscar os olhos um olho.

-No sabia que voc gostasse.

Max, o marido do Lilah, sorriu e se agachou para lhe tirar os sapatos. Sabia o que era ser curado e cuidado pelas Calhoun, e se figurava que quando Nathaniel tivesse passado o pior, daria-se conta de tinha aterrissado no Paraso.

-Quer que te ajude a te colocar no banheiro? -disse Max.

-Posso sozinho, obrigado.

-me chame se tiver algum problema -disse Sloan, mantendo a porta aberta, esperando a que todos sassem da habitao-. E, quando estiver melhor, quero ouvir toda a histria.

Sozinho, Nathaniel se meteu na gua como pde. A primeira pontada de dor passou, transformando-se gradualmente em um pouco parecido ao prazer. Quando saiu, o pior pareceu ter passado.

At que se olhou ao espelho.

Tinha um curativo debaixo do olho esquerdo, outro no ma do rosto. O olho direito parecia um tomate podre, tinha o lbio inchado e uma ferida na mandbula.

ficou uma toalha na cintura e voltou para a habitao, justo quando Megan entrava do corredor.

-Sinto muito -disse Megan franzindo os lbios, para no dizer qualquer tolice-. Amanda pensava que talvez te fizesse falta outro travesseiro ou mais toalhas.

-Obrigado -disse Nate aproximando-se da cama e tornando-se com um suspiro de alvio.

Megan deu obrigado por ter algo prtico que fazer e ajudou ao Nate a arrumar os travesseiros e a abrir a cama.

-Se posso fazer algo por ti? Quer mais gelo? um pouco de sopa?

-No, estou bem.

-Por favor, quero ajudar, preciso ajudar -disse Megan. J no podia suport-lo por mais tempo, e lhe ps a mo na bochecha-. Tm-lhe feito mal. Sinto-o muito.

-S so uns golpes.

-No me diga isso, estou vendo o que lhe tm feito -disse Megan, contendo sua fria e olhou ao Nate aos olhos-. Sei que est zangado comigo, mas me deixa que faa algo para te ajudar?

-Acredito que ser melhor que se sente -disse Nate, e quando Megan se sentou, tomou a mo. Necessitava o contato fsico tanto como ela-. estiveste chorando.

-um pouco -disse Megan, observando os ndulos feridos do Nate-. Hei-me sentido muito mal ao verte assim. deixaste que Coco te atendesse e nem sequer me olhaste -disse Megan, presa da emoo-. No quero te perder, Nathaniel.  s que acabo de te encontrar e no quero cometer outro engano.

-E tudo tem que ver com ele, verdade?

-No, no. Tem que ver comigo.

-Com o que te fez.

-Bom, sim -disse Megan, apoiando a mo do Nate em sua bochecha-. Por favor, no te afaste de mim. Ainda no tenho todas as respostas, mas sei que quando Holt disse que estava ferido, me parou o corao. Nunca tive tanto medo. Significa muito para mim, Nathaniel. Deixa que te cuide at que esteja melhor.

-Bom -disse Nate, lhe acariciando o cabelo-, pode que esta vez Dumont me tenha feito um favor.

-O que quer dizer?

Nate negou com a cabea. Certamente o calmante comeava a fazer efeito. No queria dizer-lhe ao menos no ainda, mas lhe pareceu que tinha direito ou seja o.

-Dumont contratou a esses homens.

Megan ficou plida.

-O que est dizendo? Baxter lhes pagou para que lhe dessem um surra?

-Para que me dessem uma lio, isso  tudo. Suponho que me tinha jurada isso desde que o atirei  gua -disse Nate, moveu-se, e fez uma careta-. Mas podia ter contratado a um par de profissionais, esses dois eram aficionados.

-foi Baxter -disse Megan, e fechou os olhos-. Por minha culpa.

-E um corno. Nada disto foi tua culpa.  um porco, olhe o que fez a ti, a Suzanna e aos meninos, e nem sequer tem valor para brigar, tem que contratar a algum. Alm disso, eu lhes dava , nem sequer conseguiu o que se propunha.

-Crie que isso importa?

-A mim sim. Se quer fazer algo por mim, Megan, se de verdade quer fazer algo por mim, te esquea dele de uma vez.

- o pai do Kevin -sussurrou Megan-. Ponho-me doente s de pens-lo.

-No  ningum. te jogue a meu lado.

Megan sabia que se estava esforando para no cair dormido sob o efeito do calmante, e se tendeu. Tomou sua cabea e a apoiou brandamente sobre seu seio.

-Dorme -disse-. No pensemos em nada.

Nate suspirou e se deu conta de que dormia.

-Quero-te, Megan.

-Sei -disse Megan, e permaneceu acordada quando o dormia.

Nenhum dos dois viu o menino que olhava pela fresta da porta, com os olhos banhados em lgrimas.



Nathaniel despertou com um zumbido na cabea e espetadas no ma do rosto esquerdo. Com cada pulsado do corao lhe doam as costelas, era um martilleo persistente que certamente duraria muito. Tambm notava uma dor surda no ombro.

sentou-se, por provar. Rgido como um cadver, pensou com desgosto, tirou os ps da cama e se levantou. Foi  ducha e se meteu nela com dificuldade. Quo nico o consolava era saber que seus dois visitantes inesperados estariam sofrendo mais que ele.

Inclusive a gua da ducha lhe doeu, ao dar sobre os moretones. Apertou os dentes, e esperou a que a dor se convertesse em meras molstias.

Encheu o lavabo de gua geada. Tomou ar e colocou a cabea, at que o frio lhe ocasionou um agradvel atordoamento.

Voltou para dormitrio. Havia roupa limpa em uma cadeira. vestiu-se como pde, sem deixar de amaldioar. Estava pensando no caf, uma aspirina e um prato cheio quando abriram a porta.

-No deveste te levantar -disse Coco, entrando com uma bandeja-. Agora te tire essa camisa e volta para a cama.

-Carinho, levo toda minha vida esperando te ouvir dizer isso.

-V, vejo que est melhor -disse Coco renda-se e deixou a bandeja na mesinha, logo se alisou o cabelo.

Ao v-la, Nate pensou que levava duas semanas sem trocar a cor de seus cabelos.

-um pouco.

-Pobrecito -disse Coco, lhe tocando com cuidado os moratones da cara. Aquela manh seu aspecto era pior ainda, mas no teve o valor de diz-lo-. Pelo menos, sente-se e come.

-Tem-me lido o pensamento -disse Nate, que estava desejando sentar-se-. Obrigado.

- o menos que podia fazer -disse Coco, desdobrando o guardanapo. Nate pensou que a teria posto no pescoo de no hav-lo feito ele mesmo-. Megan me contou o que ocorreu. Que Baxter contratou a esses... a esses valentes. Estou pensando em ir a Boston e falar com esse homem.

A raiva de seu olhar deixou no Nate uma clida sensao. Coco era como uma fera deusa celta.

-Nenm, com ele no teria nem para comear -disse Nate, e tomou um bocado de ovos mexidos. Fechou os olhos ao experimentar o singelo prazer da comida quente e saborosa-. vamos esquecer o assunto, carinho.

-Esquecer o assunto? No pode ser. Tem que chamar  polcia.  obvio, preferiria que fossem todos a lhe romper os narizes, mas, o mais correto  chamar  polcia e que se ocupem de tudo.

-Nada de polcia -disse Nate-. Dumont vai sofrer muito mais sem saber o que penso fazer nem quando o vou fazer.

-Bom, ento... -disse Coco, refletiu e sorriu-. Sim, suponho que o vai passar mau.

-Sim. E colocar  polcia nisto no seria muito agradvel nem para o Megan nem para o menino.

-Tem razo -disse Coco, e se alisou os cabelos-. Me alegro de que tenham a ti.

-Oxal ela pensasse o mesmo.

-J o pensa. Mas tem medo. Megan teve que acontecer muito, e voc  um homem que confundiria a qualquer mulher.

-Isso crie, n?

-Sei. Di-te muito, carinho? Pode tomar outro calmante.

-Uma aspirina  suficiente.

-Supunha-o -disse Coco, e tirou uma caixa de aspirinas do bolso do avental-. Toma as com o suco.

-Sim, senhora -obedeceu Nate, e seguiu comendo os ovos-. Viu ao Megan?

-Estava a ponto de amanhecer quando a pude convencer de que te deixasse e se fora a dormir.

Aquela informao lhe fez mas bem que a comida.

-Sim?

-Olhava-te de uma forma... -disse Coco, lhe dando uma palmada na mo-. Bom, uma mulher sabe destas coisas. Sobre tudo quando est apaixonada -disse, e se ruborizou-. Suponho que j saber que Niels e eu... Estes dias foram maravilhosos. Meu matrimnio tambm foi maravilhoso, e tenho lembranas que conservarei toda minha vida, e nestes anos tive algumas relacione fantsticas, mas com o Niels... -disse Coco com um olhar sonhador-. Faz-me sentir jovem e vital, e quase delicada, e no s no sexo.

-N, n, Coco -disse Nate, deixando a taa de caf na bandeja-, no me interessa esse tema.

Coco sorriu. Adorava a aquele moo.

-Sei o muito que o quer.

-Pois... sim -disse Nate, que comeava a sentir-se apanhado naquela cadeira-. Navegamos juntos durante muito tempo, e ...

-Como um pai para ti -disse Coco-. Sei. Solo queria que soubesse que o quero. vamos casar nos.

-O que? -disse Nate, boquiaberto-. Lhes ides casar? O Holands e voc?

-Sim -disse Coco, nervosa, porque no podia dizer se a expresso do Nate era de surpresa ou de horror-. Espero que no te importe.

-Que no me importe? -disse Nate, a quem lhe tinha ficado a mente em branco. Mas ao ver o olhar de ansiedade de Coco, foi recuperando. Nathaniel empurrou a mesinha e se levantou-. Imagine, uma mulher com classe como voc apaixonando-se por esse velho rufio. Seguro que no te ps nada na sopa?

Coco, aliviada, sorriu.

-Pois se for assim, eu gosto. Temos sua bno?

Nate tomou suas mos e as olhou.

-Sabe? Quase do momento que te conheci, me teria gostado que fosse minha me.

-OH, Nathaniel -disse Coco, e os olhos lhe encheram de lgrimas.

-Suponho que agora o ser -disse Nate, e a beijou nas duas bochechas, e logo nos lbios-. Mais vale que te trate bem ou ter que as ver-se comigo.

-Sou muito feliz -disse Coco, e se tornou em braos do Nate soluando-. Muito, muito feliz, Nate. Nem sequer o vi nas cartas, nem nas folhas de ch, simplesmente ocorreu.

-Assim so normalmente as melhores costure.

-Quero que seja feliz -disse Nate, e colocou a mo no bolso para lhe oferecer a Coco um leno de papel-. Quero que cria no que tem com o Megan e que no o deixe escapar. Necessita-te, e Kevin tambm.

-Isso lhe hei dito eu -disse Nate com um pequeno sorriso e lhe secou as lgrimas a Coco-. Mas suponho que no estava preparada para escut-lo.

-Segue dizendo-lhe disse Coco com firmeza-. Segue dizendo-lhe at que se convena -disse, e se Megan necessitava um pequeno empurrozinho, ela estava disposta a dar-lhe Bom, tenho muitas coisas que fazer. Quero que descanse, para que possa ir ao lanche e os foguetes.

-Encontro-me bem.

-Sim, igual a se te tivesse atropelado um caminho -disse Coco e lhe arrumou a cama, cavando os travesseiros-. Pode dormir outras duas horas ou pode te sentar na terrao a tomar o sol. Faz um dia maravilhoso e podemos pr uma rede. Quando Megan desperte, direi-lhe que venha a te dar uma massagem.

-Isso sonha muito bem. vou tomar o sol -disse aproximando-se da terrao, mas ouviu uns passos apressados no vestbulo.

Era Megan.

-No encontro ao Kevin -disse-. Ningum o viu em toda a manh.

11




Estava branca como a neve, mas esforando-se por manter a calma. A idia de que seu filho se escapou era to absurda que continuava dizendo-se que era um engano, uma brincadeira, talvez um sonho.

-Ningum o viu -repetiu-. E lhe falta parte da roupa e o saco de dormir.

-Chama a Suzanna -disse Nathaniel-. Seguro que est com o Alex e com o Jenny.

-No -disse Megan, negando com a cabea. Sentia seu corpo igual a se fosse de cristal, como se fora a romper-se ao menor movimento-. Esto aqui. Esto todos aqui e no o viram. Eu estava dormindo e, quando me despertei, fui a sua habitao, como fao sempre. No estava, mas pensei que estava no piso de abaixo, mas tampouco estava, e Alex o estava procurando. Ento voltei para sua habitao, e quando vi que algumas de suas coisas... algumas de suas coisas...

-Bom, querida, no se preocupe -disse Coco, rodeando ao Megan pela cintura-. Seguro que est jogando a algum jogo. Nesta casa h muitos stios onde esconder-se.

-Estava muito iludido com a festa de hoje. Solo falava disso.

-Encontraremo-lo -disse Nathaniel.

- obvio -disse Coco-. vamos organizar uma equipe de busca, e ele vai se alegrar muito quando o encontrarmos.



Uma hora depois o buscavam por toda a casa. Megan procurava tranqilizar-se e olhou em todos os rinces, comeando pela torre e baixando habitao por habitao.

Tinha que estar ali, dizia-se. Encontrariam-no em qualquer momento. Mas lhe dava vontade de chiar de nervosismo continuamente e tinha que conter-se.

Estava jogando, seguro, foi-se a explorar, porque aquela casa adorava. Tinha mandado fotos a todos seus amigos e familiares do Oklahoma, para que todo mundo pudesse ver que vivia em um castelo.

Encontraria-o detrs da seguinte porta, repetia-se Megan como uma letana.

topou-se com a Suzanna em um dos corredores e sentiu calafrios.

-No me responde -disse fracamente-. Chamo-o e no me responde.

-A casa  muito grande -disse Suzanna, tomando as mos do Megan-. Uma vez, quando fomos pequenos, jogamos esconderijo e demoramos trs horas em encontrar ao Lilah. colocou-se em um armrio e se ficou dormida.

-Suzanna. Faltam suas duas camisas favoritas e dois pares de esportivos. Duas boinas de beisebol, levou-se o dinheiro do cofre. No est aqui, foi-se.

-Precisa te tranqilizar.

-No, preciso fazer algo. Chama  polcia. OH, Meu deus... -disse Megan, tampando-a cara com as mos-. Poderia lhe haver acontecido algo. Solo  um menino. Nem sequer sei quanto tempo leva fora. Nem sequer sei... -disse Megan. Tinha medo-. Perguntaste ao Alex, ao Jenny? Ao melhor h dito algo. Ao melhor...

-Claro que lhes perguntei -disse Suzanna-. Kevin no lhes h dito nada.

-Aonde ter ido? por que? Ter voltado para o Oklahoma? -disse Megan, e lhe pareceu uma possibilidade esperanzadora-. Talvez est tratando de voltar para o Oklahoma. Talvez estava triste e s fingia que gostava de estar aqui.

-Gosta de muito viver aqui. Mas vamos comprovar o. Vem, vamos.



-olhamos em todas partes -dizia O Holands ao Nathaniel-, no armazm, na despensa, inclusive no congelador de carne. Trent e Sloan foram a olhar nas habitaes que se esto reformando e Max e Holt esto procurando no jardim.

Tinha olhar de preocupao, mas sustentava uma taa de caf sem que lhe tremessem as mos.

-Eu acredito que se estivesse escondido e ouvisse que o chamamos, sairia.

-procuramos na casa duas vezes -disse Nathaniel, olhando pela janela-. Amanda e Lilah registraram o hotel de acima a abaixo. No est aqui.

-No tem sentido. Kevin est muito contente de estar aqui.

-Algo lhe tem feito fugir -disse Nate-. por que foge um menino? Porque tem medo, ou no  feliz ou lhe tm feito mal.

-A esse menino no acontece nada disso -disse O Holands.

-Isso acredito eu -disse Nate, que aos nove anos aconteciam as trs coisas, e no tinha notado os sintomas disso no Kevin. O tinha fugido algumas vezes, mas no tinha nenhum stio onde ir.

Olhou para os escarpados.

-Tenho uma idia -disse quase para si mesmo.

-O que?

-Tenho que comprov-lo.



Era como se uma fora estranha o arrastasse para as colinas, embora o cho rochoso e acidentado acentuava a dor e a ascenso o obrigava a ofegar, com o que lhe doam os pulmes. Com uma mo nas costelas, continuou.

Era um lugar que podia atrair a ateno de um menino. o tinha atrado e o seguia atraindo.

O sol estava em seu cenit, o mar tinha uma cor azul muito intensa e rompia contra as rochas. Era um lugar belo e perigoso. Pensou em um menino subindo pelo estreito atalho, perdendo p, escorregando.

Mas estava seguro de que ao Kevin no tinha ocorrido nada, porque ele no o permitiria. deu-se a volta, para no olhar ao mar, e seguiu ascendendo, chamando o menino.

Um pssaro chamou sua ateno. Era uma gaivota, completamente branca, que voava com a graa de um bailarino. posou-se em uma rocha e grasnou musical, quase humano, quase feminino. Solo foi um segundo, mas Nate teria jurado que seus olhos eram verdes, verdes como esmeraldas, e que o olhava.

Remontou o vo e descreveu pequenos giros, como se estivesse esperando-o.

Nathaniel a seguiu e descendeu pelas rochas, de novo para o escarpado, sem emprestar ateno a seu corpo dolorido. Deu-lhe a impresso de que havia um aroma de mulher, doce, suave e tranqilizador, mas devia ser o aroma do mar.

A gaivota se afastou, subindo para reunir-se com seu casal, outra gaivota de um branco cegador. Por uns instantes voaram em crculo, grasnando, e se dirigiram por volta do mar.

Nathaniel ganhou o bordo do escarpado e viu um saliente na rocha, onde estava sentado o menino.

Seu primeiro impulso foi aproximar-se dele e abra-lo, mas o certo era que talvez ele fora a razo de que se escapou.

Em vez disso, sentou-se perto e falou com ele.

-Bonita vista daqui.

Kevin manteve a cara entre os joelhos.

-vou voltar para o Oklahoma -disse. Era um desafio-. Posso ir em nibus.

-Sim, suponho que sim.  uma boa maneira de ver o pas. Mas eu acreditava que voc gostava de viver aqui.

Kevin se encolheu de ombros.

-No est mau.

-Algum te tratou mau, companheiro?

-No.

-Brigaste-te com o Alex?

-No, no  nada disso. Mas me tenho que ir ao Oklahoma. Ontem  noite era muito tarde, por isso subi aqui. Acredito que dormi -disse Kevin-. No quero voltar contigo.

-Bom, sou mais forte que voc e poderia te levar a fora -disse Nate, acariciando o cabelo do menino-. Mas prefiro no faz-lo. Alm disso, quero compreender o que est sentindo.

Deixou que passasse um momento, olhando ao mar, escutando o vento, at que sentiu que Kevin se relaxava.

-Sua me est muito preocupada com ti. Todo mundo o est. Ao melhor, poderia voltar e lhes dizer adeus antes de ir.

-Ela no me deixaria ir.

-Quer-te muito.

-Eu no tinha que ter nascido -disse o menino com amargura. Eram umas palavras muito duras para um menino de nove anos.

-Isso  uma tolice. Suponho que tem direito a te zangar se quiser, mas no tem sentido pensar tolices.

Kevin o olhou. Tinha a cara suja e chorava. Nathaniel se comoveu.

-Se eu no tivesse nascido, as coisas teriam sido diferentes. Sempre finge que no importa, mas eu sei que sim.

-E voc por que sabe?

-J sou maior. E sei o que fez ele. Deixou-a grvida e se foi, e j no lhe importou. foi e se casou com a Suzanna e logo, abandonou-a a ela tambm. E ao Alex e Jenny. Por isso sou seu irmo.

Aquelas guas eram profundas e agitadas, pensou Nathaniel, e terei que navegar com cautela. O menino o olhava fixamente.

- sua me a que tem que te explicar isso, Kevin.

-Disse-me que algumas vezes a gente no pode casar-se e estar juntos, embora tenham meninos. Mas ele no queria. No me queria e o odeio.

-No vou discutir contigo sobre isso -disse Nathaniel-, mas sua me te quer, e isso  mais importante. Se for, vai sofrer muito.

Kevin soluou.

-Se eu me tivesse ido, poderia estar contigo. Voc estaria com ela se no fora por mim.

-No te entendo, Kevin.

-O... pegou-te -disse Kevin com dificuldade-. Ontem  noite o ouvi. Ouvi-te ti e a mame e disse que era por sua culpa, mas  por minha culpa. Porque  meu pai e o fez e agora voc me odeia tambm e vai.

-Mas, bom... -disse Nathaniel com emoo, tomou ao menino pelos ombros e o sacudiu-. Assim que te foste porque eu tenho uns quantos moretones?  que tenho pinta de no poder cuidar de mim mesmo? Esses dois canalhas tiveram que ir-se a rastros.

-De verdade? -disse Kevin, esfregando-os olhos-. Mas...

-Mas nada. Voc no tnias nada que ver com isso, e me d vontade de te sacudir at que lhe caiam os dentes por nos preocupar tanto.

- meu pai -disse Kevin-. Assim...

-Assim que nada. Meu pai era um bbado que me pegava todos os dias. Voc crie que sou igual a ele?

-No -disse Kevin, chorando-. Mas eu acreditava que j no voc gostaria e que j no queria ser meu pai, igual a Holt  o pai do Alex e Jenny.

Nathaniel estreitou ao menino em seus braos.

-Pois acreditava mau -disse beijando ao menino no cabelo-. Teria que te pendurar do pau maior, marinheiro.

-E isso o que ?

-J lhe ensinarei isso -disse Nate, apertando-o com mais fora-. Paraste-te a pensar que ao melhor eu quero que seja meu filho? Que quero que voc e sua me sejam meus?

-De verdade? -disse Kevin, estreitando-se contra o peito do Nate.

-O que acreditava? Que te ia deixar escapar quando te estava ensinando a dirigir o leme?

-No sei -disse Kevin, e apoiou a cabea no ombro do Nate-. Tinha muito medo, mas veio o pssaro.

-O pssaro? -disse Nathaniel olhando a seu redor, mas as gaivotas j no estavam ali.

-E ento j no tive medo. ficou toda a noite e, quando despertava, via-o. foi voando com o outro, mas ento vieste. Mame est zangada comigo?

-Certamente.

Kevin suspirou longamente, e Nathaniel sorriu.

-Suponho que me coloquei em problemas -disse o menino.

-Bom,  hora de voltar.

Kevin recolheu suas coisas e deu a mo ao Nate.

-Di-te? -perguntou-lhe.

-E que o diga.

-Logo posso ver suas feridas?

-Claro. Algumas so tremendas.



Ao Nathaniel doa todo o corpo no caminho de descida, mas a ascenso tinha merecido a pena. Tudo merecia a pena por ver o rosto de alegria do Megan.

-Kevin! -exclamou esta correndo para eles.

-Adiante -murmurou Nathaniel, dirigindo-se ao menino-, quer te abraar a ti antes.

Kevin deixou as coisas no cho e correu para sua me.

-OH, Kevin -disse Megan ajoelhando-se e abraando e beijando a seu filho, sem poder evitar as lgrimas.

-Onde estava? -perguntou- Trent ao Nate em voz baixa.

-Nos escarpados.

-Santo Deus -disse C. C.-. dormiu ali?

-No sei, mas tive a intuio de que estava ali.

-Uma intuio? -disse Trent, intercambiando um olhar com sua esposa-. Me recorde que te conte como encontrei ao Fred quando era pequeno.

Max deu ao Nate uma palmada no ombro.

 -vou chamar  polcia para lhes dizer que o encontramos.

-Ter fome -disse Coco, enxugando as lgrimas e apertando-se contra O Holands-. vou preparar algo.

-Mas mulher, deixa que sua me se dele ocupe -disse O Holands, dissimulando sua emoo com aquele comentrio-. Mulheres, sempre tm que estar metendo-se em tudo.

-Vamos dentro -disse Suzanna, dirigindo-se a seus filhos.

-Mas eu quero lhe perguntar se tiver visto os fantasmas -disse Alex.

-Logo -disse Holt, carregando a seu filho sobre os ombros.

Com um suspiro, Megan acariciou o rosto de seu pequeno.

-Est bem? No te tem feito nada?

-No, estou bem.

-No volte a fazer algo assim -disse Megan com firmeza. Nathaniel se surpreendeu da mudana de humor de sua me-. Nos tnias muito preocupados. Levamos horas te buscando e tivemos que chamar  polcia.

-Sinto muito -disse Kevin, e se sentiu mais culpado ao saber que tinham chamado  polcia.

-No basta pedindo perdo, Kevin Michael Ou'Riley.

Kevin agachou o olhar. Quando sua me o chamava assim, era que havia muitos problemas.

-No voltarei a faz-lo, prometo-lhe isso.

-Esta vez no tem desculpa, aonde foi? Como vou confiar em ti? E agora... OH, tinha muito -medo, meu menino. Quero-te muito. Aonde foi?

-No sei. A casa da av.

-A casa da av? -disse Megan, suspirando-. Voc no gosta de viver aqui?

-Eu gosto de muito.

-E por que queria ir ?Zangaste-te comigo?

Kevin negou com a cabea e agachou o olhar.

-Eu acreditava que Nate e voc estavam zangados comigo porque lhe pegaram. Mas Nate diz que no  por minha culpa e que no est zangada. Diz que ele no importa. No est zangada comigo, verdade?

Megan olhou ao Nate horrorizada, logo voltou a estreitar ao Kevin entre seus braos.

-OH, no, meu amor, claro que no -disse e olhou ao Kevin, tomando seu rosto entre as mos-. Lembra-te de quando te disse que algumas vezes as pessoas no podem estar juntas? Pois algumas vezes, no  bom que estejam juntas. Isso  o que acontece... entre o Baxter e eu -no podia referir-se a ele como pai do menino.

-Mas foi um acidente -disse Kevin.

-OH, no -disse Megan, beijando-o nas bochechas-. Um acidente  algo que no quer que ocorra, mas voc foi um presente. O melhor que me tm feito nunca. Bom, vamos lavar te -disse, e ficou de p, tomando a mo de seu filho, e olhou ao Nathaniel-. Obrigado.



Com a facilidade de um menino, Kevin se esqueceu imediatamente de sua fuga e se meteu totalmente na festa de Quatro de Julho. Era, no momento, um heri, e impressionou a seus amigos com o relato de suas aventuras.

Estava toda a famlia reunida, ces includos, de modo que Sadie e Fred jogavam com seus cachorrinhos, brincando de correr pela grama. Os bebs estavam nos corralitos, em seus beros ou em braos de suas mes. Alguns clientes do hotel se aproximaram por ali, afastando-se da festa preparada no restaurante, levados pelo alegre som das risadas.

Nathaniel no pde, como teria desejado, jogar beisebol. Uma queda teria sido desastrosa para ele. Em vez disso, designaram-no rbitro e teve o prazer de discutir com todos.

-Est cego? -disse-lhe C. C., atirando o taco de beisebol-. Um golpe no olho no  desculpa. A bola saiu por meio quilmetro.

Nathaniel mordeu o charuto.

-daqui foi boa, nenm.

C. C. se enfrentou a ele com os braos em jarras.

-Pois ento, te troque de stio.

-C. C., no discuta, est eliminada.

-Se no parecesse um asco... -disse C. C., logo riu-. Toca-te, Lilah.

-J? -disse Lilah com um gesto preguioso. apartou-se a franja da cara e se disps a batear.

Desde sua posio, Megan olhou a sua segunda base.

-Lilah no corre nem que lhe ponhamos um foguete.

Suzanna suspirou e negou a cabea.

-No lhe faz falta. Voc, olhe.

	Lilah, com uma mo no quadril, piscou os olhos o olho ao Nate e se disps a batear. Sloan lanou a bola com efeito. Lilah nem sequer se incomodou em tentar d-la e bocejou. 			

-O que te passa? -perguntou-lhe Nathaniel. 	

-Eu gosto de esperar um bom lanamento. 		

O segundo lanamento tampouco gostou. Deixou passar a bola e ganhou aplausos da equipe contrria. 	

Saiu da base, estirou-se e olhou ao Sloan. 	

-Est bem, campeo, lana outra vez -disse e se colocou em posio. 	

O lanamento foi algo baixo, mas Lilah golpeou a bola e a enviou a uns cem metros, conseguindo uma carreira. Entre aplausos e vtores, deu-se a volta e deu o taco de beisebol ao Nate. 	

-Sempre reconheo um bom lanamento -lhe disse. 

Quando terminou a partida, seguiu a festa e Nathaniel se aproximou do Megan. 			

-Joga muito bem, nenm. 	

-No Oklahoma treinava  equipe do colgio do Kevin -disse Megan, olhando a seu filho-. Parece que j se esqueceu de tudo, verdade? 	

-Sim. E voc? 

-Eu no, tenho o estmago cheio de mariposas -disse Megan, ficando uma mo no estmago e baixando a voz-. No sabia que pensasse assim do Baxter. 	

-Os meninos sempre tm secretos, inclusive para sua me. 	

-Suponho que sim -disse Megan. Era um dia muito formoso para jog-lo a perder com preocupaes-. No sei o que lhe h dito ali acima, mas para mim  muito importante que haja o trazido. E voc significa muito para mim.

Nathaniel bebeu um gole de cerveja.

-Est preocupada com algo, Meg. por que no o diz?

-De acordo. Ontem, depois de que foi, estive pensando em como me sentiria se voc no voltasse. Sei que haveria um oco em minha vida. Talvez, poderia ench-lo outra vez; mas, em parte, porque algo me faltaria. Quando me perguntava o que me faltaria, sempre encontrava a mesma resposta.

-E qual era, Meg?

-Voc, Nathaniel -disse beijando-o na bochecha-, voc.



Mais tarde, quando tinha escurecido e a lua flutuava sobre a gua, Megan observava os foguetes. O cu se enchia de cor. Cascatas de fascas choviam do cu e caam  gua em uma celebrao do dia da independncia, e de um novo princpio na vida do Megan.

O desdobramento era assombroso e os meninos olhavam boquiabertos. As exploses retumbaram no ar at o final. A noite se encheu do brilho daquelas estrelas artificiais, que exploravam em cascatas de ouro, torre azuis ou espirais vermelhas. At os fogos finais, que acabaram com uma traca.

Muito depois de ter terminado, com os meninos na cama e quando logo que ficava ningum, Megan estava em sua habitao, em bata, escovando o cabelo. Sentia a excitao da antecipao.

Quando terminou de escovar-se, dirigiu-se  habitao do Nathaniel.

Nate estava sentado na terrao. No havia flanco muito persuadi-lo para que ficasse outra noite. Estava cansado e dolorido, e o banho quente no o tinha aliviado tanto como esperava, mas mesmo assim estava feliz, porque estava esperando ao Megan.

E Megan apareceu na habitao.

Levava uma bata de seda azul escura, que caa sobre seu corpo deixando ver as formas de seu corpo. Seu cabelo despedia brilhos dourados e seus olhos eram escuros e misteriosos como safiras.

-pensei que te viria bem uma massagem -disse sonriendo-, e eu tenho muita experincia em relaxar msculos tensos. Ao menos, com os cavalos.

Nate quase tinha medo de respirar.

-De onde tiraste a bata?

-Emprestou-me isso Lilah, pensei que voc gostaria mais que a minha -disse Megan, e ao no obter resposta, lhe fez um n na garganta-. Se preferir que v, entendo-o. No esperava que estivesse bem para... No temos que fazer o amor, Nate. Solo quero estar contigo.

-No quero que v.

Megan voltou a sorrir.

-por que no te pe de barriga para baixo? Comearei pelas costas. De verdade que me d bem -disse Megan renda-se-. Os cavalos se voltavam loucos comigo.

Nate se aproximou da cama e lhe acariciou o cabelo.

-E lhes fazia massagens em bata de seda?

-Sempre -disse Megan-. Te jogue.

ficou linimento e se esfregou as mos para esquentar as Palmas. Cuidadosamente, para no incomod-lo com o movimento do colcho, ajoelhou-se sobre ele.

-Se te fizer mal, diga-me isso 

Comeou pelos ombros, evitando cuidadosamente os moretones. Tinha um corpo de guerreiro, pensou. Duro e compacto, e com as cicatrizes da batalha.

Nate fechou os olhos e se relaxou, abandonando-se ao prazer da massagem. Notava o roce da seda sobre sua pele e, por debaixo do aroma de linimento, estava o aroma sutil do perfume do Megan, outro blsamo para seus sentidos.

Os dores comearam a desaparecer e se foram transformando em uma sensao mais intensa e primria.

-Melhor? -disse Megan ao terminar.

-No. Est-me matando. No lhe pares.

Megan riu brandamente e lhe tirou a toalha, para lhe massagear os rins.

-Estou aqui para que se sinta melhor, Nathaniel. Tem que te relaxar para que eu possa faz-lo bem.

-Faz-o de maravilha -disse Nate com um gemido.

Megan o acariciava, apertava-o, beliscava-o, e logo o beijava.

-Tem um corpo precioso -disse Megan, que respirava pesadamente,  medida que acariciava e explorava o corpo do Nate-. eu adoro olh-lo, e toc-lo -dava ou, e subiu pelas costas, beijando-a, at chegar a lhe morder no lbulo da orelha-. Date a volta -sussurrou.

Nate se deu a volta e Megan o beijou, mas quando Nate quis lhe acariciar os seios, apartou-se.

-Espera -disse Megan, e sem deixar de olh-lo, p-lhe as mos sobre o peito-. Tm-lhe feito marca.

-Eu lhes fiz mais.

-Nathaniel, o guerreiro. Estate quieto -sussurrou Megan, e se inclinou para diante para beijar os moretones e arranhes de seu rosto-. Eu te tirarei a dor.

Ao Nate palpitava o corao. Megan sentia os batimentos do corao na palma de sua mo.  luz do abajur, os olhos do Nate eram escuros como a fumaa.

Continuou lhe massageando os ombros, os braos, as mos; lhe beijando as mos, as lambendo.

O ar era denso e doce, e Nate respirava cada vez com maior dificuldade. Nunca se havia sentido to indefeso com nenhuma outra mulher.

-Megan, preciso te tocar.

Olhando-o, desabotoou-se o cinturo da bata, e esta caiu sobre a cama. Levava um body de seda, tambm azul. Nate lhe baixou as ombreiras.

Megan fechou os olhos e jogou a cabea para trs, enquanto Nate lhe acariciava os seios sobre a seda, e logo debaixo da seda. Depois, Megan se levantou um pouco para que Nate a penetrasse, lentamente, com delcia. Os dois gemeram.

estremeceu-se quando Nate se incorporou para agarrar seus quadris. Tinham calor e suavam. Megan o beijou apaixonadamente, como se queria devor-lo.

-me toque -disse tomando suas mos e as pondo sobre seus seios-, me toque.

Cavalgou sobre ele como sobre um trovo. Nate pronunciava seu nome, atropeladamente, e, freneticamente, os dois alcanaram o orgasmo, que foi como um estalo de foguetes.

Megan o abraou com fora e se pegou a ele. Logo, fraco como a gua, deixou-se cair, e apoiou a cabea sobre seu peito.

-Tenho-te feito mal?

Nate no podia encontrar as foras para abra-la e permaneceu quieto, tendido sobre a cama.

-No sei, solo estava pendente de ti.

-Nathaniel -disse Megan, e o beijou no corao-. Ontem me esqueci de te dizer algo.

-Mmm, o que?

-Que eu tambm te quero -disse Megan, e viu a emoo no olhar do Nate.

-Me alegro -disse Nate abraando-a, por fim.

-No sei se for o bastante, mas...

Nate a silenciou com um beijo.

12



Os foguetes no tinham estado mau, mas quando as Calhoun se reuniram para preparar as bodas de Coco, podia esperar-se algo, certamente espetacular.

Tudo era possvel, de um baile de mscaras a umas bodas no mar, embora o voto final foi para uma celebrao noturna, sob as estrelas. Cursaram os convites, porque as bodas seria ao cabo de uma semana.

Megan empregava seu tempo livre ajudando no que podia.

-No sei por que tanto animao -disse tia Colleen. Megan estava contando os guardanapos-. Quando uma mulher de sua idade se deixa apanhar, mais lhe vale ter o sentido comum de faz-lo discretamente.

Megan perdeu a conta, e teve que comear de novo.

-No gosta das festas, tia Colleen?

-Quando h razo para elas. Ficar sob a tutela de um homem nunca me pareceu motivo de celebrao.

-Coco no est fazendo isso, O Holands a adora.

-Mmm, o tempo dir. Quando um homem te pe um anel, esquece-se de ser afetuoso e de ter cuidados -disse tia Colleen, observando ao Megan-. No  por isso pelo que lhe est dando largas a esse marinheiro? Porque tem medo do que passe depois?

-Claro que no -disse Megan, que havia tornado a perder a conta-. Alm disso, estamos falando de Coco e O Holands, no de mim. Coco merece ser feliz.

-No todo mundo obtm o que merece -replicou Colleen-. Voc sabe bem, ou no?

Megan se exasperou.

-No sei por que tenta danific-lo. Coco  feliz, eu sou feliz e fao quanto posso para que Nathaniel o seja.

-No te vejo comprando um vestido de noiva.

-O matrimnio no  a resposta para todo mundo. Para voc no o foi.

-No, eu sou muito lista para cair nessa armadilha. Os homens chegam e passam. Talvez o adequado se vai com outros, mas sobrevivemos, no? Porque no fundo, sabemos como so -disse Colleen, e olhou ao Megan aos olhos-. Ns conhecemos o pior deles. Seu egosmo, sua crueldade, sua falta de honra e de tica. de vez em quando aparece um que parece distinto a outros, mas ns somos muito soube, muito cuidadosas para dar o passo. Se vivermos sozinhas, ao menos saberemos que nenhum homem tem o poder de nos fazer danifico. 	

-Eu no estou sozinha disse Megan, fracamente. 	

-No, voc tem um filho. Um dia crescer e, se tiver feito um bom trabalho, voar do ninho para fazer o seu prprio. 

	Colleen sacudiu a cabea e, por um instante, pareceu to inconsolablemente triste, que Megan apoiou uma mo em seu brao. Mas a mulher permaneceu rgida, com a cabea erguida. 	

-Ter a satisfao de que escapaste  armadilha do matrimnio, como eu tenho feito. Crie que ningum quis casar-se comigo? Houve um -prosseguiu Colleen- que quase me convenceu antes de que recordasse o inferno pelo que tinha passado minha me -disse Colleen, franzindo os lbios-. Tratou de acabar com ela de todas as formas possveis, com regras., com dinheiro, egostico. Ao final, acabou por mat-la e, lentamente, muito lentamente, voltou-se louco. Acredito que foi pela perda de algo que nunca foi capaz de possuir de tudo. Por isso atirou tudo o que lhe pertencia e se encerrou em seu purgatrio privado. 	

-Sinto muito -disse Megan-. Sinto-o muito. 				

-Por mim? Eu sou velha e faz tempo que passou o tempo dos lamentos. aprendi muito de minha experincia, igual a voc aprendeste que a tua. A no confiar, a no arriscar-se. Deixa que Coco tenha seu anel, ns temos liberdade. 	

Colleen se afastou, caminhando muito erguida, deixando ao Megan sumida em seus pensamentos. 	

equivocava-se, disse-se, e comeou a contar guardanapos outra vez. Ela no estava fechada ao amor, to solo fazia uns dias que lhe tinha declarado seus sentimentos a um homem e no queria deixar que sua experincia com o Baxter escurecesse o que compartilhava com o Nathaniel.

Mas, em realidade, sim que a influa. apoiou-se no gonzo da porta, vacilante. Influa-a, e no estava segura de poder fazer nada para impedi-lo. O amor no bastava sem compromisso, sabia bem. Ela tinha amado ao Baxter de um modo pleno, vital. E por isso tinha dvidas. Inclusive sabendo que o que sentia pelo Nathaniel era mais intenso e mais verdadeiro, no podia desembaraar-se daquelas dvidas.

Teria que pens-lo com calma assim que tivesse tempo. E quando o fizesse, disse-se, encontraria a resposta, quo nico tinha que fazer era processar os dados.

Voltou a perder a conta dos guardanapos. Que classe de mulher era? Estava tratando de converter as emoes em equaes, como se fossem uma sorte de cdigo que tinha que decifrar antes de conhecer seu prprio corao.

Mas tinha que deixar de pensar assim. Se nem sequer podia pensar em seu corao como...

Perdeu o fio de seus pensamentos, porque outra idia lhe cruzou pela mente.

OH, Deus, um cdigo. Deixando os preparativos das bodas, dirigiu-se correndo a sua habitao.

O livro do Fergus estava onde o tinha deixado, sobre a mesinha. Abriu-o e passou as pginas freneticamente.

deu-se conta de que os nmeros das ltimas pginas no podiam ser nmeros de conta ou de lotes de mercadorias. No podia ser algo to lgico. Estavam cotados nas ltimas pginas, depois de muitas delas em branco, depois da ltima anotao em branco. 	

Como no se deu conta antes? tratava-se de uma mensagem, pensou Megan, algo que se havia sentido impulsionado a escrever, mas que no tinha querido que outros olhos pudessem ler. Uma confisso, possivelmente, ou uma splica de compreenso. 	

sentou-se e suspirou profundamente. depois de tudo, eram nmeros e no havia nada que ela no pudesse fazer quando se tratava de nmeros. 			

Passou uma hora, logo dois. Enquanto trabalhava a mesa se foi enchendo de papis enrugados. Cada vez que se detinha se perguntava se teria se tornado louca. 	

Mas no podia abandonar aquela idia e seguia encadeada  mesa. Ouviu o som da sereia de um navio, a tarde avanava para a noite. 	

 medida que seus esforos fracassavam, solo aumentava sua determinao. Encontraria a chave. Por muito tempo que levasse, encontraria-a. 	

De repente se deteve, e observou tudo de novo. Como se as peas comeassem a encaixar. Lentamente, comeou a transcrever os nmeros em letras e deixou que o criptograma tomasse forma. 		

A primeira palavra em formar-se foi "Bianca". 	

-OH, Deus -disse tampando-a boca-. Funciona. 

Prosseguiu passo a passo, letra por letra, palavra por palavra. 	

Estava emocionada pelo descobrimento, mas no podia deixar-se levar pela emoo, porque isso  solo serviria para cometer enganos, de modo que se tornou para trs e se tranqilizou. Quando sua mente esteve clara de novo, abriu o livro e leu:


Bianca me obceca. No encontro paz. Tudo o que era seu deve desaparecer, tenho que vend-lo, destrui-lo. Existem os fantasmas? Tolices, mentiras. Mas sinto que me olhe, vejo seus olhos, verdes como esmeraldas. Deixarei-lhe uma lembrana para satisfaz-la e ser o final de tudo. Hoje dormirei.


Sem flego, Megan seguiu lendo. As notas eram muito precisas, muito singelas. Para ser um homem que se tornou louco com suas aes, Fergus Calhoun era um homem que no tinha perdido a inteligncia.

guardou-se o papel no bolso e saiu correndo. Nem sequer pensou em falar com as Calhoun. Aquilo era algo que tinha que terminar ela sozinha. Encontrou o que necessitava na zona da casa que estavam reformando: um cinzel, uma barra de ferro e cinta mtrica, e subiu  habitao da Bianca, na torre.

Tinha estado ali antes e sabia que Bianca sonhou com o Christian ali, chorou por ele e morreu ali.

As Calhoun havia a tornado a converter em um lugar encantador, com decorao de cor pssego e mveis delicados, com cermica e porcelana.

A Bianca teria gostado.

Megan fechou a pesada porta da estadia. Usando a cinta mtrica, seguiu os dados do Fergus. Trs metros da porta, quatro da parede norte.

Sem pensar nos destroos que estava a ponto de ocasionar. Megan apartou o tapete e colocou o cinzel entre as pranchas.

Era um trabalho duro. A madeira era velha, mas grosa e forte. Algum a tinha limpo e encerado. Colocava o cinzel e atirava, detendo-se solo para estirar os msculos. A luz do dia se ia indo, acendeu o abajur.

A primeira tabela cedeu com um rangido de protesto. Megan suava e se amaldioou por no ter levado uma lanterna, mas, sem pensar nas aranhas que pudesse haver, colocou a mo no oco.

Pensou que tocava algo, mas por muito que estirasse o brao, no podia agarr-lo. Resignada, ficou a trabalhar na seguinte tabela.

Conseguiu tir-la ao cabo de um momento, tendeu-se de barriga para baixo e voltou a colocar a mo no oco.

Tocou um pouco de metal. Era uma caixa, custou-lhe agarr-la porque tinha as mos suarentas, mas finalmente conseguiu tir-la.

Era quadrada, de trinta centmetros de lado e pesava muito pouco. Tirou-lhe o p com a manga e tratou de abri-la, mas ao pouco desistiu.

No era ela quem devia faz-lo.



-No sei onde pode estar -dizia Amanda, dando voltas pelo salo-. No est em seu escritrio nem em sua habitao.

-Estava revolvendo em um armrio quando a vi -disse Colleen-.  uma mulher adulta. Pode que se foi dar um passeio.

-Sim, mas... -disse Suzanna, e se interrompeu ao ver o Kevin. No podiam preocupar ao menino, disse-se. Solo porque Megan nunca chegava tarde no havia razo para supor que ocorria algo mau-. Pode que esteja no jardim. vou procurar a.

-J vou eu -disse Nathaniel levantando-se. No acreditava que Megan pudesse esquecer sua entrevista para jantar e tivesse sado a passear ao jardim, mas procurar era melhor que preocupar-se-. Se vier quando estiver fora...

Mas ento ouviram suas pegadas e olharam para a porta.

Estava despenteada, com os olhos muito abertos. Tinha a cara e a roupa cheia de p e sorria de brinca a orelha.

-Sinto chegar tarde.

-Megan, o que passou? -perguntou-lhe Sloan desconcertado-. Est igual a se te tivesse derrubado pelo cho.

-J, bom -disse Megan, tornando o cabelo para trs-. Estava to concentrada que nem me dei conta do tarde que era. Sloan, tive que usar algumas ferramentas, esto na torre.

-Na...?

Mas Megan cruzou a habitao para aproximar-se de tia Colleen, ajoelhando-se a seus ps e lhe pondo a caixa no regao.

-encontrei algo que lhe pertence.

Colleen olhou a caixa franzindo o cenho, mas o corao lhe pulsava com fora.

-por que crie que me pertence?

Megan tomou sua mo e a apoiou sobre o metal envelhecido.

-Escondeu-a debaixo do cho da torre quando ela morreu -disse. Todos estavam pendentes de suas palavras-. Dizia que o tinha obcecado.

Tirou a folha onde tinha a transcrio e a deixou em cima da caixa.

-No posso l-lo -disse Colleen.

-Eu o lerei -mas quando Megan ia comear a ler, Colleen a deteve.

-Quero que Coco a oua.

Enquanto esperavam, Megan se levantou e se aproximou do Nate.

-Era um cdigo -disse-lhe e se dirigiu a todos-. Os nmeros das ltimas pginas do livro do Fergus. No sei como no me dava conta antes... Mas hoje o averigei.

- como um tesouro? -disse Kevin.

-Sim -disse Megan, abraando-o.

-Olhe, querida, agora no tenho tempo -dizia Coco discutindo com a Amanda, que a levava a salo-. Estamos preparando o jantar.

-Sente-se e cala -ordenou tia Colleen-. A garota tem que nos ler um coisa e traz algo de beber -disse ao C. C.-, far-lhe falta -disse, e olhou ao Megan-. Adiante.

Megan leu a transcrio. Coco suspirava e outros escutavam com ateno. Quando terminou de ler tinha a garganta seca pela emoo.

-Bom -disse Megan, com a mo do Nate entre as suas-, subi  torre, tirei algumas pranchas e a encontrei.

Inclusive os meninos guardavam silncio. Colleen se disps a abrir a caixa. Tremiam-lhe os lbios enquanto abria o ferrolho e logo a tampa. Tirou um pequeno marco oval.

-Uma foto -disse-. De minha me comigo, Sejam e Ethan.  de no ano anterior a sua morte, em Nova Iorque -disse, acariciou-a e a ofereceu a Coco.

-OH, tia Colleen.  a nica foto de todos vs.

-Tinha-a em seu penteadeira. Um livro de poemas -disse Colleen tirando o magro volume-. adorava a poesia.  Yeats. Algumas vezes me lia isso e me dizia que recordava a Irlanda. Um broche -disse tirando um broche esmaltado e decorado com violetas-. Sejam e eu o damos de presente em Natal. A bab nos ajudou a compr-lo, claro. Levava-o muito freqentemente.

Tambm havia um relgio de madreprola e um co de jade, pouco maior que o polegar do Colleen.

Tambm havia outros pequenos tesouros. Uma pedra branca, um par de soldados de chumbo, o p de uma flor. E um colar de prolas.

- o presente de bodas de meus avs -disse Colleen, acariciando-o-. Disse-me que me daria de presente isso o dia de minhas bodas. No gostava que o luzisse. Muito singelo, dizia-lhe, mas minha me me ensinava isso muitas vezes. Dizia que as prolas dadas de presente por amor eram mais valiosas que os diamantes exibidos por orgulho. Disse-me que eu tinha que as guardar bem e as levar freqentemente, porque... -disse com um n na garganta-... porque as prolas necessitam carinho.

Fechou os olhos e se recostou sobre o respaldo.

-Eu acreditava que ele as tinha vendido.

-Est cansada, tia Colleen -disse Suzanna, aproximando-se de seu lado-. Quer que acompanhe a sua habitao? Posso te levar a comida em uma bandeja.

-No sou uma invlida -disse Colleen-. Sou velha, mas no estou doente. Bom -disse apertando a mo da Suzanna e lhe dando o broche-, isto  para ti.

-Tia Colleen...

-Ponha o disse tia Colleen, tomando o livro de poesia-. Passa-te sonhando a metade do tempo. Toma, sonha com isto.

-Obrigado -disse Lilah, beijando a mo de sua tia.

-Para ti o relgio -disse Colleen a Amanda-. E para ti -disse ao C. C.-, a figura de jade.

Logo olhou ao Jenny.

-Est esperando seu turno?

Jenny sorriu.

-No, senhora.

-Para ti, isto -disse-lhe lhe dando a pedra branca-. Eu era mais jovem que voc quando a dava a minha me, e pensava que era mgica. Pode que o seja.

- muito bonita -disse Jenny, encantada com seu novo tesouro-. vou pr a em meu estantera.

Colleen se esclareceu garganta.

-Isto para vs, meninos -disse aos meninos lhes dando os soldados de chumbo-. Eram de meus irmos.

-Obrigado -disse Alex.

-Obrigado -repetiu Kevin-.  como um cofre dos tesouros. No vai dar nada a tia Coco?

-Vou dar a foto.

-Tia Colleen, no tem por que.

-Toma-a como presente de bodas e no se fale mais.

-Obrigado, no sei o que dizer.

-Poda o marco -disse Colleen, levantando-se

-Uma foto -disse-. De minha me comigo, Sejam e Ethan.  de no ano anterior a sua morte, em Nova Iorque -disse, acariciou-a e a ofereceu a Coco.

-OH, tia Colleen.  a nica foto de todos vs.

-Tinha-a em seu penteadeira. Um livro de poemas -disse Colleen tirando o magro volume-. adorava a poesia.  Yeats. Algumas vezes me lia isso e me dizia que recordava a Irlanda. Um broche -disse tirando um broche esmaltado e decorado com violetas-. Sejam e eu o damos de presente em Natal. A bab nos ajudou a compr-lo, claro. Levava-o muito freqentemente.

Tambm havia um relgio de madreprola e um co de jade, pouco maior que o polegar do Colleen.

Tambm havia outros pequenos tesouros. Uma pedra branca, um par de soldados de chumbo, o p de uma flor. E um colar de prolas.

- o presente de bodas de meus avs -disse Colleen, acariciando-o-. Disse-me que me daria de presente isso o dia de minhas bodas. No gostava que o luzisse. Muito singelo, dizia-lhe, mas minha me me ensinava isso muitas vezes. Dizia que as prolas dadas de presente por amor eram mais valiosas que os diamantes exibidos por orgulho. Disse-me que eu tinha que as guardar bem e as levar freqentemente, porque... -disse com um n na garganta-... porque as prolas necessitam carinho.

Fechou os olhos e se recostou sobre o respaldo.

-Eu acreditava que ele as tinha vendido.

-Est cansada, tia Colleen -disse Suzanna, aproximando-se de seu lado-. Quer que acompanhe a sua habitao? Posso te levar a comida em uma bandeja.

-No sou uma invlida -disse Colleen-. Sou velha, mas no estou doente. Bom -disse apertando a mo da Suzanna e lhe dando o broche-, isto  para ti.

-Tia Colleen...

-Ponha o disse tia Colleen, tomando o livro de poesia-. Passa-te sonhando a metade do tempo. Toma, sonha com isto.

-Obrigado -disse Lilah, beijando a mo de sua tia.

-Para ti o relgio -disse Colleen a Amanda-. E para ti -disse ao C. C.-, a figura de jade.

Logo olhou ao Jenny.

-Est esperando seu turno?

Jenny sorriu.

-No, senhora.

-Para ti, isto -disse-lhe lhe dando a pedra branca-. Eu era mais jovem que voc quando a dava a minha me, e pensava que era mgica. Pode que o seja.

- muito bonita -disse Jenny, encantada com seu novo tesouro-. vou pr a em meu estantera.

Colleen se esclareceu garganta.

-Isto para vs, meninos -disse aos meninos lhes dando os soldados de chumbo-. Eram de meus irmos.

-Obrigado -disse Alex.

-Obrigado -repetiu Kevin-.  como um cofre dos tesouros. No vai dar nada a tia Coco?

-Vou dar a foto.

-Tia Colleen, no tem por que.

-Toma-a como presente de bodas e no se fale mais.

-Obrigado, no sei o que dizer.

-Poda o marco -disse Colleen, levantando-se apoiada no fortificao, e se dirigiu ao Megan-. Parece muito satisfeita.

Megan estava to contente que no podia fingir.

-Sim.

-No sente saudades.  muito lista, Megan, e tem recursos. Recorda-me mesma -disse Colleen, e tomou o colar de prolas.

-Espera -disse Megan, pensando que queria ficar as deixa que te ajude.

Colleen negou com a cabea.

-As prolas necessitam juventude. So para ti.

Perplexa, Megan deixou cair as mos.

-No, no me pode dar isso Bianca queria que fossem para ti.

-Queria que algum as luzisse.

-Mas algum da famlia. Devem ser para Coco, ou para...

-So para quem eu diga -disse Colleen.

-No  justo -disse Megan olhando a seu redor, procurando ajuda, mas encontrando sozinho sorrisos de satisfao.

-me parece muito bem -disse Suzanna.

Amanda acariciou o relgio.

-A mim tambm -disse.

-Encantador -disse Coco com lgrimas nos olhos-, encantador.

-Seguro que ficam muito bem -disse C. C.

- o destino -disse Lilah-. E no se pode lutar contra o destino.

-Ento, estamos de acordo? -disse Suzanna, olhou a seu redor e recebeu o consentimento de todos-. Pois j est.

-Ja! -exclamou Colleen-. Como se necessitasse aprovao para dispor do que  meu. Toma -disse dando o colar ao Megan-, sobe e te limpe, parece um deshollinador. Quero que as luza quando baixar.

-Tia Colleen...

-Nada de queixa. Faz o que te digo.

-Vamos -disse Suzanna, levando-se ao Megan-, ajudo-te.

Satisfeita, Colleen voltou a sentar-se.

-Bom, onde est meu refresco?



Mais tarde, quando a lua comeava a aparecer ao bordo do mar, Megan saiu a passear com o Nathaniel pelos escarpados. A brisa parecia sussurrar secretos assobiando sobre a erva e as flores.

Megan ia vestida de azul, com um vestido veraniego. As prolas brilhavam como pequenas e perfeitas luas em seu pescoo.

-V dia que tiveste, Megan.

-Ainda me d voltas a cabea. O deu de presente tudo, Nathaniel, mas ainda no compreendo por que quis me dar de presente o colar.

- toda uma mulher. E s algum to especial como ela se d conta de quando ocorre algo mgico.

-Magia?

-Megan,  to apegada  terra -disse Nate, lhe dando uma palmada na mo-. No te perguntaste, nem por um momento, por que cada presente encaixava to perfeitamente com cada um? por que faz oitenta anos Fergus Calhoun se viu impulsionado a guardar precisamente esses objetos? O broche para a Suzanna, o relgio para a Amanda, poesia do Yeats para o Lilah e um figura de jade para o C. C., alm da fotografia.

- uma coincidncia -murmurou Megan, mas duvidava.

Nate se ps-se a rir e a beijou.

-O destino funciona a base de coincidncias -disse.

-E o colar?

-Um smbolo de famlia. Fica muito bem.

-Sei que tinha que ter encontrado o modo de no aceit-lo, mas quando Suzanna me ps isso na habitao, parecia que tivessem sido minhas toda a vida.

-E o so. te pergunte por que as encontrou, por que ningum as tinha encontrado at agora. O livro do Fergus s apareceu quando voc deveste viveu aqui. A mensagem est escrita com nmeros, quem melhor que voc para resolv-lo?

Megan sacudiu a cabea e deixou escapar um suspiro.

-No posso explic-lo.

-Ento, aceita-o.

-Uma pedra mgica para o Jenny, soldados para os meninos -disse apoiando a cabea no ombro do Nathaniel-. Suponho que no posso discutir tantas coincidncias -disse, fechou os olhos e deixou que a brisa lhe acariciasse as bochechas-.  difcil acreditar que faz poucos dias morria de preocupao. Encontrou-o perto daqui, verdade?

-Sim, seguindo  gaivota.

-A gaivota? -perguntou Megan, desconcertada-. Que estranho. Kevin me contou que um pssaro branco com os olhos verdes esteve com ele toda a noite. Tem muita imaginao.

-Havia um pssaro -disse Nate-. Uma gaivota completamente branca com os olhos verdes. Os olhos da Bianca.

-Mas...

-Se te topar com um fato mgico, aceita-o -disse Nathaniel, lhe pondo um brao sobre os ombros. Os dois desfrutavam de do som do mar rompendo contra as rochas-. Tenho algo para ti, Megan.

Megan estava muito a gosto, quase dormitada e protestou quando Nate lhe tirou o brao dos ombros.

Nate procurou em sua jaqueta e tirou uns papis.

-Ao melhor no pode l-lo com to pouca luz.

-O que ?

- um seguro de vida.

-Um seguro? Pelo amor de Deus, ponha em uma caixa forte ou no banco.

-te cale -disse Nate, que comeava a estar nervoso-. Tem uma aplice de hospitalizao, minha hipoteca, um par de bnus. Queria segurana e eu quero te dar segurana.

-Tem-no feito por mim.

-Faria algo por ti. E se quiser que invista em aes do zoolgico ou lute contra um drago, farei-o.

Megan o olhou. Tinha o oceano e o cu a suas costas, os ps separados igual a se estivesse em um navio e o olhar intenso, desafiando  escurido. E ainda ficavam moretones na cara.

-Venceu a seu drago faz muito tempo, Nathaniel. Eu tive problemas para me enfrentar ao meu -disse Megan-. Esta tarde estive falando com tia Colleen. H-me dito muitas coisas, h-me dito que eu, como ela, era muito lista para me arriscar, para deixar que um homem se convertesse em algo muito importante. Que para mim era melhor estar sozinha que lhe dar a algum minha confiana, meu corao. Deu-me medo. H-me flanco me dar conta do que se propunha ao me dizer isso. O que queria era que me enfrentasse comigo mesma.

-E o tem feito?

-No  fcil para mim. Eu no gosto de tudo o que vejo, Nathaniel. Levo anos me convencendo de que era forte e segura de mim mesma, e no deixando que algum se unisse para mim, protegia-me e protegia a meu filho.

-Fez um grande trabalho.

-Muito bom, em alguns aspectos. Fechei-me ao mundo porque era mais seguro. E ento, chegou voc -disse Megan, lhe acariciando a bochecha-. Tinha tanto medo do que sentia por ti... Mas j no tenho medo. Quero-te, Nathaniel. No importa se for o destino ou uma coincidncia, ou pura sorte. Solo me alegro de te haver encontrado -acrescentou Megan e o olhou e o beijou. Alegre de sentir a liberdade de estar em seus braos, balanados pela brisa do mar-. No necessito seguros de vida, Nathaniel murmurou-. Embora no quero dizer que voc no.  importante que... deixa de rir.

-Estou louco por ti -disse Nate rendo, elevando-a no ar, girando em crculos.

-Est louco? -disse Megan, aferrando-se a ele-.

Nos vamos cair.

-Esta noite, no. Esta noite nada pode nos acontecer. No te d conta? Agora somos mgicos -disse Nathaniel, deixando-a no cho e abraando-a-. Quero-te, Meg, embora no me pea que me ponha de joelhos.

Megan ficou quieta.

-Nathaniel, penso que no...

-No pense, escuta. dei a volta ao mundo mais de uma vez e vi em dez anos mais que a maioria da gente em toda sua vida. Mas tive que voltar para casa para te encontrar. No diga nada -murmurou Nate-. vamos sentar nos.

Conduziu-a a uma rocha e se sentaram.

-Tenho algo mais para ti. O do seguro s era para aplainar o caminho. Olhe -disse Nate, tirando uma cajita do bolso-. E me diga que o destino no existe.

Com dedos trementes, Megan abriu a caixa. E com admirao, observou seu contedo.

-Uma prola -sussurrou.

-ia comprar um diamante,  o normal, mas, quando vi a prola, soube que era para ti. Coincidncia?

-No sei. Quando a compraste?

-A semana passada. Pensei em vir aqui contigo, com a lua e as estrelas -disse Nathaniel observando o anel. Uma prola rodeada de pequenos diamantes-. A lua e as estrelas -repetiu tomando as mos do Megan-. Isso  o que quero te dar, Megan.

-Nathaniel -disse Megan. dizia-se que ia muito depressa, mas no era verdade-.  precioso.

-te case comigo, Megan. Comea uma nova vida comigo, me deixe ser o pai do Kevin e tenhamos mais meninos. Deixa que me faa velho te amando.

Megan no podia recorrer  lgica, ou pensar em razes pelas que atrasar as bodas, assim respondeu com o corao.

-Sim, sim a tudo -disse rendo e lhe jogando os braos ao pescoo-. OH, Nathaniel, sim, sim, sim.

Nathaniel a olhou com amor.

-Seguro que no quer sopes-lo?

-Seguro, seguro -disse Megan, e lhe ofereceu a mo esquerda-. Por favor, quero a lua e as estrelas. Quero a ti. -

Nate lhe ps o anel.

-J me tem, carinho.

Quando a estreitou entre seus braos, Nate teve a impresso de que o ar suspirava com voz de mulher.Eplogo




-Mame, j chegamos!

Megan levantou a vista de sua mesa. Kevin entrou no despacho.

-Que bonito est! -disse Megan com sinceridade ao ver seu filho com traje e gravata.

-H dito que tinha que me vestir bem para o jantar de aniversrio da tia Coco. Suponho que assim est bem -disse Kevin, arrumando o pescoo-. Papai me ensinou a fazer o n da gravata.

-E o tem feito muito bem. Que tal o negcio hoje? houve muitos turistas?

-Muito bem. O mar estava em calma e corria a brisa. Vimos a primeira baleia nada mais sair do porto. Se no fora ao colgio, trabalharia com papai e Holt todos os dias e no s os sbados.

-Se no fosse ao colgio, nunca saberia mais do que sabe hoje. Ter que te conformar com os sbados, companheiro -disse Megan, lhe revolvendo o cabelo.

O certo era que ao Kevin no o incomodava ir ao colgio. depois de tudo, ia com o Alex.

-Todo mundo veio? Quando vo nascer os meninos? -disse.

Com as Calhoun em vrios estados de embarao, aquela era uma pergunta difcil de responder.

-Pois entre o ms que vem e Ano Novo.

Kevin passou a mo pelo bordo da mesa.

-Quem crie que ser a primeira? C. C. ou Suzanna?

-por que? -perguntou-lhe Megan, franzindo o cenho-. Kevin, no ter apostado em ver quem d a primeiro luz?

-Mas, mame...

-No te ocorra apostar -disse Megan, e sorriu-. Me d um minuto.

-Date pressa. A festa j comeou.

-De acordo, solo tenho que... -disse Megan. "Mas nada," disse-se, e fechou a pasta-. Acabou-se o trabalho, vamos  festa.

-Venha! -disse Kevin, e, tomando a da mo, tirou-a da habitao-. O Holands tem feito um bolo gigante, com quase cem velas.

-Como que cem velas? J sero menos -disse Megan, sonriendo. Ao chegar  asa da famlia, olhou ao teto-. Carinho, ser melhor que subida.

-Procura a algum? -disse Nathaniel descendo pelas escadas, com um vulto rosa nos braos.

-J dizia eu que foste despertar a.

-Estava acordada. Verdade, nenm? -disse Nate e beijou a sua filha-. Estava perguntando por mim.

-De verdade?

-Ainda no sabe falar -disse-lhe Kevin a seu pai-. Solo tem seis semanas.

- muito lista para sua idade. To preparada como sua me.

-O bastante para reconhecer a um parvo quando o v.

Faziam uma imagem enternecedora. O hombrn com o menino a seu lado e o beb em seus braos, pensou, Megan e sorriu.

-Vem aqui, Lua.

-Tambm quer ir  festa -disse Kevin, acariciando a sua irm.

-claro que sim. H-me isso dito.

-OH, Papai.

Sonriendo, Nathaniel deu a seu filho um tapinha na cabea.

-Tenho fome. Poderia me comer uma baleia, companheiro, e voc?

-Mais ou menos -disse Kevin, e se dirigiu ao salo-. Vamos, todo mundo est esperando.

-Tenho que fazer isto primeiro -disse Nathaniel inclinando-se para beijar ao Megan.

-Buah -disse Kevin, e se dirigiu para onde estava o rudo e a diverso de verdade.

-Parece muito satisfeito de ti mesmo -disse Megan.

-E como no ia estar o? Tenho uma mulher muito bonita, um filho magnfico e uma filha incrvel -disse passando um dedo pelo colar de prolas do Megan-. Que mais se pode pedir? E voc tudo bem?

Megan voltou a beij-lo.

-Eu tenho a lua e as estrelas.


